Revista Rua

2019-02-27T17:33:30+00:00 Opinião

(Sem) VOX

Literatura
Cláudia Paiva Silva
Cláudia Paiva Silva
27 Fevereiro, 2019
(Sem) VOX

O termo “distopia”, embora não seja novo, só há pouco tempo tem sido amplamente utilizado. Na sua descrição de representar um estado imaginário onde se vive em condições de opressão extrema, geralmente associado a totalitarismo e controlo da sociedade, o livro 1984 de George Orwell é o mais conhecido exemplo. No entanto, e muito devido à ascensão dos partidos e ideais de direita/fascistas, ou de homens como Donald Trump ao poder, bem como da criação de movimentos como o #MeToo, as distopias deixaram o campo do imaginário ficcional (pese embora 1984 ter-se revelado como uma realidade gritante nesta segunda década do século XXI), e passaram a assumir uma espécie de visões futuristas, mais ou menos delirantes.

Seguindo o mesmo traço de O diário de uma Serva (Handmaid’s Tale), de Margaret Atwood, publicado pela primeira vez em 1983 e adaptado recentemente em série de televisão, no qual extremistas religiosos de direita controlam o poder norte-americano, tomando as mulheres como personagens inferiores numa sociedade teocrática, o livro VOX, de Christina Dalcher (2019), incorre em tornar-se uma desilusão. A premissa inicial do enredo conta que numa época histórica, não longe da nossa atual, o governo dos Estados Unidos da América (o mais fácil até agora de ser representado) sendo liderado também por um grupo radical religioso, impede as mulheres de falarem mais do que 100 palavras por dia, com pena de sofrerem choques elétricos por via de uma pulseira “de contagem”. Além do mais, estão igualmente proibidas de comunicarem não verbalmente, de lerem, escreverem, de terem qualquer papel ativo na sociedade, encarcerando-as nas suas casas e transformando-as em domésticas. Às crianças, meninas, é-lhes retirado o direito de irem à escola. Contudo, é exatamente a uma mulher, especialista em neurologia e em terapia da fala, a quem uma alta individualidade do governo irá recorrer para tentar ajudar um membro de família. E é precisamente nesse momento que ela, essa mulher, que não pode falar, irá tentar mudar o rumo das coisas, da sua vida e da sua filha, aproveitando a possibilidade que lhe foi “concedida”.

Acima de tudo, um alerta dos tempos modernos, quando se vê o mundo a perder memória. E não há nada de mais perigoso do que não nos lembrarmos daquilo que a História nos deveria ter ensinado.

Podia ser o suficiente para agarrar o leitor – e é. A história está bem construída, as ideias estão todas certas, os movimentos feministas modernos, mais corretos ou errados, certamente poderão fazer campanhas de sensibilização sobre o poder da voz das mulheres no mundo, mas é a forma como a história se desenrola a partir do momento em que há o volte-face que lhe tira o brilho. Poderá ser decepcional a quem leia não conseguir ir ao fundo das questões essenciais: quem é esse tal governo, porquê ter retirado o poder da palavra apenas às mulheres, fora a rapidez com que tudo se desenrola, como se a própria autora estivesse também com uma pulseira a contar o tempo até ter o livro pronto a tempo e horas de ser publicado. Ao mesmo tempo, interrogamos: será que essa rapidez supersónica, não poderá ser também uma forma de repensarmos a forma como aceitamos a informação que nos é apresentada por via de redes sociais? Tudo se quer rápido e de fácil digestão, pelo que temos visto o alastramento de notícias falsas (ou fake news) em escalada, sem sequer interrogarmos a sua veracidade, o que está por detrás dos títulos vendíveis.

Ainda assim, VOX não deixa de ser, ainda que ligeiramente, um murro no estômago que convém ler, uma distopia que, tal como já se veio a verificar, poderá até ser uma premonição a um futuro próximo. Acima de tudo, um alerta dos tempos modernos, quando se vê o mundo a perder memória. E não há nada de mais perigoso do que não nos lembrarmos daquilo que a História nos deveria ter ensinado.

Sobre a autora:
Geóloga (do Gás e Petróleo). Autora de textos no blog A Carroça da Clau e simpática utilizadora de IG: @claudiapaivasilva e @urban_trender. Aficionada nas heranças culturais de Portugal e em chocolate.

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