Revista Rua

2019-10-25T17:48:24+01:00 Opinião

Se não morre, vira prosa

Crónica
Francisco Santos Godinho
25 Outubro, 2019
Se não morre, vira prosa

A procissão da luz é feita de noite, as trevas ficaram densas às três da tarde, umas centenas de velas em copinhos de plástico sacrossanto revestido a avé-marias, implantados nas mãos dos ateus, mas quem não é crente, ninguém não é crente, o sofrimento obriga a crer em algo mais que isto tudo, qualquer coisa mais gasosa do que o palpável, a senhora que passeia um andarilho perto de minha casa carregava uma velita na mão esquerda, mais veias que mão, a viuvez do marido, as trevas ficaram densas, a doença dos ossos, às três da tarde, a filha que ainda vive com ela puxava-lhe o lenço do pescoço para longe da chama e repetia ao ouvido o que o padre dizia, as trevas ficaram densas às três da tarde, um bando de miúdos vestidos de branco até aos pés, meia dúzia de escuteiros, o farmacêutico com uma pagela ao alto num poste, nossa senhora num altar amovível, diferente das nossas senhoras das mesas de cabeceira. Os rostos dos fiéis, simultaneamente ameaçadores e ameaçados, sozinhos no meio de tantos, uma esperançazita de noite de verão, um sopro fresco gelando os suores da testa, a protuberância impensável de nossa senhora, desfiando as contas do rosário do céu. O mesmo pobre que sorria às gaivotas, cego dos diabetes, sorria igualmente na mesma expressão de peixe sufocado, com uma boca a esbracejar qualquer coisa que teima em sair, acompanha a nossa senhora avenida abaixo como se lhe espiasse a silhueta sem realmente a ver, numa admiração digníssima, apercebendo-se da nitidez dos murmúrios imperceptíveis daquela gente toda, muito mais ciente da natureza humana, (as trevas ficaram densas às três da tarde) enxerga tão mais longe sem ver, como é que se explica isto, as primeiras chuvas de setembro anunciadas nas montras poeirentas, e eu num cantinho de uma mesa desejando que me chovesse na alma, voltando a ser o menino que a primeira tristeza apagou da infância.

Sobre o autor
Licenciado em Direito pela Faculdade de Direito da Universidade do Porto. Autor do livro Sentido dos dias e da página Francisco Santos Godinho. Escritor. Luto contra o tempo de caneta na mão.

Partilhar Artigo: