Revista Rua

Rui Tendinha, o cinéfilo-curioso

“Quando se vê mau cinema, a alma corrói um bocadinho”, diz-nos Rui Tendinha.
Fotografia ©Nuno Sampaio
Andreia Filipa Ferreira
Andreia Filipa Ferreira11 Julho, 2019
Rui Tendinha, o cinéfilo-curioso
“Quando se vê mau cinema, a alma corrói um bocadinho”, diz-nos Rui Tendinha.

Intitula-se um escravo do cinema e faz dos festivais internacionais de cinema a sua casa. Rui Tendinha é um dos poucos críticos de cinema em Portugal e olha para o cinema português como um diamante que aguarda ser lapidado. Numa conversa sobre o projeto cinetendinha.pt, onde mantém os seus seguidores informados sobre o mundo cinéfilo, Rui Tendinha fala de curiosidade. Já sabe que filme vai ver hoje?

Fotografia ©Nuno Sampaio

O Rui diz que é um escravo do cinema. Acha que a sua vida dava um filme?

(risos) Não, a minha vida não dava um filme! Eu sinto é que não tenho tempo para tudo e, como passo tanto tempo em salas escuras, a escrever sobre o que vejo, muitas vezes esqueço-me de viver. Não é bem “esquecer”, é mais perder-me. Perco o toque da realidade. Por alguma razão eu cheguei onde cheguei, em termos de vida profissional, e nunca tive filhos. Podia dizer que nunca calhou, é certo, mas tem a ver um pouco com essa minha “escravidão” face ao cinema. Dá-me um prazer ainda muito forte continuar a descobrir cinema, continuar a descobrir, do ponto de vista de reflexão, a relação do cinema com a vida, de entender o nosso lugar, como seres humanos, no mundo.

O seu lugar é nos festivais de cinema?

Eu como adepto de festivais de cinema e frequentador desses círculos, tenho sempre um problema: a maior parte dos filmes que se veem em maratonas de cinema e festivais não são filmes bons! O que acontece é que os festivais fazem uma triagem e depois nós, programadores, críticos, jornalistas, tentamos ver o que há de melhor. Para vermos um bom filme, se calhar temos de ver quatro maus. E quando se vê mau cinema, a alma corrói um bocadinho. Portanto, aquela ideia de o crítico de cinema ser uma profissão muito romântica, não é bem assim. Há dureza!

Fotografia ©Nuno Sampaio

“Quando se vê mau cinema, a alma corrói um bocadinho”

Mas, então, o que está por trás desta figura do crítico de cinema?

Eu faço crítica, mas também faço jornalismo de cinema, ou seja, a divulgação. Pretendo dar a perceber o que acontece na indústria do cinema e do showbiz, que tem muitas nuances a nível de negócios, de novidades, de novas viragens de ângulos e abordagens de produção – e isso interessa-me refletir e partilhar. Mas também me fascina olhar para um filme do ponto de vista estritamente cinéfilo. Há esses dois lados. Eu, como crítico, gosto de ter um lado um bocadinho eclético. Tanto gosto de perceber o que se está a passar dentro de um blockbuster de Hollywood, do estilo Bumblebee ou Fantastic Beasts, como dentro de um filme de autor, de um cineasta de Singapura, como eu há pouco tempo descobri. É esse lado quase bipolar e muitas vezes antagónico que mais me atrai na minha atividade. Mas, quando eu vejo mau cinema – e tenho visto mesmo muito mau -, apetece-me desistir disto porque estou a perder os meus neurónios em má arte! E eu gosto muito de refletir sobre o que é isso da má arte. Mas o cinema é uma arte tão democrática que, hoje, toda a gente consegue fazer um filme. Acho que a palavra “curioso” é muito importante. Temos de ser cinéfilo-curiosos. Ter curiosidade! Não é querer ser expert em tudo, nem ver tudo, mas sim ter curiosidade. Muitas vezes até podemos falhar alguns filmes, mas tivemos vontade e isso é o melhor. Eu estou do lado de quem quer descobrir o cinema, as suas correntes e as suas novidades.

É um explorador…

Sim, essa é uma boa descrição! É explorar e, muitas vezes, magoar-se na exploração…

O cinetendinha.pt é o resultado dessa exploração, correto?

O cinetendinha.pt nasce de um programa de televisão, mas eu quero que seja mais. Quero que seja uma boleia para aquilo que eu encontro no meu dia a dia. Falo da minha passagem por festivais de cinema, dos meus encontros – como com o Leonardo DiCaprio, que já entrevistei quatro vezes e com quem tenho tantas histórias para contar. Acho que quem segue cinema pode ter alguma curiosidade pelos conteúdos que publico.

A parte dos encontros que inclui no cinetendinha.pt é, sem dúvida, interessante. O cinema é feito de encontros?

Sim, o cinema é feito de encontros.  Uma das coisas que eu mais gosto é estar num festival e, ao meu lado, estar alguém (não precisa de ser um dos DiCaprios da vida) de uma cultura diferente. Essa tertúlia, essa partilha do social e do humano, é muito bom! Eu conheço muita gente em festivais e isso é ganhar vida para além do cinema, mas graças ao cinema. São os encontros que o cinema nos proporciona. Isso é uma dádiva!

Neste momento – e o Rui é uma das pessoas mais indicadas para nos responder a esta pergunta -, qual é o ponto de situação do cinema português?

Estamos numa fase em que somos muito bem cotados lá fora no circuito festivaleiro, a nível de cinema de autor, claro. Mas, por outro lado, cá em Portugal, está a haver um crescente divórcio do público em relação ao cinema português. Há, de vez em quando, exceções. O São Jorge foi bom, o Pedro e Inês não esteve mal, mas mesmo o cinema comercial, das comédias (que dizem que são para o povo), não está a levar o povo ao cinema. E isso cria muitos equívocos de produção e apostas em abordagens que, no meu ponto de vista, são erradas. Entramos numa espécie de beco sem saída. O que fazemos é um cinema autoral cada vez mais hermético ou cada vez mais televisivo e aberto a um público que, se calhar, nem é do cinema… vai para as pipocas primeiro! (risos) Provavelmente não há nenhuma resposta, mas importa continuar a tentar encontrar pistas para se perceber como podemos aproximar o cinema e assim construir um público. Eu acredito que vai haver um clique, com temas e com abordagens de temáticas do cinema português que podem interessar.

Em termos de bons filmes, o que recomenda em 2019?

Não sei se têm reparado, mas nós não estamos a construir público de cinema em Portugal. Houve uma exceção boa e bonita que foi o Snu, um filme de Patrícia Sequeira com Inês Castel-Branco e Pedro Almendra nos papéis principais. Correu muito bem! Mas as comédias como Tiro e Queda, de Ramón De Los Santos com Eduardo Madeira e Manuel Marques ou Ladrões de Tuta e Meia, de Hugo Diogo com Rui Unas e Leonor Seixas não funcionaram. Isto pode significar que, em termos de ficção, as pessoas não querem pagar para ver uma comédia popular. São opções que percebo. As pessoas tendem a preferir uma comédia americana ou um filme de entretenimento americano e, nessa ordem de preferências, o cinema português é bastante prejudicado. Mas depois aparecem exceções ótimas como o Snu, que é um filme com algum carisma popular, mas muito bem feito.

Já o Solum é o filme que eu dou valor simplesmente por ser feito, porque é muito difícil fazer aquilo que o Diogo Morgado fez: um filme de ficção científica sem dinheiro.

No entanto, de maneira geral, não estamos numa boa fase de público. O público está de costas voltadas, neste momento, para o cinema português. A culpa é de quem? De muitos fatores! Eu acho que a promoção não está a resultar, acho que há estreias a mais e há alguns filmes que não têm qualidade: o filme Portugal não está à venda, de André Badalo, foi um exemplo. Pagámos sete euros, ficamos traumatizados e não queremos voltar a ver cinema português tão cedo.

Numa análise sobre o que aí vem, estou com muita vontade de ver o filme Variações, de João Maia com o ator Sérgio Praia no papel principal. Sei que o filme está com uns problemas jurídicos a nível de argumento, sobre quem é que assina, o que não é nada bom. É um mau presságio! Mas considero que parte do possível sucesso do filme é a promoção e acho que isso vai correr muito bem porque o António Variações é uma personalidade que gera boa sensibilização.

Por outro lado, em novembro, vem outro filme português que eu também já vi e ponho as mãos no fogo: é divertidíssimo!  É um filme de Tiago Guedes chamado Tristeza e Alegria na Vida das Girafas, uma comédia com o Gonçalo Waddington, Miguel Guilherme e o Tiago Rodrigues. Acho que é divertidíssimo porque é a história de um amigo imaginário de uma adolescente e, a partir daí, faz-se uma comédia sobre o mundo infantil e sobre a adolescência, mas com um humor fino. Esse é um filme que eu acredito que terá sucesso e que dará muito que falar!

Há sempre bons filmes. O problema é o desafio. As pessoas como nós, os críticos e jornalistas, é que devem ser seletivos e podem ter um barómetro de escolha – e isso é a nossa mais valia! Nós temos de ajudar as pessoas… para elas não irem ver um mau filme!

Fotografia ©Nuno Sampaio

“Eu estou do lado de quem quer descobrir o cinema, as suas correntes e as suas novidades”

O Rui é comissário do Ymotion. É interessante para si estar envolvido num festival de cinema jovem?

Eu gosto muito de poder estar a pensar na programação e na curadoria do cinema em termos de festival, porque um festival é um lugar para a descoberta. No Ymotion, em V.N. Famalicão, por exemplo, escolhi a Terratreme como destaque do painel do Novíssimo Cinema Português. Porquê? Porque acho que eles têm sido os suspeitos do costume em termos do cinema que cruza o real com a ficção e têm tido uma presença assídua no circuito dos festivais lá fora. E é importantíssimo esse circuito. É um cartão de visita cultural que vale milhões de euros. Porque, por muito que se invista em publicidade, um bom filme torna-se viral. É como o filme de Miguel Gomes, As Mil e Uma Noites. Em todos os festivais, as pessoas ouviram falar de Portugal. É um cartão de visita inigualável à nossa cultura! Nenhuma arte consegue isso. Podem dizer que já vendemos novelas lá para fora, sim, mas a novela não é arte, é indústria. É uma máquina, não é um produto artístico.

Em termos artísticos, temos assistido recentemente ao surgimento de novos cineastas no panorama do nosso cinema. Como vê esta nova geração?

Eu acho que pessoas como Gabriel Abrantes (realizador do filme Diamantino) estão a cortar cordões umbilicais. Pedro Cabeleira, Domingos Coimbra, Carlos Conceição, etc. estão a fazer um cinema muito deles, muito individual, sem as chamadas afinidades seletivas e isso, para mim, é muito importante. É importante criar novas linguagens, claro que dentro de uma linha de cinema português que é completamente livre e autoral, mas com uma identidade própria. Não ter aquela reverência ao Fernando Lopes ou ao Manoel de Oliveira, que são cineastas que, obviamente, fizeram muito pelo cinema português, mas que o seu testemunho já foi perdido entre outras gerações. Agora, estes novos cineastas, estão mesmo a cortar e a estilhaçar a ligação e isso é muito bom. Esse estilhaçar não quer dizer que são contra, é fazer diferente!

O cinema português recomenda-se então?

Recomenda-se! Mas quando quer ser comercial e fazer os remakes dos outros clássicos do cinema português, como o Pátio das Cantigas, aí tenho muito o pé atrás.

 

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