Revista Rua

Sara Barros Leitão: “A cultura é promoção de pensamento”

A atriz portuguesa Sara Barros Leitão é “uma revolucionária quanto baste” e está em entrevista à RUA.
Sara Barros Leitão | Fotografia ©Nuno Sampaio
Maria Inês Neto
Maria Inês Neto28 Setembro, 2020
Sara Barros Leitão: “A cultura é promoção de pensamento”
A atriz portuguesa Sara Barros Leitão é “uma revolucionária quanto baste” e está em entrevista à RUA.

Natural do Porto, Sara Barros Leitão é uma das atrizes portuguesas mais reconhecidas do panorama artístico nacional. Feminista assumida e ativista contra desigualdades ou injustiças às quais dá voz e corpo numa luta que é de todos, apresenta-se na sua biografia como “uma revolucionária quanto baste”, mas também uma “artista difícil de domesticar”.

Começou no teatro amador e, em 2007, estreia-se na icónica série juvenil televisiva, Morangos com Açúcar V, chegando também ao cinema. Até ao momento, a sua carreira profissional é quase como uma narrativa que se desdobra em vários papéis – distintos, mas complementares. O fascínio pela leitura e pela escrita encaminharam-na para a vertente de encenação e dramaturgia, sendo autora de várias criações, como A Teoria das Três Idades ou Todos os Dias me Sujo de Coisas Eternas, este último um monólogo inspirado na toponímia portuense.

Na véspera da estreia da peça Catarina e a beleza de matar fascistas, de Tiago Rodrigues, em Guimarães, falamos com a atriz portuguesa, neste regresso ávido e emocionante ao lugar onde é mais feliz – o palco.

Fotografia ©Nuno Sampaio

Em cima do palco é atriz, encenadora, dramaturga e assistente de encenação. Fora do palco é uma assumida feminista e ativista perante desigualdades e injustiças. Considera que há um certo propósito em todas as suas ações?

Eu acho que não vivo com essa premeditação de tudo ter um objetivo, porque seria um pouco difícil de conseguir encontrar prazer. Agora, a política faz-se no dia a dia, naquilo que tu escolhes comprar ou não, no que escolhes ajudar, nas tuas preocupações diárias, na forma como tratas os outros, como olhas para o outro e sentes empatia por ele. Para mim, isto é fazer política. Os espetáculos também são políticos, na medida em que têm este grau de implicação com o outro e com a sociedade. Eu tento fazer todas as minhas ações do dia de bem com a minha consciência, mas as nossas consciências são sempre diferentes e acho que todos, na verdade, tentamos fazer isso, mas temos valores e egos diferentes. Procuro viver o meu dia sem magoar ninguém e que cada uma das minhas ações possa contribuir para um mundo mais justo, com menos desigualdades ou, pelos menos, que possa atenuar as desigualdades de classes.

A Sara sempre foi uma “boca que não quer calar” ou quando é que começou a ter um olhar mais crítico perante aquilo que a rodeia?

(risos) Eu não sou uma pessoa de falar na hora, mas isso não é sinónimo de alguém que diz tudo o que tenha a dizer ou que é frontal. Há aqui uma questão que é importante ressalvar: há um lado do lugar de fala no espaço público que surge de uma urgência e de uma necessidade de luta, de reivindicação, mas isso não significa que, na minha vida pessoal, seja uma pessoa muito frontal. Pelo contrário, até tenho um grande espaço de reflexão. Os meus amigos gozam muito comigo, porque quando quero comprar uma coisa, mesmo que seja a mais básica, raramente compro no próprio dia. Fico durante muito tempo a questionar se realmente me faz falta, se preciso mesmo de comprar, se é sustentável ou se não há algo melhor. Quando é para ocupar esse espaço de fala, que parece ser uma grande reivindicação, é sinónimo de muitas horas de reflexão, trabalho, estudo e pesquisa, pelo que essa minha ocupação de espaço público – seja pelos direitos laborais ou por outra coisa qualquer – não é um ato irrefletido e fruto da minha personalidade. Surge de muita premeditação naquilo que acho que é necessário, de um modo global, e não apenas para mim.

“O meu trabalho enquanto atriz e encenadora vive da partilha constante. Fazer teatro e trabalhar na arte faz-nos estar sempre num lugar de reflexão e de confronto.”

Tem usado a sua visibilidade para dar voz a muitos debates, a muitas perguntas retóricas, não só acerca das fragilidades do setor das artes, como muitos outros aspetos relacionados com desigualdades sociais e injustiças. O objetivo é precisamente informar, levar à reflexão?

Eu não tenho grandes objetivos com isso, porque, na verdade, é uma coisa que é natural. São coisas que me inquietam, que eu acho importantes e são conteúdos que mudaram a minha vida, que eu fui descobrindo e considero impactantes e urgentes, que podem transformar a forma como vemos o mundo. O ato de partilhar é apenas porque gosto de o fazer. O meu trabalho enquanto atriz e encenadora vive da partilha constante. Fazer teatro e trabalhar na arte faz-nos estar sempre num lugar de reflexão e de confronto. Portanto, daí até eu passar para uma rede social aquilo que eu estou a pensar é uma coisa um pouco inevitável. Se ando a estudar algo que me inquieta, gosto desse confronto, de poder partilhar e receber. No fundo, é isso que nos move enquanto seres humanos.

Fotografia ©Nuno Sampaio

Disse numa entrevista recente que o pai da Sara percebeu que o seu caminho profissional passaria pelo teatro, antes de sequer considerar esta área como uma profissão. O teatro despertou logo interesse? Ainda se lembra da primeira vez que pisou um palco?

(risos) Eu acho mesmo bonito quando leio entrevistas de pessoas que admiro e há uma grande romantização da memória ou um lado muito belo nessa descoberta. Para mim é tudo muito prático e acho que o teatro se faz em muitos mais sítios para além do palco. Augusto Boal diz que o teatro se pode fazer em qualquer lugar, até num teatro. E a verdade é que sempre tive essa consciência, porque fazer teatro também é discutir assuntos. Estar no palco e ser “vista” é uma coisa que não me interessa muito. Comecei a fazer teatro desde pequena, seja na garagem dos meus avós, seja para a minha família ou, mais tarde, em grupos de teatro amadores, que são fundamentais para a saúde da democracia, da sociedade e da arte. Até começar a estudar teatro e depois a trabalhar foi tudo muito orgânico. Não conheço a fronteira entre o profissional e o amador na minha vida.

“A escrita e a leitura, antes do que qualquer outra coisa, foram sempre um fascínio muito grande. Mas acho que tudo isto parte de uma inquietação, com um olhar global sobre o que é fazer arte, um lugar crítico – não necessariamente de apontar o dedo ou criticar negativamente, mas de estar alerta e permitir a reflexão – e isso é o lugar de um encenador.”

Podemos presumir que a criação artística seja algo quase nato, mas o que é que despertou interesse para a parte da escrita e a dramaturgia?

A criação artística é uma coisa muito orgânica na minha vida como é na de crianças saudáveis que têm papéis em branco e lápis de cor à sua disposição – o que nem sempre acontece, infelizmente. E quando isso acontece é muito saudável, na medida em que, quando somos crianças, termos esse tempo para brincar é uma aproximação àquilo que será um dia a criação artística, que vamos castrando ao longo da vida, porque achamos que não é útil ou que há coisas mais importantes, como a Matemática ou a Economia. Portanto, só é nato nessa medida. Tudo o resto da criação artística surge de muito estudo e trabalho, assim como de um investimento muito grande como espectadora daquilo que eu posso ver ou como visitante em galerias de arte. No sentido profissional, não acho que a criação artística possa ser algo nato, surge dessa implicação. Eu não consigo dizer o que é que me despertou esse gosto [pela escrita], porque não sei se algum dia não esteve lá. Sempre gostei muito de escrever e, aliás, lembro-me muito melhor do dia em que aprendi a ler, mais do que o dia em que pisei um palco, por exemplo, porque percebi que me estavam a capacitar de algo que era altamente poderoso e que eu, finalmente, podia andar na rua e tudo o que antes me pareciam símbolos eram letras, queriam dizer coisas e eu tinha capacidade para desvendar isso. Depois também descobri que existiam livros proibidos e fogueiras de livros e que, portanto, são uma coisa mesmo poderosa. A escrita e a leitura, antes do que qualquer outra coisa, foram sempre um fascínio muito grande. Mas acho que tudo isto parte de uma inquietação, com um olhar global sobre o que é fazer arte, um lugar crítico – não necessariamente de apontar o dedo ou criticar negativamente, mas de estar alerta e permitir a reflexão – e isso é o lugar de um encenador. Aquilo que me motiva a fazer teatro nunca é o “eu” estar em palco é qualquer coisa mais global, porque sempre tive uma grande consciência do que seria um espetáculo na sua totalidade, mesmo enquanto atriz tenho essa característica – que nem sempre é boa.

O facto de conhecer os dois lados (da encenação e da representação), tornou-a ainda mais exigente em cada uma das áreas?

Por um lado, trouxe-me alguma frustração, por outro lado mais entusiasmo. Acho que é muito redutor, por vezes, definir o que é que nós sentimos em cada momento, porque eu sinto coisas tão diferentes a cada minuto ou a cada projeto. Há projetos nos quais me sinto muito infeliz, de uma forma geral, outros em que estou muito feliz, mas dentro dessa felicidade há muita insegurança e sofrimento, assim como conquistas. Adoro fazer as duas coisas e, como exercício, é fundamental. Acho que sou melhor encenadora, continuando a trabalhar como atriz, porque aprendo mais para depois dirigir e criar.

Fotografia ©Nuno Sampaio

Em que é que se inspira para as suas criações? Há sempre um ponto de ligação entre todas elas?

Essa ligação que eu, à partida, diria que não existe, ela evidentemente existe, porque essa ligação sou eu e o meu pensamento. A partir do momento em que sou eu quem cria, sou essa ligação. Aquilo que me inquieta não muda de ano para ano, pode evoluir, mas não muda radicalmente, por isso é normal que em todos os artistas haja qualquer coisa que nos leve a pensar: “É mesmo a cara dele”. Tentamos sempre surpreender e superar, mas isso não quer dizer que tenhamos de fazer coisas absolutamente distintas. Os meus pontos de partida têm sido sempre as minhas inquietações, o que move e comove e, sobretudo, encarar o teatro como um lugar potencial de tirar da invisibilidade algumas coisas: a memória das ruas e as histórias das pessoas. Interessa-me o pormenor insignificante, por exemplo. A menos que seja convidada, como já aconteceu, eu não tenho assim muito fascínio por encenar projetos como Rei Lear, porque interessa-me outro tipo de histórias e de escrevê-las, mas não é com um olhar voyeur. É um lado, se calhar, mais político, no sentido do espaço ou do que é que essa pessoa representa para a sociedade e de que forma a sociedade a coloca na história: se faz parte dos esquecidos ou dos que vale a pena recordar – isto também diz muito sobre a sociedade.

Considerando a Sara uma pessoa tão criativa, é inevitável não questionar de que forma viveu os tempos de confinamento. Foi possível continuar a criar? Que lições tira da pandemia?

Vivi o período de confinamento de forma extremamente ansiosa, não por mim nem pela pandemia, mas por todo o impacto social que isto trouxe e que era inevitável existir. As lições que tiro não são as mais bonitas como “voltar à terra” ou “ter tempo para ler”, porque isso são lições de pessoas privilegiadas, que têm uma casa boa para viver, que conseguem trabalhar em teletrabalho, a receber a 100% ou, então, pedir layoff. Tudo isso são situações privilegiadas e quem as vive consegue tirar lições como “o regresso dos passarinhos”. As lições que eu tiro, vivendo também nesse privilégio, mas tendo a consciência do mundo em que vivo, é que o Estado Social é fundamental, desde o Serviço Nacional de Saúde à proteção social dos trabalhadores ou ao facto de termos um Estado Social que tenta proteger todas as pessoas de forma igual, independentemente dos seus rendimentos e contribuições. O capitalismo e o neoliberalismo não nos conseguiriam salvar num momento como este. Retiro o reforço deste sonho pelo Estado Social em que todos contribuímos para que pessoas que estejam em piores situações nunca estejam abaixo do nível da dignidade. Essa é a grande lição que eu acho que a pandemia nos deve trazer: reforçar-nos enquanto sociedade, não num sentido esotérico, mas o facto de não ameaçar essa proteção social e comunitária, como temos visto em vários momentos da nossa história recente.

Num ano particularmente frágil para a cultura e o setor das artes, estamos perante uma estreia absoluta com lotação esgotada, em Guimarães. Surpreendeu-a esta vontade por parte do público em voltar a consumir cultura?

Não me surpreendeu minimamente, porque eu tenho ido ao teatro regularmente, desde que começou o desconfinamento e tomando todas as precauções de saúde – além de que os teatros são lugares extremamente seguros. Se eu já tinha certezas, a pandemia mostrou-me que eu sou completamente viciada em ver espetáculos e exposições e foram das coisas que mais senti falta. Mais uma vez, falo deste privilégio de quem está em casa e pode sentir falta de ir ao teatro, porque não tem de se preocupar com questões mais básicas. E não surpreendeu porque tenho a certeza de que as pessoas estavam completamente ávidas de continuar a consumir cultura, voltar ao teatro e, sobretudo, estar junto. Todos os espetáculos que eu tenho ido ver têm estado sempre esgotados ou quase – cumprindo as normas de lotação. Na verdade, acho que isto não prova nada, porque as taxas de ocupação das salas de espetáculos, em Portugal, são bastante elevadas e, portanto, não é necessário este tipo de exemplos para que haja mais investimento, pelo contrário, acho um pouco perigoso acharmos que por estar esgotado deve haver mais investimento, porque ele deveria existir como serviço público, seja num sítio que esteja esgotado ou num sítio ainda sem público. Aliás, acho que é mais importante reforçar esse investimento em salas que não se esgotam como prova de que é mesmo necessário para que a cultura chegue a todos, para que haja essa mediação e aproximação das pessoas às artes. A cultura é promoção de pensamento. Público que consome cultura é mais atento, mais exigente ao mundo e menos fácil de domesticar e isso é tão importante.

“Acho que há uma ameaça muito grande aos nossos direitos e liberdades, coletivas e individuais. Temos visto uma enorme ameaça, já institucionalizada na Assembleia da República, contra o poder sindical e acho que a pandemia acelerou um lado que é muito assustador: o medo.”

Neste momento, em agenda, a Sara integra duas peças com encenação de Tiago Rodrigues. Catarina e a beleza de matar fascistas e ainda Sopro. Como é que está a ser este regresso aos palcos e que importância têm para si estes dois projetos?

Estava muito saudosa de regressar ao teatro, como espectadora, mas também com muita vontade de poder trabalhar com os meus colegas, ouvi-los e pensar com eles. Está a ser emocionante, mesmo que estejamos todos de máscara e não nos abracemos, mas estamos juntos de novo. Fazer teatro, nestas condições, é mais emocionante ainda e é a prova de que o teatro sobrevive a tudo e nunca será ameaçado. As pessoas vão ameaçando de que vai acabar ou que o público por estar de máscara não expressa emoções e isso não é verdade. A pandemia não ameaça de forma alguma o teatro e a sua existência. Ele reinventa-se, sempre. É muito impactante poder fazer parte deste momento histórico em que se descobre como é possível fazer teatro nestas condições e tenho a certeza que, daqui a muitos anos, quando estudarem este período atual, vão também perceber como é que a arte deu resposta. Estes dois espetáculos, em particular, são muito bonitos. No caso do Sopro, integro o elenco desde janeiro e é um espetáculo que já estreou em 2017 e que eu assisti várias vezes como espectadora. Fala sobre o teatro, a sua memória e uma profissão que está em vias de extinção e, claramente, tem tudo a ver comigo e há muito tempo que já tinha vontade de trabalhar com o Tiago. Identifico-me, sobretudo, com o espetáculo Catarina, também, porque faço parte do elenco que está a fazer a criação do espetáculo, estamos todos a construí-lo juntos e isso inquieta-me. E, claro, identifico-me com a escrita do Tiago e com todas as questões que levanta o espetáculo.

Se voltássemos a falar daqui a um ano, o que é que a Sara gostaria que, até lá, mudasse – em Portugal e no mundo?

Gostava que tivesse mudado muita coisa, mas também sou consciente e sei que um ano é muito pouco, ainda que possa acontecer muita coisa. Acho que há uma ameaça muito grande aos nossos direitos e liberdades, coletivas e individuais. Temos visto uma enorme ameaça, já institucionalizada na Assembleia da República, contra o poder sindical e acho que a pandemia acelerou um lado que é muito assustador: o medo. Antes, era-nos incutido o medo do estrangeiro, que nos vinha tirar o trabalho, mas agora é o medo do outro (que está ao nosso lado) e há uma tentativa de nos colocar quase como “bufos”, a denunciar o vizinho que não usa máscara, o café que está aberto depois da hora… isso é tudo o que eu não quero para este país. Mais do que grandes conquistas, seja por mais liberdade, igualdade ou respeito, de uma forma muito realista, aquilo que eu desejaria seria que não tivéssemos perdido nenhuma das nossas liberdades, que é algo que eu penso que pode mesmo acontecer. A grande luta do próximo ano é tentar ir para a frente, mas, sobretudo, resistir a dar passos atrás.

Partilhar Artigo: