Revista Rua

Rui Zink: “Eu sou um formalista cujo sonho é não ter forma, é nunca estar parado”

O escritor português Rui Zink orgulha-se de não corresponder a um único género literário.
Fotografia ©Nuno Sampaio
Andreia Filipa Ferreira23 Novembro, 2020
Rui Zink: “Eu sou um formalista cujo sonho é não ter forma, é nunca estar parado”
O escritor português Rui Zink orgulha-se de não corresponder a um único género literário.

É para falar de “coisas” que trazemos Rui Zink à RUA, numa entrevista que não segue forma – mesmo ao jeito do escritor. Professor no Departamento de Estudos Portugueses na Faculdade da Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, Rui Zink é autor de uma vasta obra que cumprimenta o conto, o romance, as novelas gráficas, os ensaios e até os livros para crianças, numa autêntica ode à palavra. Reconhecido pelo seu jeito louco de brincar com a língua portuguesa, Rui Zink fala-nos das loucuras de um mundo onde os idiotas pensam que sabem tudo e os sábios sabem que não sabem nada. Recordando o livro Manual do Bom Fascista, uma provocação quase satírica à ascensão do discurso fascista no mundo, damos voz a Rui Zink!

Esta entrevista foi realizada no restaurante e livraria Theatro, na Póvoa de Varzim

Fotografia ©Nuno Sampaio

Durante a minha pesquisa para esta entrevista, deparei-me com a melhor descrição de Rui Zink, a meu ver. É ela: “Rui Zink, um homem que escreve livros, dá aulas e imagina coisas”. Considera esta descrição pertinente?

Eu acho que sim (risos) Muitas vezes, os currículos são redundantes e enormes, com todas as informações como o local onde estudamos no liceu. Mas, na verdade, existem outras informações que merecem destaque. Nós somos muito complicados. Podíamos dizer que somos Pai, que somos Filho, que somos Professores. A verdade é que, ao contrário de outras pessoas que quando fazem um livro colocam na descrição apenas a sua relação com aquele livro, eu ponho a minha identidade pública, como professor. Havia um poeta chamado Eugénio de Andrade que, salvo erro, era agente de seguros. Ou Alexandre O’Neill que era publicitário. As pessoas têm profissões, mas muitas vezes não se intitulam como tal nos seus livros. Eu, portanto, ponho a minha identidade pública e vital: dou aulas e escrevo. E, em momentos, eu confundo as coisas. Há quem diga que não sou tão bom escritor porque parece que estou a dar aulas, outras vezes há quem diga que não sou tão bom professor porque parece que estou a escrever. Mas eu acho que, nas minhas aulas, não sou tão louco como quando escrevo – e na minha escrita também não sou tão pedagógico como quando dou aulas. Mas eu estou cá sempre!

O facto de “imaginar coisas” é uma brincadeira. Eu, desde criança (porque era bocadinho excêntrico, como todos somos), sempre tive fama de maluco (risos) A começar pelo nome: um tipo a quem chamam Zink está já um bocadinho desvalorizado do que um tipo a quem chamam só Miguel ou Rui… Para mim foi uma grande conquista de Abril conseguir, a partir dos 18 anos, que me chamassem Rui (risos) Porque o nome próprio aproxima. Dizer “Presidente Marcelo” é diferente de dizer “Presidente Sousa”. Imaginar coisas tem um sentido negativo, popular, assim como inventar. “Lá estás tu a inventar coisas!”, podem dizer. Mas eu acho que imaginar coisas é bom. E a palavra “coisa” é talvez a palavra mais generalista que há. Tudo é uma coisa.

Por tudo isto, acho que a melhor forma de me descrever é dizer que dou aulas, escrevo livros e imagino coisas. Uns acharão que essas coisas não prestam, outros aproveitarão.

Considera-se um escritor rigoroso, mas nos títulos dos seus livros é quase sempre ambíguo…

Como, às vezes, eu dou muitas voltas a falar e a pensar, quando eu escrevo, gosto muito de tentar ser o oposto daquilo que sou quando falo: ser rigoroso. Mas a verdade é que, nos meus livros, a maior parte dos meus títulos são sempre ambíguos, têm sempre um duplo sentido, num tempo que gosta da literalidade. Por exemplo, A instalação do medo tem uma leitura política que é referente a alguém, como o FMI, que vem para nos obrigar a fazer coisas que não queremos, mas “instalação” também pode ser vista como uma moda artística, no género: “Eu fui agora a Serralves ver uma instalação fantástica” (risos) Que, no fundo, é um teatro, é como uma vigarice. Eu acho que a situação em que vivemos tem esse lado de medo. Por um lado, o medo instalado politicamente e, por outro lado, uma vigarice. Se nós formos a ver, não está nada por trás. É como quando nos dizem: “Não abras esta porta, tem um lobo atrás” e, ao fim de muitos anos, abrimos essa tal porta e vemos que não tinha nenhum animal feroz… tinha era um frigorífico cheio de bolos! (risos).

Fotografia ©Nuno Sampaio

Ao longo da sua carreira, o Rui já teve a oportunidade de fazer imensas coisas (lá está, coisas). O que eu reparo é que não há um rótulo literário para o Rui. É autor de contos, romances, novelas gráficas, ensaios e até livros para crianças. Um escritor é escritor sem olhar a rótulos literários? É bom não ter um rótulo?

Para mim é bom! Por exemplo, para mim é bom estarmos aqui num dia de sol. No entanto, é um bocadinho mau da minha parte eu dizer “este sol é bom para todos”. Eu penso na Hélia Correia, de quem gosto muito e sou amigo, e para ela este dia de sol é horrível. Cada pessoa reage de uma maneira diferente. Para mim, que sou fluido, que sou uma formalista sem formas, quanto menos estivermos dentro de uma forma rígida, mais livre somos. Portanto, a minha forma de ser livre é, dentro de uma coisa limitada que é o papel e a caneta, tentar ter o menos possível de forma, o que é um paradoxo. Porque ser artista é, acima de tudo, amar a forma. Por exemplo, um poema não é um poema pelo conteúdo, mas sim pela forma. Um romance é um romance pela forma. Eu sou um formalista cujo sonho é não ter forma, é nunca estar parado.

Em termos políticos, no sentido existencial, tem uma vantagem. Ao longo dos anos, eu senti por vezes que as pessoas que têm poder nesta situação me querem encolher um pouco… aquela clássica situação que havia nas ditaduras: “Gostamos muito de si, mas vamos ter de o prender” ou “Gostamos muito de si, mas não lhe podemos dar o emprego… ou o prémio”. Gostamos muito de si, mas não gostamos muito de si. Para mim, uma solução fantástica, que pessoas com quem eu trabalhei não tinham, era eu não estar parado quando me vinham dar a martelada. Vamos exemplificar: de um lado o Bin Laden e do outro o Saddam Hussein. Qual é a diferença entre eles? Além de serem os dois maus e já não estarem os dois cá, o Bin Laden era móvel, era fluido… como terrorista era muito competente. Era inventivo. A monstruosidade do 11 de Setembro teve um lado inesperado pela sua simplicidade. Já o Saddam era aquele homem com bigode que dava sempre nas vistas, num país cheio de estátuas suas e com muitos palácios presidenciais, mas cada um parado no seu sítio. Significa que quando os EUA quiseram vingar-se do 11 de Setembro, o presidente George W. Bush teve ali um dilema, que foi: “Vamos então matar o tipo que fez isto! Onde é que ele está?”. Ninguém sabia. Então, fizeram como às vezes o marido que está frustrado porque não pode bater no jogador do seu clube que perde e, por isso, chega a casa e bate na mulher. Ou seja, bate-se em que se tem à mão. Nesta lógica, quem estava à mão de semear, paradinho no seu lugar, era o Saddam. Por isso, houve essa segunda monstruosidade que foi atacar um país que não tinha nada a ver com o 11 de Setembro. Porque o sacana do Bin Laden estava nos túneis do Afeganistão e era impossível chegar lá.

Vou agora dar um exemplo concreto: no meu caso, em 2001 ou 2002, eu fiz um livreto para uma ópera – devo ser o autor português que mais livretos para óperas fez – e foi muito engraçado. Foi para o Teatro da Trindade. O maestro, os cantores e o encenador eram excelentes e o compositor, o José Eduardo Rocha, estreava-se na sua primeira ópera. Aquilo teve um sucesso enorme e esgotou… Foi até filmado para a televisão! Era uma ópera decente, eu achava. Mas a violência com que algumas pessoas criticaram aquilo foi abismal. É uma violência muito portuguesa, mesmo para pisar o José Eduardo Rocha. Em vez de dizerem “não gostamos muito desta, mas está aqui uma promessa, esperemos que para a próxima seja melhor”, aplaudindo o projeto e o resultado, o que aconteceu foi uma demolição da malta da ópera. É uma demolição que às vezes é justa, isto é, eu não posso dizer que a crítica é sempre injusta, mas a verdade é que quando uma pessoa diz que é mau e outra pessoa com igual dignidade diz que é bom, questionámos a situação. Mas, quando um texto meu, em Portugal, leva porrada e, uns anos depois, num país onde são mais exigentes, o mesmo texto é premiado… hello? (risos) É por isso que às vezes uma pessoa gosta de dizer: “Afinal não sou uma besta!”

“Sempre tive fama de maluco (risos) A começar pelo nome: um tipo a quem chamam Zink está já um bocadinho desvalorizado do que um tipo a quem chamam só Miguel ou Rui…”

Com o meu primeiro livro, Hotel Lusitano, em 1986 aconteceu algo semelhante. Comecei por levá-lo a um concurso de Prémio Revelação em 1985 e eles não deram o prémio a ninguém porque disseram que ninguém prestava. Foi muito doloroso para mim! Eu pensei que o meu livro era uma porcaria. Depois, veio a moda americana de publicar escritores jovens e um editor achou interessante publicar três jovens: eu, a Eunice Cabral e o Francisco José Viegas. O meu livro foi publicado, tive algumas críticas boas e, passado um ano, eu fui publicitá-lo aos EUA com outros 14 escritores do mundo inteiro. Aí, fui considerado um dos mais promissores jovens escritores do mundo. Com o mesmo livro! Aliás, o livro foi publicado na Alemanha e em Israel e teve excelentes críticas. Portanto, eu posso dizer que o júri daquele prémio (em 1985) era um bocado exagerado.

Voltando à questão do não estar parado e ao exemplo do Bin Laden e do Saddam. Eu, quando houve aquela carga de violência e aquelas bombas lançadas sobre Bagdade – isto é uma analogia às críticas ao meu livreto de ópera e ao José Eduardo Rocha – pude ir para outro lado. Eu pensei: durante uns tempos não vou escrever ópera, vou para o romance ou para a banda desenhada. Mas o José Eduardo Rocha nunca mais fez uma ópera. E isto é um crime de crueldade que atinge quem está parado!

Por isso, não ter género sempre foi uma forma de autodefesa para mim. É algo que funciona comigo, mas poderá não funcionar com outras pessoas. Esta forma de ser fluido, a mim, cabe-me bem. Comigo funciona.

Para quem não conhece o seu trabalho e toda a sua abrangência, por onde é que o Rui convidaria o leitor a começar? Deveria ler o quê primeiro?

Se o leitor tiver dois anos, O Bebé que… Não Sabia Quem Era, que é um livro que é um plágio meu, porque foi escrito pelos meus filhos à minha frente (risos) Eu só transcrevi e estou cheio de medo que eles me processem um dia (risos). Sobretudo nos livros infantis eu evito recorrer à imaginação, porque acho que a imaginação é muitas vezes é inimiga da verdade. Prefiro ter os pés mais assentes na terra, escrever não como Dom Quixote, mas como Sancho Pança.

Se for de outra idade, o Anibaleitor é o livro mais feliz que eu escrevi. Não é o melhor, mas é o mais feliz porque conjuga as duas coisas que eu sou, o professor e o escritor. É uma pequena fantasia sobre o prazer da leitura. É, ao mesmo tempo, uma aula e uma ficção. Fala sobre um tema que não é muito falado, como entender o que lemos e como lidar com textos que não entendemos. Ensina-nos a perder a mania de que é o livro que tem de vir ter connosco. Se eu vou ler um livro técnico, como um manual de instruções, eu espero aprender algo específico. Mas, se eu vou ler um poema ou um romance, eu não posso exigir nada. A piada de um livro é dialogar com ele, ouvir o que ele quer e, quando eu não percebo, em vez de dizer que não presta ou desistir, volto a visitá-lo no dia seguinte. Se calhar, descubro que não era o poema que estava errado, mas era eu que não estava predisposto a entendê-lo. Estamos num mundo terrível em que os idiotas pensam que sabem tudo e os sábios sabem que não sabem nada. Quanto mais nós sabemos sobre um assunto mais sabemos que não sabemos. Eu acho que quem tem o hábito de ler coisas que nem sempre entende muito bem ou não é o seu estilo, mais tarde, na vida amorosa e profissional, vai ser mais feliz.

“Olhemos para o povo alemão, que elegeu o Hitler. Uma maioria aceitou e lidou muito bem com esta situação, assistindo aos maus tratos aos mais fracos sem fazer nada. Muitos até ficaram felizes. Quando perderam a guerra, a Alemanha, em vez de ser destruída, foi ajudada a levantar-se. Porque, se nós partíssemos do princípio que todos aqueles nazistas eram nazistas para sempre, o problema resolvia-se com duas bombas atómicas. A razão porque não se matou toda a gente foi porque se percebeu que aquelas pessoas tinham sido nazistas durante um tempo, mas não são nazistas. Fizeram monstruosidades, mas não são monstros. Estiveram monstros.”

O Rui escreveu um livro chamado Manual do Bom Fascista, uma provocação à ascensão do fascismo. Gosto muito de uma frase que o Rui escreve sobre a existência de um bom fascista em cada um de nós. É desta forma que olha para a sociedade que nós temos?

É! Mas a vantagem de um leitor para um não leitor é que o leitor sabe que a ideia genial que está a ter não é genial e não é sua. É muito fácil uma pessoa pensar que é a única pessoa com ideias quando não ouve ninguém. O nosso tempo, sendo diferente dos tempos passados, tem semelhanças. Portanto, nós já vimos este filme… e não foi bom. O que está a acontecer agora é que vemos aquela pessoa tonta que diz que nunca mais cairá na asneira, daqui a pouco, volta a cair. O estar atento ao mundo ajuda-nos a cair mais devagar e, portanto, à partida, uma pessoa mais aberta está melhor preparada para o mundo e para ser feliz. Aquelas pessoas que estão sempre a imaginar coisas terríveis, acabam por provocar as coisas terríveis que imaginam. Há uns tempos, houve um alemão que matou nove pessoas porque lhe pareciam estrangeiras. Mas porque é que o alemão matou aquelas pessoas? Porque tinha medo que elas o matassem. O medo deles é muito parecido com os maridos portugueses que matam a mulher e que depois dizem que ela estava a destruir-lhe a vida. E, por imaginariamente a mulher estar a destruir a vida do homem, ele destrui-lhe a vida a ela realmente. E não compreendem! Olhemos para o povo alemão, que elegeu o Hitler. Uma maioria aceitou e lidou muito bem com esta situação, assistindo aos maus tratos aos mais fracos sem fazer nada. Muitos até ficaram felizes. Quando perderam a guerra, a Alemanha, em vez de ser destruída, foi ajudada a levantar-se. Porque, se nós partíssemos do princípio que todos aqueles nazistas eram nazistas para sempre, o problema resolvia-se com duas bombas atómicas. A razão porque não se matou toda a gente foi porque se percebeu que aquelas pessoas tinham sido nazistas durante um tempo, mas não são nazistas. Fizeram monstruosidades, mas não são monstros. Estiveram monstros. Uma solução foi prender e julgar uns quantos e deixar os antigos nazistas tornarem-se excelentes democratas, socialistas, comunistas, etc. (risos). E o que fazemos? Lidamos com isso. Ora, se isto é verdade para a Alemanha, então também é verdade para nós. Se pessoas que votaram num monstro e não são monstros, então eu que tenho só ideias bonitas, pela lei das compensações, se calhar eu também tenho um monstro dentro de mim. É a ideia do fascista adormecido. É muito fácil, sobretudo para a gente de esquerda, dizer que “eu sou bom porque sou de esquerda e agora tu cala-te”.

Se algum dia cá chegar um ditador, como um Bolsonaro ou um Trump, será porque foi eleito pelas pessoas. Por isso, em vez de apontar o dedo, que é o princípio do Fascismo, convém olharmos para nós. Uma vez fui fazer uma palestra num país e passei por várias cidades. Numa delas pedi um projetor para apresentar um power point e eles disseram-me que iriam tentar resolver. Numa outra cidade, pedi a mesma coisa e a pessoa respondeu de forma brusca, dizendo que ninguém lhe tinha dito nada. Só com essa frase simples, consegui perceber duas coisas: que a pessoa é rápida a culpar os outros e que é preguiçosa. Esta nossa reação espontânea é muito engraçada em várias situações. É aquele momento em que nos foge a boca para verdade. Um exemplo flagrante: a seguir ao 25 de Abril havia uma personagem de revista muito engraçada que era o Calinas, que passou do teatro de revista para a televisão. O Calinas era o pintas de Lisboa, que falava muito bem. Como ele queria parecer muito culto – o chamado burro doutor, que é o que mais temos em Portugal – ele usava palavras como “efetivamente”, só que se enganava e, pensando que estava a ser elegante, dizia coisas como “infectivelmente, este problema é um proglómeno que temos de aresolver”. Aí vinha o refrão, em que as pessoas diziam: “Ó Calinas, cala a boca!”, mas ele parecia não ouvir. E isto é um bom exemplo da importância de ouvirmos os outros.

Fotografia ©Nuno Sampaio

O Rui considera então que hoje em dia existe muito esse ódio à própria ideia do outro? Cada vez mais e até por causa das redes sociais, existe um discurso de que “a minha opinião é que está certa e não quero saber da tua”. Como é que se combate isso? Ou melhor, devemos combater isso?

Tirando o medo, eu acho que se combate isso sendo suave. Eu, de cinco em cinco anos, perco a paciência e parto para a discussão. Mas, no dia a seguir, percebo que isso foi mau. Nos meus melhores momentos eu tento ser zen e liderar pelo exemplo. Liderar não liderando. Um líder de opinião lidera pelo exemplo. No fundo, a minha persona pública – e eu estou presente nas redes sociais -, tenta liderar pelo exemplo. Muitas vezes quando me insultam, em vez de reagir com o mesmo insulto, aceito o insulto de certo modo. Às vezes dá-me um certo gozo: “Como é que você descobriu que eu sou um filho da mãe?” (risos). Se me disserem que sou um escritor medíocre, eu respondo: “Você tem razão, mas quem dá o que tem…” e isso muitas vezes desarma a outra pessoa e até a ajuda a aliviar a sua fúria.

Um dos grandes dilemas no mundo de hoje é o terrorismo e como lutar contra ele sem virarmos nós próprios terroristas. É evidente que a vantagem do terrorismo é que não faz prisioneiros. A vantagem do terrorismo é que não respeita civis. A vantagem do terrorista é que se há bebés e crianças, ainda é melhor. Vou atirar um camião contra uma multidão em Nice, esteja quem estiver à frente. Ou seja, definição de terrorismo: por estarmos irritados com alguém vamos matar uma pessoa que não é esse alguém. Para sermos eficazes a combater o inimigo, temos de falar a linguagem dele e, portanto, se alguém me ataca com uma marreta, eu devo atacar com uma marreta maior. Se o indivíduo me quer dar um tiro com uma pistola, então o mais eficaz é eu reagir com uma metralhadora. E se alguém me tenta matar, a forma mais eficaz para eu escapar, é matá-la primeiro. Qual é o problema desta lógica? É que, a certa altura, nós passamos a ser o terrorista, com a desculpa da autodefesa… Levamos isto ao extremo da paranoia social! Na cabeça desses assassinos, o que eles fizeram foi uma ação preventiva. Eles, no fundo, não estiveram a matar mulheres e crianças, estiveram a matar o inimigo, partindo do princípio que aquelas crianças iam tornar-se homens terríveis. A forma mais eficaz é matar o inimigo, mas aí nós somos o inimigo. Neste momento, quando nós bombardeamos uma aldeia e atingimos um hospital, é um dano colateral. É a linguagem do eufemismo. Mas se for um inimigo, já é um ataque traiçoeiro e um crime abominável. É necessário sair deste ciclo vicioso! Nós temos de agir. Temos de responder de outra forma! Se o inimigo me aponta uma pistola, eu tenho de tentar resistir à tentação de eu sacar de uma pistola. Se o meu inimigo tem uma pistola, tenho de resistir a comprar uma arma. A forma de responder a quem tem armas é não ter arma. Há riscos. Mas eu acho que ganho muito mais trazendo os bons fascistas para o meu lado, pensando que vão aprender a ser melhores, do que cuspindo e atacando. Quando alguém vem para bater, eu baixo os braços. É difícil e às vezes levámos um soco que podíamos ter defendido, mas é a solução para sairmos disto.

No meu livro OssO trago um diálogo em que o terrorista é a pessoa engraçada e o inquisidor que acha que comete o bem é a figura mais ríspida. É estupidamente paradoxal, mas deu-me muito prazer fazer este livro. É brincar para aprender como lidar com coisas sérias. Aliás, na versão traduzida para francês, o livro chama-se O Terrorista Feliz.

“Se o indivíduo me quer dar um tiro com uma pistola, então o mais eficaz é eu reagir com uma metralhadora. E se alguém me tenta matar, a forma mais eficaz para eu escapar, é matá-la primeiro. Qual é o problema desta lógica? É que, a certa altura, nós passamos a ser o terrorista, com a desculpa da autodefesa… Levamos isto ao extremo da paranoia social!”

“O terrorista feliz” é um bocadinho como a provocação do Manual do Bom Fascista. Como é que tem sido o feedback deste último livro?

Tem sido bom. É um excelente trabalho gráfico da Lia Silva que ajuda o livro a viver. Eu gosto muito de trabalhar com outras pessoas. Ao contrário da fama que eu tenho de mau feitio, normalmente as pessoas com quem eu trabalho ficam a gostar de mim (risos). De facto, uma capa boa puxa-nos para cima e uma contracapa bem trabalhada pode ajudar o leitor a sentir-se curioso. Um bom índice pode ser uma obra de arte. Sugiro até a quem nos lê que consulte o livro As cidades invisíveis, de Italo Calvino, porque aquele índice é um prodígio de inteligência.

Este meu livro é um objeto de cuidado, com um certo relevo e um papel diferente. Todo o livro foi feito cuidadosamente, até a minha fotografia foi escolhida adequadamente para que eu me pareça mesmo um facho (risos) A reação tem sido muito boa e há muito tempo que eu não tinha um livro que vendesse como pãezinhos quentes.

Fotografia ©Nuno Sampaio

O Rui é um homem que se orgulha das frases que cria. Lembro-me de ler uma frase sua que é marcante. Dizia o Rui que mora num país com pés de bairro. Se olharmos para a nossa sociedade, considera que pensamos cada vez mais pequenino?

Eu chamo a isso a criatividade sushi, que é conseguir fazer uma coisa diferente, gastando a menor energia possível. É uma das coisas que eu tento ensinar nas aulas e nos livros: o nosso ideal é não fazermos nada. O meu ideal é escrever sem escrever. Nós preferimos ser mais económicos nos nossos movimentos e nos nossos gestos. A melhor forma de acalmar um bebé que chora é embalá-lo suavemente. Chocalhar a criança não vai resultar! O bairro, o ser pequeno, é bom e é mau. O Gore Vidal era um escritor com muita piada que diz que o mal dos EUA é serem um gigante, porque a escala boa de um país é dez milhões de habitantes, isto é, Portugal tem o tamanho certo para um país. O que acontece é que os outros países têm um tamanho errado (risos). O mundo como está desmesurado, anda constantemente a tentar evitar guerras entre vizinhos. O lado bom do bairro é que nos conhecemos todos. O lado mau do bairro é que pensa que é o centro do mundo. Eu acredito que temos de sair do bairro para melhor aceitar o bairro. E eu estou mais barrista!

O Rui é um utilizador das redes sociais e partilha muitos pensamentos na internet. Para um escritor de livros, escrever numa rede social não pode ser considerado desperdício de palavras?

Quando eu estou no Facebook ou no Twitter, acho muitas vezes que estou a fazer serviço público. Há amigos meus que entendem isso. É preciso estar onde está a palavra. Eu estou onde está a palavra. E a palavra pode ser trabalhada de todas as formas, onde quer que esteja. Os 280 caracteres do Twitter é uma forma tão rígida como é o soneto. É possível usar o Twitter para dizer que hoje vimos um grande filme e não só para insultarmos os adversários. No Facebook, tenho muitos leitores e confesso que gosto do Like. É afável! Entre um indivíduo que na rua me cospe ou me diz que gosta de mim, eu prefiro a segunda opção. O Like é simpático! (risos) Escrever algo que as pessoas gostem numa rede social é a minha forma de fazer o bem, é a minha forma de ganhar o céu, compensar os pecados.

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