Revista Rua

2021-12-21T10:46:05+00:00 Cinema, Cultura, Personalidades

Rogério Samora, o eterno galã da televisão nacional

Discreto e sem grandes vedetismos, o enorme talento empregava-lhe um reconhecimento ao qual era impossível escapar.
Fotografia ©D.R.
Redação15 Dezembro, 2021
Rogério Samora, o eterno galã da televisão nacional
Discreto e sem grandes vedetismos, o enorme talento empregava-lhe um reconhecimento ao qual era impossível escapar.

No dia em que nos despedimos de um nome de referência no panorama das artes performativas em Portugal, relembramos com saudade um ator que dispensa apresentações: Rogério Samora. Com uma presença forte e uma voz calorosa, espelha uma vida dedicada à televisão, ao cinema e ao teatro, a interpretar múltiplas vidas, sempre com uma carga emotiva que lhe era já tão característica. O ator que se encontrava em coma desde o passado mês de julho, na sequência de duas paragens cardiorrespiratórias, não resistiu a um prognóstico muito reservado, partindo com 63 anos de idade.

Rogério Samora – o nome falava por si e carregava uma bonita narrativa contada por centenas de personagens interpretadas em atuações célebres e que o eternizam como um dos atores mais popularizados em Portugal. Ainda que discreto e sem grandes vedetismos, o enorme talento empregava-lhe um reconhecimento ao qual era impossível escapar. Ao longo de mais de quatro décadas de carreira, o ator nunca se esgotou num só formato cultural, trabalhando simultaneamente no grande e no pequeno ecrã, bem como em peças de teatro, concursos televisivos ou dobragens para cinema. Nunca fechou as portas a nenhuma área artística e isso valeu-lhe um lugar de destaque numa indústria que progrediu a par dos seus próprios passos. No caminho, cruzou-se com vários nomes de referência – Manoel de Oliveira, Filipe La Féria, Fernanda Lapa, Luís Miguel Sintra, Fernando Lopes ou Solveig Nordlund – num vasto repertório que contabiliza mais de uma meia centena de participações, entre longas-metragens, peças de teatro ou projetos de televisão, onde era mais popularizado pelo grande público ao atuar em projetos como: A banqueira do povo (1993), Mar de Paixão (2010), Rosa Fogo (2011), Nazaré (2019) e Amor Amor, o seu último projeto televisivo que se encontra em exibição.

Retrocedendo no tempo, foi na Casa da Comédia que teve a sua estreia como ator, depois de frequentar o curso de Teatro, na Escola Superior de Teatro e Cinema, com a peça A paixão Segundo Pier Paolo Pasolini dirigida por Filipe La Féria, com quem viria ainda a integrar o elenco de espetáculos A Marquesa de Sade (Mishima), A Ilha do Oriente (Mário Cláudio) e Eva Péron (Copi). A participação na peça de René Kalisky valeu-lhe o prémio de Ator Revelação, entregue pela Associação Portuguesa de Críticos de Teatro, em 1981. No Teatro Experimental de Cascais participou em Hamlet, de Shakespeare, com direção de Carlos Avilez, e ainda Erros Meus, Má Fortuna, Amor Ardente de Natália Correia. Em 2004, participou na peça de teatro Como Aprendi a Conduzir, encenada por Fernanda Lapa, ao lado de Joana Seixas, Isabel Medina e André Teodósio.

A par do teatro, é no cinema que reúne centenas de célebres participações em produções cinematográficas nacionais e internacionais, durante mais de três décadas. De Le Soulier de Satin, de Manoel de Oliveira (1985), até O Filme de Bruno Aleixo, de João Moreira e Pedro Santo (2020), somou sucessos ao seu portefólio, muitas vezes enquanto protagonista e quase sempre ao lado de grandes realizadores portugueses, como João Botelho, Maria de Medeiros, Luís Filipe Rocha ou Fernando Lopes (realizador do filme dramático 98 Octanas, no qual contracenava com Carla Chambel, Marcia Breia e Joaquim Leitão. Estrou-se em múltiplos filmes, tais como: O Sapato de Cetim (1985), Palavra e Utopia (2000) e Porto da Minha Infância (2001) ou Singularidades de Uma Rapariga Loura (2009), todos de Manoel de Oliveira. Uma participação no romance O Delfim (2002) de José Cardoso Pires garantiu-lhe o Globo de Ouro de Melhor Ator, ao contracenar com a atriz Alexandra Lencastre, com quem viria a dividir protagonismo em sucessivos projetos nacionais desde então.

Estreou-se em televisão com uma presença naquela que viria a ser a primeira telenovela nacional: Vila Faia, exibida em 1982 e em horário nobre. Seguem-se atuações em Super Pai (2000), Fúria de Viver (2001), Fascínios (2007), Equador (2008), Sol de Inverno (2013), Mar Salgado e Golpe de Sorte (2019), reforçando a participação nos dois últimos projetos: Nazaré e Amor Amor (em 2021). Chegou ainda a ser apresentador em Cluedo e Número Um (ambos exibidos em 1995) e desde então manteve sempre as portas abertas à ficção nacional, renovando continuamento a sua popularidade junto do grande público ao considerar-se um verdadeiro “galã” da televisão e do cinema em Portugal. Importa ainda mencionar a sua participação em dobragens de filmes conceituados, como O Regresso de D’Artacão, em 1990, O Rei Leão, em 1994, e Pular a Cerca, em 2006.

Nesta tentativa de detalhar cronologicamente o êxito do seu longo percurso, ficam tantos outros momentos importantes por mencionar, mas é na sua força de vontade e capacidade de adaptação que o relembramos, para sempre, como um talento sem igual. “O grande desafio da vida é ser difícil. É sermos postos à prova diariamente”, partilhava Rogério Samora em entrevista à SIC, em 2012, numa conversa na qual relembrava, num testemunho emotivo, a dupla perda da mãe e da avó que tal como ele partiram “antes do tempo, antes do prazo e antes do dia”.

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