Revista Rua

Sara Barros Leitão: “A liberdade e a diversidade são muito importantes para a atividade artística”

Sara Barros Leitão está em entrevista na RUA. A diretora artística do Teatro Oficina fala-nos de anseios e vontades ao integrar este projeto ambicioso.
Fotografias ©Nuno Sampaio
Maria Inês Neto2 Agosto, 2022
Sara Barros Leitão: “A liberdade e a diversidade são muito importantes para a atividade artística”
Sara Barros Leitão está em entrevista na RUA. A diretora artística do Teatro Oficina fala-nos de anseios e vontades ao integrar este projeto ambicioso.

Atriz, encenadora e dramaturga, como se apresenta ao público, Sara Barros Leitão é uma artista multifacetada com uma série de papéis em mãos que (re)escrevem continuamente uma história de diversos capítulos, movida por vontades, princípios e anseios. Uma narrativa que, até ao final do ano, está a redigir no tempo presente a experiência de Sara enquanto diretora artística do Teatro Oficina, que tem como centralidade o Espaço Oficina (em Guimarães). Abriram-se as portas desta estrutura cultural, até ao momento pouco potencializada, e com os pilares necessários para edificar um lugar de construção, formação e fruição artística e social na cidade.

É no Espaço Oficina que Sara Barros Leitão passa a maioria dos seus dias a escrever, a apagar, a criar ou a pensar em conjunto – porque só assim faz sentido – com a premissa de semear raízes fortes para que o projeto possa escrever a sua própria história daqui para frente, enquanto lugar de pensamento livre, diversificado e inclusivo.

Foi no Espaço Oficina que conversamos sobre este projeto ambicioso, a tempo de anunciar a estreia do espetáculo Há ir e voltar, uma criação original que estará em cena durante três semanas, a partir do dia 22 de setembro.

©Nuno Sampaio

Estamos no Espaço Oficina: a casa do Teatro Oficina que é, até dezembro, a tua segunda casa. Como é que tens vivido esta fase da tua vida aqui? O que é que esta casa te deu? O que é que te contaram estas paredes?

Tem sido muito rápido e muito lento, ao mesmo tempo. Há muitas coisas que eu quero mudar e que demoram mais tempo do que aquilo que eu espero, mas acho que também não ajuda o facto de ser um projeto de um ano. É sempre muito difícil criar públicos e perceber para quem estamos a trabalhar. Sinto que quando começo a perceber esta máquina já me estou a ir embora. É ingrato, nesse sentido. Mas temos feito muita coisa nos últimos meses e há tantas outras que eu ainda não consegui.

Quando cheguei, em janeiro, encontrei um Espaço Oficina bastante paralelo e marginal à cidade, mas que não estava potenciado. Já não se faz aqui um espetáculo há muitos anos e é uma das questões que me interessa voltar a trazer a este espaço e que se prende com a sua reativação. Eu, que sempre fui trabalhadora independente e que percebo muito bem a necessidade de ter casa e espaço de trabalho, reconheço a importância de ter um espaço quente, onde o chão é bom, por isso ao pensar em dirigir uma companhia que tem um espaço que não está a ser potenciado é uma estupidez. Trato-o como se fosse meu.

Uma das coisas que fizemos foi criar uma “anti-biblioteca”, em parceria com a Biblioteca Raúl Brandão e temos recebido ou comprado vários livros para criar a nossa biblioteca de teatro, para que o Espaço Oficina possa ser o centro, onde as pessoas se sentem à vontade a estudar ou a ler. Com isto criamos o projeto das “anti-leituras”, em que numa noite lemos uma peça de teatro em voz alta e qualquer pessoa pode juntar-se a nós. Tem sido muito impressionante ver a quantidade de pessoas que têm vindo.

Continuamos com o projeto de formação, as OTO (Oficinas do Teatro Oficina), que acontecem sempre ao final do dia e temos várias turmas de várias faixas etárias – não no sentido de formar atores, mas melhores pessoas e público mais exigente. Fizemos ainda um “Assalto ao Arquivo”: quando cheguei, encontrei um aquivo do Teatro Oficina muito espalhado, não catalogado, e reunimos tudo. Este projeto de tratamento de arquivo é muito importante para que mais nada se perca. Quero deixar sementes e raízes sólidas para que o trabalho cresça.

Assumir a direção artística de um teatro é um novo papel para ti. Quando a programação arrancou no início do ano, salientava-se uma premissa: fazer teatro; falar sobre teatro; escrever sobre teatro; viver o teatro. Abrir as portas do Teatro Oficina e trazer a sociedade cá para dentro era o objetivo?

Sim e isso tem vindo a acontecer. Há uma informalidade no espaço que eu tenho vindo a perceber que é necessária. No teatro e nos equipamentos culturais há sempre muita institucionalidade e isso distancia as pessoas daquilo que acontece lá dentro e logo à partida acham que aquilo não é para elas sem experimentarem. Quero promover uma informalidade maior na relação das pessoas com a arte, porque tudo é mais simples. Quando não percebem o espetáculo o problema não é das pessoas: entender um espetáculo é um caminho. É preciso aprender a gostar e o gosto trabalha-se. É um balanço entre não dar tudo o que as pessoas querem e, ao mesmo tempo, não criar entraves, desde logo através da linguagem. Há uma série de coisas que me interessam quebrar neste espaço.

©Nuno Sampaio

Não esquecendo que o Espaço Oficina habita numa cidade que tem uma licenciatura em Teatro, poderá ser aqui uma porta para muitas oportunidades no mercado de trabalho?

Relativamente à Licenciatura, de todas as coisas que temos feito há apenas um aluno a frequentar o Teatro Oficina. Há uma ausência de participação nas atividades e isso tem de se perguntar à própria Licenciatura, que deverá refletir sobre isso. Tivemos ciclos sobre (Bertolt) Bretch, um ciclo dedicado ao 25 de abril em que questionamos o teatro político…e o nosso público não foram os alunos da Universidade do Minho. No entanto, trabalhamos para qualquer pessoa que queria aparecer e é muito interessante receber pessoa que vêm de Braga, Santo Tirso, do Porto e até de Sintra.

Torna-se num ponto de encontro interessante na cidade?

Sim, daquilo que é o microcosmo deste projeto e tenho consciência de que é muito humilde, nesse sentido. Não é este projeto que é transformador. Pode transformar alguma pessoa em algum momento, mas porque faz parte de outras coisas muito saudáveis que acontecem na cidade e fora dela. Se pensarmos, é raro vermos uma rua com apenas um cabeleireiro ou um restaurante – quando tem um há sempre mais dois/três – e acho que no teatro é mesmo coisa. O público quando vê quer ver mais e por isso se houver mais oferta e diversidade é sempre melhor.

A cultura é um caminho de conhecimento, mas nem todos têm sensibilidade/possibilidade para o percorrer ou simplesmente porque não estão com a atenção voltada para isso. Sendo a cultura tão importante na formação de uma sociedade mais participativa, mais exigente, mais igualitária, o que é que é necessário para que ela seja de e para todos?

Por um lado, é importante que todos os projetos culturais consigam ter a abertura de perceberem para que públicos é que estão a trabalhar, em que contextos e que caminhos querem seguir. Por isso é que os projetos não são todos iguais. Depois, é importante que possam cumprir a missão de um serviço público de cultura. Também sou da opinião de que às vezes damos demasiada importância àquilo que fazemos e achamos que o nosso trabalho “salva muitas vidas” e eu não concordo. É importante – para nós que o fazemos e para quem nos acompanha –, mas tantas outras coisas também o são. As pessoas são livres e eu confio sempre nas suas escolhas. Se há pessoas para quem o futebol seja transformador, eu não sou nada crítica de que o futebol seja menos importante do que a cultura. Cada pessoa deve fazer as suas escolhas e seguir aquilo que as faz realmente feliz.

Quem vê um espetáculo e percebe que se interessa mais por artes plásticas, por ler livros em casa ou até por beber uns copos com os amigos está a fazer tudo certo. Estamos cá para desafiar os nossos públicos e isso é muito importante.

O teatro pode contribuir, provocar e levantar questões, mas não deve ter como última função fazer pensar. A função do teatro é fazer teatro. A do espectador é fazer o que quiser com o teatro que vê.

O teatro parte da escrita e a escrita provém do nosso pensamento – que deve ser o mais livre e limpo possível, sem estar aprisionado por “pré-conceitos”. Rosa Montero (uma escritora espanhola) diz que “o pensamento independente é um lugar solitário e ventoso”. Enquanto criadora artística, o teu lugar de pensamento leva-te a compreender o mundo de uma forma mais rigorosa e inquietante?

A escrita é muito importante para mim, mas não me identifico no sentido de o teatro ser necessariamente a escrita. Acho que o teatro é ação, conflito e corpo, é o outro, o olhar ou uma reação – às vezes tem textos, outras não. Já existe antes da escrita. Para mim, é esse outro lugar do sensível que a escrita nem sempre permite, ao colocar-nos a construir frases que são racionais.

Relativamente ao pensamento solitário, sinto-me solitária em muitos momentos da minha vida, mas não gosto nada de me sentir assim. Gosto de pensar em conjunto, de conversar e de partilhar os meus pensamentos. E é por isso que acho que este não é um lugar para mim [enquanto diretora artística do Teatro Oficina]. Gostava que uma direção artística fosse mais partilhada, daí não me rever neste modelo isolado em que as equipas respondem a uma direção artística…sinto muito falta da discussão e do pensamento em conjunto. Sou muito limitada nas minhas ideias e é quando converso que todas essas ideias surgem.

Pensar um projeto deve ser coletivamente. Mesmo quando faço um monólogo, apesar de estar sozinha em cena, tenho uma equipa que partilhou a sala de ensaio comigo desde sempre. Gosto mesmo quando nos sentamos à mesa e as coisas começam a surgir. Revejo-me na solidão de uma direção artística, tentando combater para que seja um modelo mais dialogado.

A função do teatro é fazer teatro. A do espectador é fazer o que quiser com o teatro que vê.

Um outro projeto da tua vida é a Cassandra. É hoje uma estrutura coletiva, mas parte de um sonho teu. É a fusão de várias inquietações que te agitam?

Sem dúvida! A Cassandra é fruto de como é que eu posso fazer o meu projeto com as condições que eu sempre quis proporcionar aos outros e que eu gostava que me proporcionasse a mim.

Todos os meses, há um encontro para falar de livros feministas, levantando uma série de questões sociais pertinentes. Abre portas a novos lugares de pensamento e dá voz a quem habitualmente não a tem. Como é que tem sido esta experiência?

Tem sido muito especial e impressionante. Duvido muito das coisas que faço, acho sempre que nada está bem. (risos) Às vezes penso em acabar tudo porque acho que não tem sentido nenhum, mas tenho uma equipa que me vai dizendo que “até faz algum sentido” e que “devemos continuar”. Depois começo a ouvir o feedback das pessoas e do quanto as Heróides [clube de leitura] são importantes para elas e reconheço o seu valor.

Citando novamente Rosa Montero: “O feminino continua a ser o lado sombrio da lua”. Reconhecendo que estás mais atenta a inquietações relacionadas com minorias sociais – e aqui fazendo uma alusão à construção de o Monólogo de uma mulher chamada Maria com a sua patroa – porque é que ainda há lugares solitários e alguns pertencem às mulheres?

É claro que falta fazer ainda muito, mas também reconheço que já muita coisa mudou. Há uma série de “micro-violências” e “micro-desiguldades” que não ganham uma dimensão grande, mas que existem e são quotidianas. São como pequenos grãos de areia: um pequeno grão no deserto não é nada, mas quando está no nosso olho é capaz de incomodar muito. Apesar de ser militante, pessoal e civicamente, e isso se refletir no meu trabalho, acho que há uma dificuldade em reconhecer-me enquanto cidadã e enquanto profissional.

Acho que as pessoas me fazem mais sectária do que aquilo que eu sou. Nas Heróides não lemos só livros de mulheres, temos até muitos homens como convidados e nunca dizemos que seja um projeto de e para mulheres – aí é que está o equívoco do feminismo. Perante essas desigualdades, ainda há muito a fazer e, por isso, cá estamos para fazer a luta. (risos).

Gosto de pensar em conjunto, de conversar e de partilhar os meus pensamentos.

Numa perspetiva de futuro, o que é que ainda esperas desenvolver com o Teatro Oficina?

Aqui no Teatro vamos ter um espetáculo, Há ir e voltar, que estreia a 22 de setembro e vai estar em cena no Espaço Oficina durante três semanas. Depois vamos ter uma outra criação, no final do ano, feita em conjunto com o projeto de Educação e Mediação d’A Oficina, sendo um espetáculo para todas as idades.

Ainda vou fazer uma récita do Monólogo em novembro, mas, uma vez que o projeto do Teatro Oficina termina em dezembro, estou muito dedicada a ele para continuar a abrir esta porta com conferências, masterclasses, reestruturar coisas e deixar o melhor que posso aqui para que possa continuar a ser aquilo que eu sei que o Espaço é: um lugar de liberdade que deve ser preservado. A liberdade e a diversidade são muito importantes para a atividade artística.

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