Revista Rua

2018-11-27T11:30:29+00:00 Cultura, Música

Rock with Benefits: A música por uma boa causa

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Andreia Filipa Ferreira26 Novembro, 2018
Rock with Benefits: A música por uma boa causa
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É um festival de inverno, em Fafe, que junta música com causas solidárias. De 30 de novembro a 1 de dezembro, o Rock with Benefits volta a ocupar a cidade de Fafe, com participações de artistas nacionais de renome, como Miguel Araújo, Tiago Nacarato, Carlão, Isaura, Paraguaii, entre muitos outros. Em vários palcos e com bilheteira a reverter para causas solidárias, o Rock with Benefits tem como mote a entreajuda: ao público pede-se alimentos e outros auxílios. Falámos com Gonçalo Vieira de Castro, o diretor do Rock with Benefits, para conhecer melhor este projeto.

Gostaríamos de conhecer o conceito por detrás deste evento chamado Rock with Benefits. Qual é o principal objetivo da organização?

O Rock with Benefits surgiu de uma necessidade. No passado, em 2011, quando ainda não estávamos organizados deste modo, éramos apenas um grupo de jovens que procurava ajudar pessoas do concelho de Fafe. Distribuíamos cabazes de natal e entregávamos pontualmente cabazes de emergência a famílias carenciadas. A necessidade surge então pela abrangência que o banco alimentar teve ao acumular recolha de alimentos em todos os supermercados do concelho, bem como por todo o país. Tivemos de pensar numa alternativa para recolher bens e posteriormente entregar às famílias que tínhamos sinalizadas, muitas vezes casos de pobreza envergonhada que nem sequer estão sinalizadas pela segurança social ou IPSS que prestam ajuda social. Basicamente foi assim que surgiu o Rock with Benefits: um concerto em que a entrada era paga parcialmente em alimentos. Começou com apenas um dia e transformou-se neste evento incrível que já vai na quarta edição. O mote do festival surge exatamente nesta altura: música com causas. Juntar a solidariedade e a ação local na comunidade com música, com concertos de bandas e artistas nacionais para juntos conseguirmos criar alguma mudança, fazer melhor.

 Em termos de organização, quem faz parte deste comité de planeamento? E qual a ligação com o universo musical?

Antes de tudo, parece-me importante realçar o carácter voluntário da equipa deste festival. A equipa do Rock with Benefits é constituída por sensivelmente 30 pessoas que, de forma voluntária, lutam para manter este evento em contínuo crescimento. Há muito esforço, vontade e dedicação a um projeto que nos diz tanto. Claro que há responsabilidades específicas como em qualquer estrutura. Ao longo de todo o ano, e em questão de programação, há quatro pessoas que estão ligadas aos processos de contratação e prospeção de projetos. São no fundo a equipa que se reúne de forma mais regular. Depois há responsáveis específicos pelas áreas da comunicação, produção, financeira ou bilheteira que assumem principalmente as suas posições na altura do festival. É, no fundo, uma grande família e sem eles não haveria Rock with Benefits. Somos todos amigos e, este projeto, é algo que nos diz muito. Mas esta dedicação e esta causa chama outras pessoas que se vêm juntando a este grupo. Em 2013, por exemplo, tivemos o prazer de acolher na nossa equipa o Marco Carvalho que faz parte da equipa do Vodafone Paredes de Coura e que nos abriu muitas portas no mundo da música.

O Rock with Benefits já acontece há alguns anos. Podemos perceber o balanço das últimas edições?

Este festival começou em 2011, sem que nenhum de nós soubesse o que era fazer um festival de música. Como tal, teve as chamadas “dores de crescimento” que todos nós já sentimos. Hoje em dia, podemos fazer uma apreciação global extremamente positiva do trabalho realizado, mas foi preciso persistir muito para não desistir. Os números falam por si: 30.000€ e 27 toneladas de alimentos é significativo. Claro que podia ser mais e é acima de tudo por isso que nós continuamos, apesar de os apoios não serem muitos.

Tendo em conta o cariz solidário do evento, de que forma é que a comunidade pode ajudar? E para onde/quem serão destinados os bens angariados?

A comunidade pode ajudar, em primeiro lugar, indo aos concertos. Em segundo lugar, fazendo-se acompanhar de alimentos e, em terceiro lugar, principalmente os empresários e benfeitores, apadrinhando as nossas causas e o festival, tornando-se nossos mecenas.

Este ano, as receitas reverterão a favor da Associação de Defesa dos Direitos dos Animais e da Floresta, entidade que gere o canil municipal de Fafe, que neste momento se encontra sobrelotado e com necessidades urgentes. E para duas gémeas que têm uma incapacidade de 95% e cuja doença não tem diagnóstico. Estão neste momento na unidade de multideficiência da escola Montelongo e necessitam de cuidados de saúde regularmente. Os alimentos recolhidos serão entregues à Coopfafe, entidade responsável pelo banco alimentar em Fafe. Mantemos o bilhete pago e continuamos a recolher alimentos. Além disso, temos sempre portas abertas a novos elementos. É incrível como há pessoas que se envolvem tanto, passando de ser público para fazer parte da equipa.

Nesta edição, temos na programação nomes bastante conhecidos do público português. Como nos descreveria esta edição e quais serão, a seu ver, os pontos altos?

Esta oitava edição vai ser um salto bem grande neste nosso festival. Esta edição traz-nos o projeto Education Rocks. Penso que este será o projeto que mais impacto terá nos próximos anos no festival – e não apenas com impacto em Fafe. Em primeiro lugar porque, claramente, a nossa aposta é formar novos públicos e, segundo, porque sensibilizar e responsabilizar socialmente é uma coisa que se educa a fazer. Ou seja, abrangendo públicos de tenra idade, a probabilidade de continuarmos a crescer é muito maior. Mas não é só esse o objetivo, o facto de a aprendizagem ser contínua ao longo da vida fez com que o público sénior também não fugisse do nosso alcance.

Além disso, juntamos um novo espaço ao festival e vamos ver como corre. O Arquivo Municipal de Fafe recebe, no sábado à tarde, três concertos gratuitos. Além de não estar habitualmente aberto, este espaço não é propriamente um local que receba concertos.

Para além disto mantemos os habituais concertos no Teatro Cinema e no Café Avenida. Já esgotámos até o dia de Miguel Araújo! Este ano será muito importante para a afirmação do festival.

A programação espalha-se por vários locais da cidade de Fafe. De que forma é que este evento acaba também por desenvolver a própria visão cultural da comunidade? Considera importante que este evento tenha lugar fora de um centro urbano de maior escala (como Porto, Braga ou Guimarães)?

É muito importante e já é até um marco da programação do concelho. A comunidade reconhece o festival e está a contar com esta ação ao longo do ano. Já faz parte da rotina cultural. O Rock with Benefits foi cimentando a sua posição ao longo do seu crescimento e dando provas do seu relevo cultural e social. Hoje em dia, o seu contributo em termos de programação permite-nos criar palcos próprios e adaptados a cada público. Ainda temos muitos objetivos por cumprir e queremos alargar ainda mais a nossa oferta cultural. Este evento faz todo sentido em Fafe, porque foi criado em Fafe, por pessoas de Fafe e a pensar nas pessoas de Fafe. No entanto, reconhecemos e até já colocamos hipótese de alargar o conceito a outras cidades, pois poderia ter outro impacto em termos de evento… mas são coisas que não dependem de nós. Neste momento, só nos interessa continuar a crescer e a espalhar a mensagem do Rock with Benefits.

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