Revista Rua

Salvador Sobral: “Adoro cantar, qualquer coisa, desde que seja boa, profunda e honesta”

O músico português reconhecido por ter sido o vencedor da Eurovisão 2018 vai dar três concertos especiais já em fevereiro.
Fotografia ©Nuno Sampaio
Andreia Filipa Ferreira
Andreia Filipa Ferreira30 Janeiro, 2020
Salvador Sobral: “Adoro cantar, qualquer coisa, desde que seja boa, profunda e honesta”
O músico português reconhecido por ter sido o vencedor da Eurovisão 2018 vai dar três concertos especiais já em fevereiro.

Numa conversa afável, sem grandes formalidades, conhecemos Salvador Sobral, o menino bom, profundo e honesto, tal como ele quer que a sua música seja. Reconhecido pela emoção que tão bem traz às suas interpretações, Salvador Sobral lança-se, em fevereiro, numa aventura que é “o maior desafio da sua carreira” até ao momento: cantar Jacques Brel, o autor de canções, compositor e cantor belga francófono que tantas vezes intitularam como fonte de inspiração a Sobral. Dando o seu corpo a este manifesto de genialidade, Salvador Sobral dará voz às músicas de Brel já no dia 7 de fevereiro, no Centro Cultural de Belém, em Lisboa; no dia 8, na Casa da Música, no Porto; e no dia 10, no Teatro Aveirense, em Aveiro.

Fotografia ©Nuno Sampaio

Em primeiro lugar, queríamos partilhar contigo que já entrevistamos a tua irmã há uns meses e ela referiu algo muito engraçado para justificar a paixão pela música. Ela disse: “Podemos dizer que há um gene familiar. O meu pai sempre ouviu muita música, mas até hoje não sei bem o que nos fez, a mim e ao meu irmão, seguir a área. Até gostava de perceber, para fazer o mesmo com os meus filhos”. A minha primeira pergunta para ti é, então, se sabes justificar este caminho em perseguição pela música. A música é o quê para ti? Como é que surge esta ideia de seres músico?

Eu acho que, tal como a minha irmã diz, é algo que nasce connosco, mas a nossa educação e a forma como o meu pai nos passou a música desde bebés foi sempre muito orgânica e poética. Colocava uma música dos Beatles e dizia-me: “Olha este tema, o Norwegian Wood, olha-me esta letra ou só para a primeira frase, ‘I once had a girl, or should I say, she once had me?’. Isto, sim, é música!”. E aquilo surgia de uma forma tão pouco forçada, baseada na passagem de informação de alguém completamente apaixonado por música. Nas viagens para o Algarve, passávamos horas no carro e cada um cantava uma voz. Acho que esse é o segredo para passar a música de geração em geração. O facto de sermos tão musicais deve-se à forma como a música nos foi passada, de uma maneira simples, apaixonada e natural, nunca forçada.

Ao longo da tua carreira sempre passaste muito essa mensagem de naturalidade, de seres muito genuíno com aquilo que estás a sentir e de te envolveres com as emoções que a música te faz sentir. É esse o teu dom?

Acho que sim, acho que é o facto de eu sentir a música e saber transportá-la para as pessoas. Talvez possa ter um jeito para perceber o público e conseguir criar uma simbiose energética. E depois adoro cantar, qualquer coisa, desde que seja boa, profunda e honesta. E na música, quando eu sinto que há verdade, eu gosto de a cantar. Gosto de cantar a verdade, seja ela jazzística ou pop.

“Na música, quando eu sinto que há verdade, eu gosto de a cantar. Gosto de cantar a verdade, seja ela jazzística ou pop”

Em fevereiro, subirás aos palcos para três concertos especiais, onde darás voz ao repertório do cantor belga Jacques Brel. Para ti, quem é Brel e porquê esta escolha na fase atual da tua carreira?

Para mim, ele é o melhor intérprete de todos os tempos e universos musicais, mas eu conheci-o relativamente há pouco tempo, embora já soubesse quem ele era. A música de Jacques Brel esteve muito pouco presente na minha infância e nunca me disse grande coisa. Quando saí do hospital, comecei a tocar pela Europa, em 2018, e as pessoas diziam-me que se notava que Jacques Brel era uma grande inspiração para mim, por ser muito intenso a interpretar e devido à minha teatralidade e dramatização, que eram características muito idênticas a Jacques Brel. Mas eu, de facto, não o ouvia muito. Uma altura, saiu uma reportagem em Espanha que dizia que Portugal já teria encontrado o seu próprio Jacques Brel e foi aí que eu pensei: “Bem, agora é que eu vou ouvir com atenção”. Além disso, a minha mulher é franco-belga e a infância dela é Jacques Brel. Quando o ouvi, descobri o maior intérprete, o maior poeta e o maior “cantador” de histórias. Fizemos questão de traduzir todos os poemas que fazem parte do programa do espetáculo, porque as letras são tão geniais que têm de ser totalmente percebidas. Ele é um ator que canta, um cantor que representa e também um poeta que escreve canções. Acho que atingiu a excelência nas artes. O personagem dele é uma obra de arte no seu todo. É um artista sublime e o melhor que alguma vez encontrei na vida.

Mas isso traz-te um peso de responsabilidade diferente quando sobes a palco para interpretar o cantor que ele é?

Claramente. Por isso é que a ideia não é fazer um tributo em que a banda se veste de igual, mas, sim, fazer a nossa própria interpretação das coisas. Ele tinha orquestra e uma big band jazz, ou seja, eram muitas pessoas em palco e para nos distanciarmos disso teremos uma banda improvável, que já por si vai fazer com que a estética seja muito diferente. A minha missão passa também por não me colar a ele. Tenho de encontrar-me dentro da sua música. A minha interpretação nunca será tão intensa como a dele, porque eu também não sou assim, mas as letras quero tê-las muito intrínsecas.

Fotografia ©Nuno Sampaio

“Até eu estou curioso para ver de que forma vou dar a volta a Jacques Brel, que é o melhor intérprete de todos os tempos”

Como é que convidarias os leitores da Revista RUA e o público em geral para assistirem a estes teus espetáculos tão especiais?

(risos) Até eu estou curioso para ver de que forma vou dar a volta a Jacques Brel, que é o melhor intérprete de todos os tempos. Qual será a minha interpretação das suas palavras? Acho que só isso é interessante.

Vai ser um enorme desafio, então?

Para já está a ser o maior desafio da minha carreira!

Falando de desafios, tu saltas de um grande desafio para outro ainda maior, o que me leva a questionar: o que mais tu queres fazer? O que é que ainda virá? Esta lógica de interpretação de ídolos que já eram teus é algo que tu queres continuar a fazer?

É exatamente o contrário. Sinto que todos os discos que eu fiz são um conjunto de canções. Eu não gosto de fazer discos, nunca gostei. Gosto é de tocar ao vivo e os discos acabam por ser um fardo para mim. Eu gosto da parte de estar no palco. Agora, por estar a interpretar Jacques Brel e mesmo com o meu último disco que tinha várias pessoas que escreveram para mim, tenho vindo a pensar numa das críticas que muita gente me faz (e que eu próprio faço): o facto de eu ser um pouco disperso, porque gosto de tanta coisa diferente. Num próximo disco acho que quero explorar a minha veia de compositor e fazer um disco que tenha um conceito, que seja conceptual e que conte uma história. Acho que é isso que me falta, ter um disco mais coerente. Mas, vá, não é certo! (risos)

Que planos tens para 2020? O que esperas alcançar este ano? De que forma vais procurar surpreender o teu público?

Vamos continuar a fazer alguns auditórios em Portugal, temos também muita coisa lá fora, o que é bom. Somos capazes de ir até ao Brasil, que era uma coisa que eu gostava muito. Alma Nuestra, que é a minha alma dos boleros, vai lançar um disco pela Warner Espanha, agora em fevereiro, e teremos também alguns concertos por lá.

A entrevista completa a Salvador Sobral fará parte da próxima edição em papel da Revista RUA.

Partilhar Artigo: