Revista Rua

Sara Barradas: “Tem de se lidar com uma série de emoções e pressões nesta vida [de atriz]”

A atriz Sara Barradas está em entrevista na RUA.
Fotografia ©Nuno Sampaio
Andreia Filipa Ferreira29 Março, 2021
Sara Barradas: “Tem de se lidar com uma série de emoções e pressões nesta vida [de atriz]”
A atriz Sara Barradas está em entrevista na RUA.

Reconhecida pelo grande público desde que, em 2002, encantou numa telenovela chamada Amanhecer, Sara Barradas é uma jovem atriz que vimos crescer no pequeno ecrã. São inúmeras personagens numa vida que se alimenta por câmaras e palcos. Hoje, Sara Barradas é símbolo de uma geração que tende a reinventar-se e a colocar em evidência o talento português em projetos cada vez mais minuciosos em termos de produção. Das novelas ao cinema, esta é a Sara Barradas que queremos dar a conhecer: uma atriz camaleão!

Fotografia ©Nuno Sampaio

Gostava de voltar ao início da tua carreira e perguntar-te como é que tudo começou. Foi sempre este percurso que ambicionaste ou tinhas outros sonhos que ficaram pelo caminho? Sempre me vi a ser atriz. Este foi o percurso que eu idealizei para mim desde que me lembro de existir. Não me imaginei a fazer outra coisa… No entanto, quando pensava num plano B, principalmente durante a adolescência ou quando me diziam que esta profissão não é estável, escolhi, após o secundário, estudar Psicologia. Comecei a licenciatura para ter esse plano B, mas nunca me vi em plenitude como psicóloga… sempre me vi como atriz!

O percurso que fiz até aqui foi muito prazeroso. Gostava que já tivesse tido outros contornos, mas, na verdade, nunca podemos escolher – e se pudéssemos não teria tanta graça! (risos) Ainda sou muito nova, ainda tenho um caminho muito longo pela frente.

O público português já te conhece desde que eras muito nova. Tens boas memórias daquele início, em 2002, na novela Amanhecer? Tinhas apenas 11 anos!

Guardo as melhores recordações! Nunca vi este meu percurso enquanto criança e adolescente como uma responsabilidade nem como um trabalho. Na altura, surgiam algumas críticas de colegas, de pais de amigos e mesmo de professores, que diziam: “Estás a trabalhar? Mas os pais deixam? Que horror!”, porque naquela altura havia muitos poucos jovens a ser atores. Ainda não havia sequer os Morangos com Açúcar! Para mim foi, de facto, dos momentos da minha infância que eu guardo com mais carinho, foi o realizar de um sonho… Aquilo podia ser só uma passagem, eu podia nem sequer ter talento! Porque eu não fazia ideia se tinha talento. Eu era apenas uma criança que não tinha consciência das minhas capacidades… Mas guardo esse primeiro projeto com grande carinho, assim como as pessoas que se cruzaram comigo e que foram fundamentais para traçar os meus primeiros passos.

Fotografia ©Nuno Sampaio

“O percurso que fiz até aqui foi muito prazeroso. Gostava que já tivesse tido outros contornos, mas, na verdade, nunca podemos escolher – e se pudéssemos não teria tanta graça! (risos) Ainda sou muito nova, ainda tenho um caminho muito longo pela frente.”

Queridas Feras, Fala-me de Amor, Morangos com Açúcar, Espírito Indomável, Remédio Santo, Jogo Duplo, Quer o Destino… Estamos a falar de novelas que marcaram a evolução da televisão e do entretenimento em Portugal e tu fizeste parte de todos os elencos. É uma responsabilidade ser um rosto ativo na promoção da evolução desta indústria do entretenimento num país como o nosso? É uma pressão também?

Não é fácil! Tem de se lidar com uma série de emoções e pressões nesta vida. As pessoas que pensam que isto é um mundo fácil estão redondamente enganadas! Agora, com as redes sociais, muitos jovens pedem-me conselhos e eu digo sempre que, em primeiro lugar, tem de se ter talento. Eu acho que alguns colegas podem discordar de mim, mas não se pode querer ser ator só porque é giro aparecer na televisão ou porque se quer ser famoso… aliás, quando eu comecei, eu nem sabia que iria perder a minha privacidade – tão ingénua que eu era! (risos) A seguir ao talento, vem o trabalho, que passa por estudar, trabalhar e aprender muito com quem nos rodeia, diretores, atores, sonoplastas… É necessário perceber que é um processo longo e árduo, onde temos de aprender a lidar com a frustração de, muitas vezes, não sermos escolhidos para que, no dia a seguir, acordarmos e voltarmos a tentar. E isso não é fácil para quem emocionalmente é mais frágil. Pode ser muito complicado.

Quanto aos projetos televisivos, eu sinto-me feliz por ter participado porque aprendi muito tecnicamente e artisticamente. Desde muito nova que eu tento sempre apoiar-me nos mais velhos porque eles sabem mais do que eu e podem ensinar-me. Depois de eu fazer a minha primeira novela, lembro-me que, quando me chamavam para outros projetos, a primeira coisa que eu queria saber era quem fazia parte do elenco. Queria saber com quem eu ia aprender mais! Portanto, eu fico muito contente por já ter trabalhado com muitas das minhas referências, por ter feito parte da evolução da televisão…

Hoje em dia, em televisão, fazem-se coisas quase ao estilo do cinema. Ainda na novela Quer o Destino, eu fiz algumas cenas que tecnicamente me deram um prazer incrível, como ter uma câmara go pro amarrada à cabeça. Ou seja, planos à cinema já se estão a fazer em televisão. Felizmente, há realizadores que lutam contra o que é mais fácil, o que é mais cómodo, porque nós sabemos que há poucos meios e investe-se pouco para fazer muito. Mas nós com pouco podemos ser criativos na mesma! Neste caso, no projeto Quer o Destino, pude trabalhar com pessoas com lutam contra essa inércia e isso, para mim, enquanto atriz, dá-me imenso prazer.

Fotografia ©Nuno Sampaio

Nesse projeto Quer o Destino tiveste um papel marcante. Consideras que teve um impacto grande na tua carreira como atriz? Foi um papel que te deixou orgulhosa?

Senti bastante, sim. Eu, no início, tinha muitos receios acerca dessa novela. Primeiro porque achei que a história poderia ser um bocadinho claustrofóbica, uma vez que o elenco era muito pequeno, ou pelo menos, mais que o habitual. Depois, a história era pesada e condensava-se toda a uma só família. Portanto, eu achei que as pessoas já podiam estar um bocadinho fartas e que se podiam facilmente desligar… Com o confinamento, a novela adiou a sua estreia e, por isso, nós já estávamos a ficar todos bastante ansiosos. Só quatro meses depois de começarmos a filmar é que começamos a ter feedback o público… foi um boom de audiências e eu fiquei muito contente por fazer parte de um projeto que ajudou uma estação que não estava no seu melhor… Da parte do público, senti que as pessoas estavam mesmo a gostar!

Agora vivemos uma fase em que as redes sociais são o primeiro público…

Graças ao confinamento, nós nem tínhamos o feedback do público na rua, como era o normal. Por isso, as primeiras opiniões surgiram nas redes sociais. Eu nem tinha Twitter, mas existiam imensas pessoas que comentavam lá a novela e alguns dos atores tiravam prints e enviavam para o nosso grupo da novela no Whatsapp. Aquilo era uma loucura! Eu percebi com alguns dos meus colegas que a novela Quer o Destino foi, durante algum tempo, o top de assuntos mais falados em Portugal.

“A maioria das pessoas acha que se ganha muito bem e isso é um mito… a maioria dos atores não ganha bem e os que ganham bem têm fases em que estão meses sem trabalhar! É preciso desmistificar isso.”

Fotografia ©Nuno Sampaio

Há pouco falavas nas referências que tinhas quando começaste. Como é que lidas agora com o facto de tu própria seres uma referência para os mais jovens ou para quem anseia ter um percurso profissional como atriz? É uma responsabilidade?

É, claro! É engraçado que eu não tenho muito essa consciência, porque eu acho que sou sempre muito nova (risos). Mas talvez por ter começado tão nova, eu nem me apercebo que já faço isto há quase 20 anos. Consigo entender que para os jovens que cresceram comigo e me acompanharam pela televisão talvez eu possa ser uma referência. Claro que isso é uma responsabilidade e por isso é que quando me perguntam como é que se faz para ser atriz, eu digo logo “Calma, não é assim, não é um estalar de dedos!”. A maioria das pessoas acha que se ganha muito bem e isso é um mito… a maioria dos atores não ganha bem e os que ganham bem têm fases em que estão meses sem trabalhar! É preciso desmistificar isso. Tendo esta responsabilidade, a verdade é o que eu tento passar aos jovens: sobretudo é preciso gostar muito do que se faz… e ter talento!

A minha última pergunta tem a ver com anseios e ambições para o futuro. Tu consegues dividir-te entre o teatro, televisão e cinema. O que é que está na tua lista para o futuro? Continuar a dar um passinho em cada área ou possivelmente tentar estar mais presente no mundo do cinema?

Eu queria poder ter sempre um pezinho em cada área. Eu acho que é quase uma utopia, mas acho que é assim que devia ser. Os atores podiam e deviam todos experimentar tudo. Eu acho que, para mim, o ideal é ser o mais completa possível. Acho que isso só é possível indo a todas as áreas e, dentro das várias áreas, ir a todos os géneros, seja o drama, a farsa, a comédia… E depois perceber qual é o nosso lugar, a nossa praia. Mas, sem experimentar, nós nunca poderemos dizer que somos melhor nisto ou naquilo! Infelizmente, muitos atores não têm essa oportunidade.

Para o meu futuro, aquilo que eu projetaria era fazer mais longas-metragens, porque já fiz muitas curtas. Também gostaria de fazer mais peças de teatro, porque o teatro é a casa mãe da representação e tudo começa lá. No teatro, nós temos de nos fazer ouvir na primeira e na última fila com a mesma veracidade e isso não é nada fácil porque temos de projetar a voz sem gritar. Quando eu comecei a fazer teatro, isso foi o meu maior desafio. Eu pensava em como é que eu iria ser igualmente verdadeira sendo que tinha de fazer coisas menos naturais, como gritar para me fazer ouvir lá ao fundo, sem parecer que estou a gritar. Enquanto na televisão há planos fechados em que só aparece a nossa cara, no palco o corpo está todo em cena. É quase uma coisa em 3D ou 4D! (risos).

Em suma, eu gostava de continuar a fazer um bocadinho de tudo – e mais daquilo que faço menos, que é cinema e teatro.

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