Revista Rua

2019-10-04T17:17:08+00:00 Opinião

Ser o tempo que passa

Crónica
Francisco Santos Godinho
Francisco Santos Godinho
4 Outubro, 2019
Ser o tempo que passa

Li todas as suas cartas, até as que não escreveu e escrevi-as eu por si, ausentou-se o vocabulário que desejei durante meses a mais e, agora, relembrar não me ajuda em nada apesar de tudo isto não ser mais do que uma sucessão de lembranças encaixadas em filinha e nós o fio condutor entre as duas margens do rio – o passado e o agora. Então e agora? O que é que fazes? Escreves de novo. Depois de escrever de novo, voltas a escrever. Voltas a ligar as margens até que o rio se vá esbatendo no mar e nunca se esbaterá por completo, sobrará sempre um pouco que chegará depois. Estas coisas que ponho aqui em palavras, estas vozes, estas casas, estas pessoas, são essencialmente impressões mais nítidas. De que me adianta escrever aqui que não tenho medo da morte se me apavora a ideia de morrer? Apavora-me a ideia de não poder ligar os dois bocadinhos de margem que sobrarão nesse instante. Então e agora? Não paras. Não podes parar. Continuas. Escreves de novo. Repetes. Vais emendando as falhas entre as duas margens, diminuis a culpa dos dias. Vais andando pelo escuro mais escuro da noite sem que saibas onde vai assentar o próximo passo, enquanto se descobre a filinha de lembranças encaixadas. Vais encontrando os paraísos que a mais ninguém pertencem, paraísos abandonados ao luar e segues, vês uma duas três uma infinidade de vezes até que vejas de olhos fechados e segues. Então e agora? Escreves os paraísos. Emendas as rachadelas até que o rio quase esbatido no mar e duas pontinhas de margem por ligar. O que falta? Falta o que faltará sempre, faltará ligar o interruptor que fabrica sedimentos de vida à porta da eternidade.

Sobre o autor
Licenciado em Direito pela Faculdade de Direito da Universidade do Porto. Autor do livro Sentido dos dias e da página Francisco Santos Godinho. Escritor. Luto contra o tempo de caneta na mão.

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