Revista Rua

Rui Madeira: “A pandemia nas artes em Portugal já existia há muito tempo”

O diretor artístico da Companhia de Teatro de Braga está em entrevista à RUA.
Rui Madeira durante a entrevista | Fotografia ©Nuno Sampaio
Andreia Filipa Ferreira
Andreia Filipa Ferreira10 Setembro, 2020
Rui Madeira: “A pandemia nas artes em Portugal já existia há muito tempo”
O diretor artístico da Companhia de Teatro de Braga está em entrevista à RUA.

“Os ‘desgraçados’ dos artistas só existem porque o Estado há muito tempo que descurou e denegou a assunção de políticas de cultura”. É com esta afirmação que apresentamos Rui Madeira, o diretor artístico da Companhia de Teatro de Braga que, este ano, comemora os seus 40 anos de atividade. Num ano marcado por uma pandemia que deixou palcos vazios e plateias nuas, Rui Madeira fala-nos da situação caótica em que está a cultura em Portugal e pede a urgente intervenção com a criação de políticas públicas que valorizem a “arte viva”.

Fotografia ©Nuno Sampaio

Gostaríamos de começar por perguntar ao Rui, enquanto diretor artístico de uma companhia de teatro, como é que se viveram estes tempos de confinamento, em que tudo aquilo que seria normal passou a não ser? Deixamos de subir a palcos, deixamos as plateias… como é que se vive uma fase destas?

Agradeço desde já a oportunidade para falar desta matéria a partir da nossa realidade e de uma experiência que é única – no contexto mundial – mas que é diversa, relativamente àquilo que é o mainstream das notícias. Por detrás disto está também, e sobretudo, uma ausência do discurso político que é conveniente à política, ou seja, uma ausência de discurso político partidário que é conivente com o estado do setor. Estamos a falar do setor da arte, do setor teatral e, principalmente, de tudo aquilo que é arte pública. A nossa atividade é pública e há quem a denomine por “arte viva”, porque precisa da relação com o espectador e é arte viva porque se desenvolve no palco, acontece no momento (o teatro, a dança, a música) – o que não se verifica na pintura, no cinema ou em outras áreas. Exige técnicos que são necessários com a abertura dos teatros, assim como equipas que têm de funcionar para um teatro abrir… e aí é que ‘foi a pancada’. A ‘pancada’ deu-se, sobretudo, naquilo que tem a ver com a arte viva, que necessita do público. O outro aspeto é o facto de haver, dado este estigma da pandemia, um discurso egoísta e de falsa solidariedade – de hipocrisia até – acerca do setor artístico. É aí que nós nos ofendemos, porque o setor é diverso, especificamente o do teatro, infelizmente. É tão diverso que leva a que a grande maioria do setor esteja numa situação difícil, mas, dada essa diversidade, nem todo o setor está numa situação tão difícil assim. Estamos numa crise. É a mesma coisa que a construção civil ou qualquer outra área da atividade económica do país. Há uns que estão melhores que outros, sabendo que todos estão mal. O que me irrita é esse discurso miserabilista, como se fosse a pandemia a grande responsável da situação, porque sabemos que não é. O Serviço Nacional de Saúde não respondeu em qualidade, num primeiro momento.  Muito do confinamento e daquilo que as pessoas fizeram foi para salvar o Estado. Os cidadãos já tinham cumprido a sua parte: pagaram os seus impostos para terem o Serviço Nacional de Saúde. O Estado é que não cumpriu a sua parte.

 

“A Companhia sofreu, como todas as outras: deixamos de fazer espetáculos, deixamos de ter uma parte da receita de bilheteiras, mas continuamos a trabalhar. Os atores estiveram em casa e fizemos uma programação online, embora o teatro não se faça no digital. Produzimos coisas, fizemos traduções, pensamos em projetos futuros, procuramos janelas de oportunidade para concorrermos a financiamentos…”

Afirma então que o Estado não cumpriu a sua parte e, no que diz respeito às artes, não cumpre há anos?

Os “desgraçados” dos artistas só existem porque o Estado, há muito tempo – podemos até dizer depois da democracia – que descurou e denegou a assunção de políticas de cultura. Chegamos a esta situação agora, mas a realidade já existia. Eu costumo dizer que a pandemia nas artes em Portugal já existia há muito tempo. Esse vírus já estava a cá e todos sabiam disso, mas era dado como assintomático. Existia, mas não fazia mal e as pessoas iam sobrevivendo. Essa ideia de sobrevivência foi aquela que o Estado e os sucessivos governos depois da democracia não trataram – isto na ausência das políticas públicas. No plano da ausência das políticas de responsabilidade social, apoiou-se a ideia do recibo verde, o que nas artes significa que as pessoas estão a pagar por mês à Segurança Social, sem receberem qualquer apoio. É desagradável, para mim, que sou responsável por esta estrutura há 40 anos, ser sucessivamente acomodado na “gaveta dos desgraçadinhos”. Vivemos num país em que nem os maiores teatros nacionais têm equipa artística, apenas técnica. O Estado sabe quanto custa fazer teatro em Portugal. A Companhia sofreu, como todas as outras: deixamos de fazer espetáculos, deixamos de ter uma parte da receita de bilheteiras, mas continuamos a trabalhar. Os atores estiveram em casa e fizemos uma programação online, embora o teatro não se faça no digital. Produzimos coisas, fizemos traduções, pensamos em projetos futuros, procuramos janelas de oportunidade para concorrermos a financiamentos… foi assim que fomos passando o tempo.

Fotografia ©Nuno Sampaio

Considera, então, que estamos numa fase de exigir medidas e implementação de novas políticas sociais?

Acho que não é altura de fazer frentismos para discutir isto e os partidos já o deviam ter feito há muito tempo, porque todos eles sabem da situação das artes em Portugal, só que ignoram a ausência de financiamento. A companhia viveu isso com alguma dificuldade, porque precisamos de relação com o público. Em maio, voltamos a trabalhar e estamos a fazer espetáculos desde julho, mas não sabemos o dia de amanhã. O normal seria que as pessoas tivessem alguma segurança no seu dia a dia para poderem enfrentar uma insegurança que ninguém domina e, se isso acontecesse, o país estaria muito melhor. Estamos a trabalhar dentro desta nova realidade.

Vivemos uma fase em que existia um certo receio de voltar às salas de espetáculos, ainda que todas as medidas estejam a ser cumpridas. Que mensagem deixaria o Rui aos leitores da Revista RUA, no âmbito de voltarem a consumir teatro e todas as outras atividades artísticas? Sendo o teatro uma arte viva, é mais importante do que nunca o apoio do público neste momento?

O problema da arte é a fruição, porque só se consubstancia o ato de criar com quem interprete e com quem participe e frua. E esse é um problema que não vem da pandemia, mas da escola. Temos de pensar se o ensino nos dá as chaves para a cidadania ou qual é a qualidade do nosso ensino. No fundo, que escola é esta em que 80% dos alunos não tem áreas de estudos culturais? Que país é este? Um país que quer crescer tem de perceber que uma coisa é animação cultural e outra é criação artística. Podem conjugar-se, mas não são iguais. Cidadãos habituados à animação cultural, se não tiverem chaves para dominar os códigos da criação artística, ficarão sempre num gosto que é imposto por escolhas que não são deles. Esse é grande problema da globalização. Não basta dizer: “A música pimba não presta”. Há ótimos artistas de música pimba e o problema não está na música, nem devemos ter vergonha de gostar deste estilo musical. O problema é quando se gosta de música pimba, mas não se conhece mais nada e o gosto da pessoa fica apenas aí. A escola ensina a escolha e deve dar pistas para saber optar. Os cidadãos têm de ser responsáveis por, numa cidade, haver um teatro, uma universidade e infraestruturas que podem ser bem utilizadas. Quando a Companhia faz ações de formação de públicos é exatamente para passar às pessoas conhecimentos técnicos e práticos, mas também da ordem do processo de elaboração mental, para que possam avaliar as coisas de outra maneira e serem mais exigentes. Um Estado democrático deve ser capaz de perceber isso, entender os défices e a necessidade de criarmos melhores cidadãos. Não basta ter equipamentos, é preciso ter conteúdos. Para mim, esta é uma das razões pela qual a Companhia ainda existe hoje: nunca abdicamos do “popularucho” em detrimento do conhecimento. Desde que voltamos aos espetáculos, sentimos que o público tem correspondido, talvez até, melhor do que aquilo que esperávamos. A Companhia tem trabalhado em vários projetos, nacionais e europeus, e temos procurado janelas de oportunidade em que possamos, de um ponto de vista financeiro, sobreviver neste contraciclo.

Fotografia ©Nuno Sampaio

“Temos de pensar se o ensino nos dá as chaves para a cidadania ou qual é a qualidade do nosso ensino. No fundo, que escola é esta em que 80% dos alunos não tem áreas de estudos culturais? Que país é este?”

As Troianas foi a peça levada a cena após o confinamento, no Theatro Circo. Agora surgiu uma ideia de apresentação da peça num local especial. Pode falar-nos um pouco sobre isso?

Vamos anunciar um novo contexto que eu já persigo há muitos anos e que, de vez em quando, incentivo a Câmara Municipal no sentido de se fazer alguma coisa nas ruínas do teatro romano de Braga, porque a cidade é reconhecida pela sua marca identitária romana. Em termos de dimensão, este é um dos maiores teatros romanos da Ibéria e queremos valorizar isso, enquanto Companhia, e comemorar os nossos 40 anos desta maneira. Vamos fazer um espetáculo e será uma grande experiência, que permitirá usar o espaço (ruínas do teatro romano) como ele está para chamar a atenção que ali já se fez teatro. A nossa ideia é muito simples: quando esta crise passar, queremos iniciar aqui uma espécie de festival internacional de teatro clássico, como Mérida tem e como se faz nas grandes cidades.

Celebrar 40 anos num ano como 2020, reconhecido como o ano da máscara, traz alguma ironia. O Rui considera que este é um tempo para olharmos para as companhias de teatro e percebermos que há necessidades de apoio que não podem ser ignoradas?

Sim, é irónico. Mas, felizmente, o Município de Braga, mais concretamente, o presidente Ricardo Rio, a vereadora da Cultura Lídia Dias e até o vereador do Património Miguel Bandeira, que está mais ligado ao teatro romano, têm tido uma atitude de grande proximidade, de atenção e apoio relativamente à situação que passamos, assim como os nossos mecenas, a DST, que em particular nos garantiu três meses de salários – um caso único no país. Eu penso que isso se deve a dois fatores: o respeito pela Companhia e o reconhecimento do nosso trabalho, por um lado; e a forma como nós discutimos a cidade, por outro.

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