Revista Rua

2021-07-15T12:30:22+01:00 Em Destaque, Histórias

Sejkko: Regressar a casa

Sejkko é o nome artístico de Manuel Pita.
Redação1 Julho, 2021
Sejkko: Regressar a casa
Sejkko é o nome artístico de Manuel Pita.

Sejkko é o nome artístico de Manuel Pita. Nasceu no seio de uma família de emigrantes portugueses que se mudou para a Venezuela durante o boom do petróleo, na década de 70. Aos sete anos de idade já lia clássicos da literatura de realismo mágico e ficção contemporânea e, desde muito cedo, mostrou uma forte predisposição para desenho, pintura e escultura. Hoje utiliza a sua página de Instagram para revelar as criações que resultam da tentativa de trazer o lado fictício das coisas para o mundo real.

A casa, como habitação ou estado de conforto, surge na tua página, não apenas como representação estética, mas também com um sentido geográfico distorcido. Consegue aproximar-nos da interpretação das “suas casas”?

Muita dessa aproximação é possível agora “na distância”, uma vez que este projeto das casas foi concluído o ano passado. Adorava imaginar universos utópicos quando era miúdo. Era fácil para mim fazer isso. Uma influência, sem dúvida, foi o ter crescido na Venezuela. As minhas primeiras leituras já eram histórias escritas no género do realismo mágico. Este tipo de narrativas é parte essencial do espírito sul-americano e, para mim, era realmente fácil e natural levar essas histórias a representações visuais. E é talvez a partir desse realismo mágico que surge esta distorção geográfica. Não sei bem porquê, mas eu sinto-me em paz em espaços que combinam elementos muito suaves, frescos, com uma sensação de minimalismo natural e pré-histórico (como a natureza do círculo ártico) e elementos intensos do trópico. Isso não existe no mundo real, por isso fui à procura desses espaços no projeto das casas solitárias. Já vivi, no mundo real, em espaços similares a essa visão: uma vez, num restaurante, que era uma casinha de madeira muito colorida à beira do mar em Reykjavik (Islândia) e outra na fronteira entre a Savana e a Amazónia Venezuelana.

Existe também um lado mais emocional. Um exemplo é a fotografia daquela que era a loja do seu avô. Uma casa que já não existe, mas que perdura na memória de uma fotografia. A memória é algo que tenta alcançar no seu trabalho?

Não, a memória nunca foi um propósito do meu trabalho artístico. No caso da loja do meu avô acabou por ser, sim, uma narrativa mais pessoal. A partir da minha geração começou a ser muito normal vender a casa dos avós logo após a sua morte, ou neste caso, aquela loja antiga tão especial. Antigamente não era assim, havia outra forma de lidar com o que os avós deixavam quando partiam. Aquela transformação da loja teve um impacto muito grande em mim – ver como o resto da minha família normalizou esse processo. Senti a ausência de algum ritual de despedida, de luto. Acho que estamos a perder coisas que fazíamos no passado (ainda recente) que contribuíam muito para manter as nossas verdadeiras bases emocionais de família.  Mas voltando ao meu projeto, o meu foco sempre foi mais criar visões do futuro.

A composição simples e quase geométrica contrasta com a abstração, seja geográfica, da cor ou do ponto de vista, das suas fotos. Este resultado é um emaranhado de emoções que nos pesca entre dois mundos: o real e o fictício. Este é o sentido real que nos tenta transmitir quando entramos na sua página?

Sim, penso que sim. Algo que foi sempre absolutamente importante para mim foi tentar que o elemento fictício estivesse mais perto de um mundo real. Por regra geral, as minhas casas poderiam existir em algum lugar. Nunca procurei escapar para um mundo de fantasia similar àquele ao qual eu ia nos meus sonhos de infância. Penso que o propósito dessa proximidade entre o fictício e o real é motivar o espectador a pensar no seu papel no mundo que estamos a construir.

Há também muita ausência – um quase abandono -, mas temos sempre a sensação de que não nos sentimos isolados, como que nos obrigasses a entrar na sua realidade, e aí preenchêssemos o vazio escondido. Esta é uma forma de completar o que pensamos faltar?

Penso que hoje em dia, neste mundo estranho que todos habitamos juntos, olhar para a nossa essência cria, na maioria, essa sensação de ausência que referes na tua pergunta. As casas solitárias são um convite a ultrapassar o estranho que pode parecer, calar o ruído do mundo e ouvir o que está dentro. E, de facto, com o passar do tempo, a minha intenção ao editar as fotos era criar uma imagem que não fosse sobre o meu “eu” interior, mas sim sobre um “eu” interior mais universal, humano, que permitisse que qualquer pessoa pudesse entrar e se encontrar lá dentro.

 

Qual é a casa que, na sua memória emocional, é urgente fotografar. Porquê?

A casa tradicional portuguesa. Qualquer uma delas, a madeirense, a alentejana, a algarvia. Na casa tradicional portuguesa existem narrativas absolutamente cheias de magia que todos temos de cuidar, valorizar e celebrar.

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