Revista Rua

2019-07-01T16:34:47+00:00 Cultura, Música

Sensible Soccers – O Lugar onde podemos “ser” quando quisermos

© Nuno Sampaio
Nuno Sampaio
Nuno Sampaio1 Julho, 2019
Sensible Soccers – O Lugar onde podemos “ser” quando quisermos

Sensible Soccers é já um nome que nos habituamos a ouvir e que está no nosso imaginário. Se não está deveria estar. A mais recente criação da banda barcelense, “Aurora”, é o culminar de pequenos fragmentos que se foram juntando ao longo de quase 10 anos e que formaram um todo Aristotélico. Juntos, Hugo Gomes, André Simão e Manuel Justo são maiores que o todo e o todo são os Sensible Soccers, aqui revelados numa espécie de sonho transversal à música.

Podemos regressar um pouco ao vosso passado – que parece recente, mas já lá vão cinco anos – e ao disco 8. Ainda com guitarra e com outra formação. Acham que este foi o trabalho que vos trouxe aqui? Este álbum é o mais representativo da vossa identidade?

 Simão – Isso até é uma coisa engraçada. Os primeiros discos (Ep’s) são em formato mais canção, apesar de tudo é algo mais organizado e o 8 é o disco onde, pela primeira vez, se fixam algumas regras.

Hugo – Acho que o 8 pode representar bem aquilo que nós somos na medida em que se concentra ali tudo pela primeira vez. A forma como distribuímos as ideias em disco, ou seja, o 8 apesar de ser um álbum, é composto por músicas cada uma da sua nação. A “Nikopol” não tem nada a ver com a “Sob Evariste Dibo”, a “Lima” tem também muito pouco a ver com a “Afg”. Acabamos por, nesse disco, transpor muito bem a nossa identidade e as nossas pretensões para a música.

Nota-se que o álbum funciona muito bem como um todo, mas que as músicas são muito diferentes umas das outras.

Hugo – Isso acaba por acontecer ao longo de toda a nossa discografia. Há ali algo que dá para perceber que é Sensible Soccers, mas as músicas são de vários géneros e de vários espectros musicais, as ideias são de muitas naturezas: umas mais melancólicas e outras mais alegres, umas mais calmas e outras mais tensas.

Manuel Justo – As coisas também funcionam muito com a ressaca do que fazemos para trás. Não sabemos o que fazer no início, depois vão surgindo algumas coisas e na reação a isso algumas conseguimos dar continuidade outras deixamos de parte.

O que mudou a partir daqui?

Hugo – Os instrumentos. O som do Villa Soledade para o 8 muda muito por causa dos instrumentos que compramos nessa altura. O 8 foi todo gravado com instrumentos emprestados. A saída do Emanuel e a entrada do Simão e todas essas mudanças que foram acontecendo nas nossas vidas.

Manuel Justo – E no mundo.

Traspõem muito da vossa vida pessoal para as músicas?

Manuel JustoDe uma forma abstrata acho que sim. Não conseguimos pôr nada da nossa vida concreta – o facto de não termos letras ajuda -, mas acho que passamos muito bem o nosso universo, enquanto individualidades e como coletivo, para as nossas músicas.

Simão – Em relação a isso de existir algo de nós nos discos e depois como obra – e acho que isso no passado também já existia -, os álbuns não concorrem muito para a ideia de uma figura harmoniosa final e acabada, é mais uma espécie de força centrífuga. Nós estamos mais preocupados que exista qualquer coisa que te puxa para algum lado, que te diz qualquer coisa. As músicas são assim e os disco também. As nossas vidas e aquilo que nós somos acho que passa muito para os discos. Não de uma forma muito definida, mas sob a forma de uma energia qualquer.

Villa Soledade é o álbum que se segue. O vosso som continua lá, mais sistemático, como se fosse um prolongamento do anterior, mas que conta uma história diferente. Sentimos quase como se fosse um álbum obrigatório existir para que o resto possa continuar. Sentem o mesmo?

Manuel Justo – Era impossível fazermos o Aurora depois do 8. É um respiro do 8, uma continuidade para um caminho diferente.  Uma espécie de disco de charneira na nossa discografia.

A verdade é que o Villa Soledade foi o disco mais simples para nós.

Hugo – O Villa Soledade é um disco muito do Filipe (guitarrista que abandonou a banda no final da tour do Villa Soledade). Um disco em que havia uma certa vontade de ter um som muito melhor do que tínhamos. Até aí gravávamos em condições raquíticas com material emprestado. No Villa houve uma certa vontade de complexificar um bocado as composições, testar novos sons. O Filipe queria, sobretudo, testar novas fintas. É um disco muito do Filipe e nós a acompanhá-lo naquela cavalgada.

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É aqui que perdem o Filipe Azevedo e com ele todo um mundo do som da sua guitarra. Foi difícil a adaptação da banda ao facto de terem menos um membro ou foi ainda mais difícil a adaptação à perda da guitarra?

Manuel JustoA guitarra era uma espécie de vocalista. Quando o Filipe foi embora tivemos que repensar qual iria ser a nossa voz. Nessa altura vieram-nos muitas coisas à cabeça, algumas delas estão a acontecer agora. Foi tudo complicado. Até ali estávamos relaxados e a pensar no próximo disco com esta formação. Depois disso tivemos que pensar em alternativas. Não queríamos outro guitarrista. Na altura surgiu logo a ideia de trabalhar o baixo de outra maneira, que fizesse um trabalho que evadisse o lugar da voz.

Com tantas mudanças, o que foi preciso criar para que a vossa identidade não se perdesse? Porque no vosso último trabalho Aurora tudo é igual e tudo é diferente.

Simão – A única fase que tivemos, não um bloqueio, mas receio de bloqueio, foi quando estávamos a definir as regras. Isto foi decidido num mês. Depois, quando começamos a trabalhar, não houve momentos de bloqueio. Foi sempre a fazer músicas e durante muito tempo sem sabermos se, de uma forma mais acabada, iria ou não ser Sensible Soccers. É diferente, mas o filão está lá. Com o tempo fomos começando a perceber que aquilo era Sensible Soccers. Uma parte do cérebro estava a pensar que o património estético está preservado.

Foi um processo ultra juvenil, no sentido em que trabalhamos como uma banda de putos de 18 anos, sempre a fazer porcaria, a meter pistas, a complicar e quando as coisas ameaçavam ficar simples, nós complicávamos mais e nós, sempre de uma forma entusiasmada, à procura do prejuízo.

Manuel Justo – Nós tínhamos um passado, uma identidade e partimos desse lugar estranho. Depois tudo aconteceu muito rápido. Foi um ano e meio que pareceu um mês e meio.

Hugo – Nesse aspeto o Aurora está muito mais perto do 8 que o Villa Soledade. Temos um conjunto de ideias numa fase caótica e tentamos transformar essas ideias num disco. No Villa Soledade pensamos muito num disco que fosse fácil de transpor para um palco. Isso no 8 foi muito complicado.

O Aurora é um sintoma de transformação?

Hugo – É o resultado de uma transformação e de todas estas que têm surgido na banda.

Simão – Há sintomas no Aurora de transformação. Há coisas que apenas nos apercebemos depois. Uma delas que temos vindo a falar, às vezes por piada, é o nosso grau de histrionismo com que andamos à procura das coisas que queremos dizer. Isso fez com que chegássemos ao fim com um disco de 10 músicas e, onde seria mais admissível Sensible Soccers navegarem calma e confortavelmente, – que é nas composições mais etéreas, suaves, –  nós nem nos lembrámos. Poderíamos perfeitamente ter feito mais duas músicas ou menos duas daquelas e ter feito alguma coisa planante – que o disco talvez até precisasse em alguns pontos -, mas não foi pensado dessa forma. Tudo isto resulta num disco que é especial nesse sentido. Tem sintomas de transformação porque é um disco que muito dificilmente volta a acontecer. Da mesma forma que dificilmente volta a acontecer um Villa Soledade porque é meio-vírgula. O Aurora, para nós, é o grau de correspondência entre o espírito com que o fizemos e o espírito do som que ele tem.

Hugo – É um disco compulsivo, labiríntico e complexo. Durante um ano e meio a nossa vida também foi assim.

Há uma mudança de paradigma a nível instrumental, mas a estrutura é a mesma. Contudo é um disco mais caseiro, mais português, mas talvez de aceitar como tal. Vocês conseguem explicar este fenómeno que parece apenas acontecer aqui?

Manuel Justo  Há logo uma explicação muito simples, os instrumentos: o uso de precursão, flauta, etc. Os instrumentos remetem logo para algo mais tradicional.

Hugo – Para aquele Portugal do Zeca Afonso e do Fausto.

O imaginário que trouxemos para este disco tem muita portugalidade. A história que contamos anda à volta de memórias inventadas dos verões da nossa juventude, de férias com os pais. No Villa Soledade havia a portugalidade das estradas nacionais.

Num futuro próximo a guitarra pode regressar?

Simão – Tudo pode acontecer.

Sentem falta?

Hugo – Neste disco não. Ao ouvir as músicas não sinto que falte ali a guitarra.

Simão – Existe um papel “guitarrístico” do baixo ou das cordas. As cordas têm particularidades em termos de som e de interpretação não são reprodutíveis noutros instrumentos. Desta vez foi assim, mas no futuro vale tudo.

Vocês ouvem a vossa música? Conseguem colocar-se do outro lado e sentir a música como ouvintes e não como os músicos que a fizeram?

Hugo – Eu tenho uma pen no carro que, entre muitas outras coisas, tem o disco. De vez em quando passa uma música. No outro dia apanhei a Luziamar e até mandei uma mensagem ao Simão a dizer que tinha ficado mesmo bem! (risos) Depois do álbum ter saído já o ouvi algumas vezes, nunca com um distanciamento total.

Simão – Estares em casa a fruir o teu disco nunca acontece.

Hugo – Se estiver a mostrá-lo a alguém posso ter sensações de distanciamento.

Simão – Isso é um truque. Estou a ouvir uma música que eu fiz, ou que nós fizemos, de repente ponho alguém ao meu lado e continuo a ouvi-la, começo logo a pôr-lhe muitos defeitos. É algo cómico e que acontece quase sempre. Não sei se são micro movimentos da pessoa que está ao lado – e que eu estou a ler ao mesmo tempo que estou a ouvir a música – ou se é o meu cérebro a perceber aquilo fora do ambiente de criação e dentro de um ambiente de fruição. É muito difícil conseguires distanciar-te ao ponto de usufruto.

Hugo – Durante a fase de mistura e de masterização estamos muito focados nos detalhes, no que pode estar mal: se há partes que estão muito altas, se existem outras partes da música que não ficaram tocadas como querias. Há milhentas questões. Sempre que ouves uma música há sempre outra questão e mais um comentário a fazer acerca dessa questão. Nunca ouves a música como um todo, estás sempre a ouvi-la fatiada e isso não é muito prazeroso. É prazeroso numa perspetiva técnica.

Simão – O sítio onde eu ouço música de uma forma crítica e imersiva é no carro, a conduzir. Às vezes estou a ouvir uma música e penso: como é que soa a “Farra Lenta” ao pé desta canção? Poucas vezes ouço o disco apenas para o ouvir.

Todos nós ouvimos música de maneiras diferente. Às vezes estou a ouvir músicas de outras bandas e imagino o que é que eu estaria a tocar nessa música. Imagino mesmo que estou a tocar com essa banda, coisas de puto (risos). Quando, porventura, ouço as nossas, imagino o contrário: como seria se outros estivessem a tocar aquilo. São truques, para quando ouvimos as nossas músicas, tentarmos ao máximo não pensarmos nas questões técnicas.

Hugo – Sou fá deste disco e gosto muito de o ouvir.

Onde vos podemos ver e ouvir nos próximos tempos?

Hugo – Em agosto vamos tocar no Neo Pop, no festival Bons Sons, antes ainda vamos estar no L’Agosto, em Guimarães. Também vamos ao festival Paredes de Coura e em Ponte de Lima.

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