Revista Rua

2019-08-23T10:10:48+01:00 Opinião

Saco Preto

Crónica
Afonso Castro
23 Agosto, 2019
Saco Preto

Ainda faltavam quatro ou cinco meses para o teu aniversário, mas eu já sabia o que te iria dar. Não sei se te conhecia assim tão bem, mas consegui tratar de tudo num dia só. Cheguei a casa e guardei no guarda-vestidos, no meio das camisolas de inverno, o embrulho. Não fui eu que o fiz, foi o senhor da loja, se fosse eu ficaria irregular, disforme, com fita-cola a mais ou a menos, no fundo, mal feito.

Mais perto do dia dos teus anos, saí à rua para arranjar um saco de papel, para pôr lá dentro o embrulho. Arranjei o saco menos comunicativo de sempre e o mais imparcial possível. Um saco de papel preto. Acertei no tamanho, trouxe um saco médio, o embrulho não nadava lá dentro nem ficava claustrofóbico. Três agrafos. Depois, tirei as rugas do papel com a mão e pus o saco em cima da secretária, não fosse eu esquecer-me dele.

Durante alguns dias, o saco ficou em cima da minha secretária, imaculado, e era de tal forma desinteressante e pouco revelador que eu próprio às vezes me esquecia do que estava lá dentro. No entanto, olhava para ele e pensava: não me posso esquecer de te levar comigo.

Já me aconteceu. Saí de casa, sem notar as mãos desocupadas, e só uns passos depois pela rua fora é que fechei os olhos, bati com a mão na testa e voltei para casa a correr. É por isso que agora penso, durante dias a fio, do que não me posso esquecer. Não me posso esquecer do saco que tem o embrulho lá dentro, e nem me posso esquecer de espreitar pelo espaço que fica entre os agrafos, para me certificar que o embrulho está mesmo lá, e não me posso esquecer das chaves de casa, porque se me esqueço das chaves e do saco, já não posso voltar a casa para o ir buscar.

No dia dos teus anos, acordei cedo. Demasiado cedo, se calhar. Tomei o pequeno-almoço, tomei banho, fui ao telemóvel ler as primeiras notícias do dia, pus um vinil no gira-discos, mas deixei a música a tocar baixinho, não me quero distrair das horas a passarem. Só que a agulha chegou ao fim do disco e eu já tinha ouvido os dois lados daquele LP várias vezes naquela manhã. Desliguei tudo e optei pelo silêncio. Podia ter optado por pôr outro disco a tocar, mas preferi andar pela casa, sem barulho de fundo, de janela em janela, a espiar a manhã, uma manhã de início de verão, nítida, leve e azul.

Imagem representativa

Nem sabia no que pensar. De minuto a minuto olhava para o relógio grande da cozinha, e lá estava o pesado ponteiro dos segundos, e eu sem saber se o queria a avançar desenfreadamente ou a atrasar cada vez mais. Aquele som, do ponteiro dos segundos a passar, punha-me atento, dentro do tempo, à espera para sair de casa. Estive uma hora e meia, pronto, de carteira, telemóvel e chaves no bolso, a dar voltas, a ver se o que via da janela mudava de repente. Mas não, lá continuavam as pessoas a passear os cães ou os cães a passear as pessoas, e pais a porem os miúdos nos carros para os levarem à escola, e velhotas a saírem muito arranjadas para irem a consultas no centro de saúde.

Farto de esperar, faltavam vinte minutos para as dez da manhã, ou seja, faltavam vinte minutos para ter de sair de casa, tranquilamente e com tempo, adiantei-me e fui andando. Lembrei-me que, não estando atrasado, poderia ir beber um café antes de chegar à estação.

Mesmo assim, estive alguns minutos à espera do comboio. Não me chateou esperar porque era exatamente aquele comboio que eu tinha de apanhar e ia apanhá-lo e trazia o saco com a tua prenda comigo, e não estava demasiado calor, o vento passava serenamente por mim como um vizinho bonacheirão que nos cumprimenta e pergunta se está tudo bem connosco e com os nossos.

Fui o caminho todo com o olhar dividido entre a janela do comboio e o saco nas minhas mãos. O saco está aqui, eu consegui apanhar o comboio das dez e vinte e oito, tenho tempo, tenho tudo comigo. Se me encostava mais ao banco e fechava os olhos, tinha de pensar em estar, de certa forma, acordado, não cair totalmente no sono, não sair numa estação na qual não era suposto sair e ter de voltar para trás.

Hoje é sexta-feira. Entrei cedo no trabalho e por isso só consegui ir a tua casa perto de anoitecer. A mesma vizinha que noutra altura me avisou que te tinhas ido embora, agora, mais do que convencida de que não se contraria os malucos, pergunta-me jovem, quer subir um bocadinho e esperar aqui enquanto não chega alguém?

Quando as carruagens abrandaram sobre os carris, perto da estação da zona onde moravas, eu estava já levantado, de costas muito direitas e de saco preto de papel na mão, e na minha cabeça recordava-me das ruas que teria de percorrer e dos sítios onde teria de virar. Há muitos anos que venho aqui ter, à tua casa, mas não quero dar voltas estúpidas e enganar-me no caminho, até porque já estou na fase em que penso mais no que vou dizer quando te vir do que no saco ou nas horas, e sendo assim arrisco-me a perder-me aqui, mesmo sendo capaz de, noutras alturas, fazer o caminho até tua casa de olhos fechados.

E finalmente ali estava a tua praceta, o teu prédio, o número da tua porta, a campainha e o número do teu andar. Toquei duas vezes, como sempre fiz. Assim, sabias logo que era eu. Dois toques, sempre com o mesmo compasso de espera entre eles. E ninguém respondia, ninguém perguntava quem é?, e eu que nunca tive a necessidade de tocar à campainha mais que uma vez, não sabia o que fazer. Afastei-me da porta do teu prédio e olhei para cima, a janela da sala e a janela do teu quarto estavam ambas com os estores completamente corridos e a seguir reparei que o carro dos teus pais não estava estacionado por ali.

Toquei de novo, três vezes, como se isso mudasse os contornos de estranheza que aquela manhã estava a ganhar. E quando perdi a vergonha, colei-me à campainha. Se tu ou alguém aí em casa respondesse, eu diria que pensei que estivesse estragada, a campainha, daí ter insistido tanto. Eu trouxe a tua prenda, cheguei à hora que era suposto chegar, mas entretanto uma vizinha tua perguntou-me está a tocar para que andar, para o segundo direito?, é que não está aí ninguém, saíram ontem à noite, já era tarde, puseram uma data de malas no carro e arrancaram, eu sei porque a essa hora eu estava aqui à janela à espera que a minha neta chegasse a casa.

Agradeci enquanto tirava o telemóvel do bolso, pensei em escrever onde é que andas?, mas preferi deixar-te uma mensagem a avisar que estava à tua porta. Nunca respondeste. Até hoje nunca mais o meu telemóvel me deu nenhuma notificação tua, até porque acabaste por apagar todos os teus perfis e contas nas redes sociais e o teu número tornou-se inútil. Nem os amigos em comum sabem o que se passou. Pensei em ir falar com familiares teus mais afastados, com os teus tios ou os teus primos por exemplo, faltou-me foi coragem.

No entanto, todas as sextas-feiras, porque foi numa sexta-feira que deixei de ter notícias tuas, volto sempre à tua casa, ou melhor, à tua antiga casa, e toco à campainha, sempre dois toques, e os teus vizinhos devem achar-me louco, mas eu estou lá e levo sempre comigo a tua prenda, e acho até que já devo ser conhecido na zona como o tipo do saco preto. Uma coisa eles não sabem, é que este já não é o saco original. Esse gastou-se e acabou por se romper e por isso tive de arranjar outro igual.

Hoje é sexta-feira. Entrei cedo no trabalho e por isso só consegui ir a tua casa perto de anoitecer. A mesma vizinha que noutra altura me avisou que te tinhas ido embora, agora, mais do que convencida de que não se contraria os malucos, pergunta-me jovem, quer subir um bocadinho e esperar aqui enquanto não chega alguém? Fiquei a saber imenso da vida dela, e fiquei também a saber que sabia muito pouco sobre ti. Antes de me ir embora, pedi-lhe papel e uma caneta. Trouxe-me umas folhas pautadas e uma caneta de aparo, e pelo que percebi era uma das canetas que o marido dela, que deus tem, mais usava. Depois perguntei-lhe se me arranjava um envelope. Confiei-lhe isto que, um dia, poderás vir a ler, provavelmente daqui a muitos anos. Ela garantiu-me que se te vir, entrega-lhe esta espécie de carta. Quanto à prenda, quero entregar-ta em mãos. E, por essa mesma razão, na próxima sexta-feira, cá estarei outra vez.

Sobre o autor:
Nasceu em Lisboa há vinte e dois anos. Estuda Direito na Faculdade de Direito de Lisboa. Escreve por aí em blogs e cadernos desde a adolescência. Em 2018, lançou um livro de poesia (Os Consulentes) pela editora Urutau. É fã incondicional de autores como Bukowski, Jack Kerouac e Anthony Frewin.

Partilhar Artigo: