Revista Rua

2020-02-13T11:50:30+00:00 Cultura, Fotografia

Rita Neves: “A presença humana é constante no meu percurso fotográfico e é o tema que mais me apaixona”

©Rita Neves
Redação
Redação13 Fevereiro, 2020
Rita Neves: “A presença humana é constante no meu percurso fotográfico e é o tema que mais me apaixona”

A presença humana é frequentemente repetitiva nas tuas fotografias, tanto como valor de escala, como retrato ou até mesmo como ausência. São as pessoas que completam os teus sítios?

A presença humana é constante no meu percurso fotográfico e é o tema que mais me apaixona. Como fotógrafa, muito antes de ter presença online ou de publicar no instagram, sempre desenvolvi trabalho em torno da condição humana – numa abordagem mais documental (como documentar as manifestações e lutas de trabalhadores e de movimentos ativistas nos tempos da austeridade) ou de streetphoto (registos mais avulsos de viagens ou quotidianos que deram aso a uma exposição sobre contextos de trabalho em diferentes países – um tema que me apaixona e que tento sempre aprofundar, quando possível). Pelo que não creio que sejam as pessoas que completam os meus sítios, embora o meu trabalho de 2017/2019 induza essa formulação, pela forte componente arquitetónica e minimalista, onde a presença humana se esbate.

Creio que é exatamente o contrário, os sítios, os espaços, os contextos completam o meu interesse pela componente humana, podem enquadrar, contextualizar, completar a história, mas a história que se cria existe apenas pela presença humana. Mesmo na minha fase mais minimalista, a relação com a arquitetura e com os espaços/lugares foi quase sempre focada nos indivíduos que os habitam e na sua relação com esses espaços, mesmo quando ausentes.

Se visitarmos a tua página completa reparamos que, no início, as tuas fotografias revelavam-se geométricas, mais abstratas e com muito menos presença humana. Mais tarde, as tuas fotos absorvem esse mundo, mas complementam-se com uma estrutura mais observadora da relação Homem/objeto. O que mudou na tua forma de ver o que fotografas?

Quando iniciei a minha conta de instagram tomei contacto com o trabalho de excelentes fotógrafos que se inserem na corrente minimalista ou cujo trabalho tem uma relação próxima com a arquitetura e na articulação da componente humana com espaços arquitetónicos (dos quais destaco @alexcoelholima, @ana_gil_, @martanferreira, @mftokyo e @voodoolx pela influência direta que tiveram no meu trabalho, nessa altura). Fui muito influenciada pelos seus percursos, aprendi muito com os seus trabalhos de fotografia e a sua abordagem à edição digital, quis experimentar e perceber se também “conseguia fazer” e foi um processo de descoberta e aprendizagem que ganhou consistência.

Mas não era eu. Foi desafiante e estimulante, aprendi muito, mas não correspondia realmente ao que me define enquanto fotógrafa e comecei a sentir alguma inquietação, cansaço e insatisfação relativos ao meu percurso fotográfico, inquietações que ainda não se traduziam de forma consciente.

O aumento de engagement, a oferta de trabalho através do instagram, o sistema de recompensa associado ao retorno imediato e ao reconhecimento sob a forma de “likes”, “comments” ou de aumento de seguidores sabia-me bem e levava-me a crer que devia continuar essa abordagem, o que é a pior das armadilhas e que, a meu ver, contribui para uma uniformização de linguagens fotográficas, que tendem cada vez mais a repetir-se e a não surpreender (com muitas e honrosas exceções, claro).

Creio que esse é o processo mais desafiante e exigente de todos, nos dias que correm: conseguir fazer diferente, ter uma linguagem própria e honesta sem ser demasiadamente influenciada (obviamente que todos somos influenciados, todos vamos buscar inspiração e isso é positivo, faz-nos crescer enquanto fotógrafos, desde que não coloque em risco a nossa honestidade criativa), ou ser permeável ao sistema de recompensa imediato que as redes sociais nos dão, que é profundamente ilusório e não se traduz necessariamente uma maior qualidade do nosso trabalho.

A rutura com esse trajeto deu-se porque eu tive a sorte de ser confrontada por quatro grandes fotógrafos (e bons amigos) cujo trabalho muito admiro e me inspira diariamente: @alexcoelholima, @brunofsilva, @joao.bernardino e @martanferreira, que tiveram a generosidade de me criticar abertamente e alertar para o erro que estava a cometer e que o meu trabalho, apesar de ser mais mainstream, estava a perder a força e genuinidade iniciais e a assemelhar-se ao trabalho de outras pessoas, que me estava a perder noutras linguagens. Esse foi um momento crucial para mim enquanto fotógrafa – todas as críticas e alertas foram profundamente generosos, construtivos e tiveram um tremendo eco em mim e nas inquietações que já vinha a sentir, e de repente tudo fez sentido. Não lhes posso estar mais grata, devo-lhes a força e coragem para arriscar, para romper com o caminho que estava a delinear, despreocupar-me com o engagement, abraçar o caos e recomeçar do zero. Elogios há muitos, mas críticas duras, generosas, honestas e construtivas são raras e são as mais importantes para o nosso crescimento enquanto criadores. No meu caso, foram fundamentais.

A rua é o teu palco principal? É onde te sentes confortável?

A rua é o meu palco principal, mas não é de todo onde me sinto mais confortável. Sou uma fotógrafa mais tímida e reservada do que pode parecer. Quando fotografo acompanhada (com amigos ou em instameets) ou em trabalho profissional (porque ilusoriamente me sinto mais legitimada) é-me mais fácil a extroversão e o contacto com as pessoas que fotografo. Se fotografo sozinha e por iniciativa própria, há sempre um nervosismo inicial e tenho de me apropriar dos espaços e dos fluxos humanos até me sentir confortável e descontraída – preciso sempre de um certo reconhecimento prévio para me sentir mais confortável. A fotografia minimalista era, nesse sentido, mais fácil para mim, a relação com a componente humana era mais controlada e distanciada e, consequentemente, mais fria.

As abordagens mais aproximadas são-me mais exigentes e desconfortáveis, pressupõem uma maior entrega da minha parte, o que não me é fácil, porque também tenho de me expor perante a pessoa fotografada. Por outro lado, levantam-me mais questões éticas: respeito pela privacidade, tentar dignificar quem fotografo; um processo pessoal mais exigente e que me suscita maiores dúvidas. Este verão ganhei coragem e meti conversa com os Pescadores da Arte Xávega, na Costa da Caparica, porque queria fazer um trabalho de reportagem fotográfica mais consequente e aprofundado, mas também para tentar ultrapassar a timidez e reserva que me são naturais. Foi uma das experiências mais apaixonantes que tive enquanto fotógrafa e como pessoa. Aos poucos vou ganhando mais coragem, mas ainda está longe de ser um processo confortável. É algo que tenho de ultrapassar.

No teu trabalho parece existir uma linha do tempo que separa um universo real de um mais volátil, quase como se víssemos o criador a abandonar a sua obra com dever cumprido. Esta filosofia compreende-se na tua mensagem?

Sim, depois do momento crucial que me fez regressar às origens, abraçar o caos e começar do zero, creio que o meu trabalho foi abandonando um formalismo mais volátil e onírico (também muito assente na edição e manipulação de imagem) em prol de um universo mais real e aproximado, embora toda a aprendizagem que retive, em termos de composição e edição, no meu percurso mais minimalista, tem agora um papel determinante na forma como continuo a fotografar, compor e editar. Agora tento procurar e traduzir poesia no real em vez de a tentar (re)construir através de uma abordagem mais formal, minimal e manipulada digitalmente. Não obstante, continuo a editar para acentuar determinados aspetos ou mensagem que quero transmitir numa fotografia.

Se existe o abandonar da obra com sentido de dever cumprido? Não sei. Creio que faz tudo parte de um percurso de aprendizagem. Creio que há um sentimento mais de rutura e libertação, do que propriamente de dever cumprido ou obra acabada. Por agora estou muito comprometida com um determinado estilo de fotografia que quero aprofundar e a tentar sedimentar, desenvolver a minha linguagem enquanto fotógrafa. Mas quem sabe o que estarei a fotografar daqui a 10 anos?

Existe algum lugar (espaço) onde vais repetir fotografias, onde precisas de voltar frequentemente para o transformar?

 Não necessariamente. Existem alguns locais a que quero regressar, mais pela componente humana, do que pela geografia ou arquitetura, e o objetivo não será necessariamente transformar, mas sim apreender, conhecer, documenta, porque gostaria de desenvolver trabalhos mais aprofundados sobre essas comunidades/pessoas e as suas histórias: a Costa da Caparica e os pescadores da Xávega serão para mim um lugar de retorno constante, pela generosidade com que me receberam e pela importância que esse projeto tem para mim. Quero regressar à Afurada ou ao centro comercial Babilónia na Amadora, para desenvolver trabalhos mais aprofundados sobre as pessoas que lá vivem/trabalham. E em breve, se tudo correr bem, vou iniciar uma grande viagem pelo mundo (o que não me permitirá muitos retornos durante algum tempo), com o objetivo de abraçar de forma consequente duas grandes paixões: fotografar e viajar, conhecer outras realidades, pessoas, paisagens, outros contextos de trabalho, culturais, político-económicos e sociais; aprender com esse percurso e dedicar-me exclusivamente à fotografia durante dois anos, pelo menos.

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