Revista Rua

2020-03-20T19:00:30+00:00 Opinião

Será que é só um vírus?

Sociedade
João Rebelo Martins
João Rebelo Martins
20 Março, 2020
Será que é só um vírus?

Que mundo é este em que vivemos?!

Há dias, em Belfast, vi memoriais das vítimas das bombas dos anos 1960 e 1970. Coisas de há 50 ou 60 anos; parece que foi há muito. Mas nesses mesmos memoriais, cartazes, palavras de ordem comparavam o Sinn Féin e o IRA aos ISIS.

O ISIS foi fundado em 1999, criado em 2003 ou 2004 e o seu califado foi proclamado em 29 de Junho de 2014.

Ou seja, no Reino Unido – não estamos a falar de um país qualquer do terceiro mundo onde as pessoas não têm acesso à instrução -, há quem, nos dias de hoje, tenha ódio ao seu vizinho, por factos passados há 50 anos, fazendo comparações entre radicais… mas com uma dimensão completamente distinta.

No canal Odisseia começou a dar uma série sobre a Guerra da Coreia. Um documentário sobre uma guerra que pouca gente fala, mas onde, de 1950 a 1953 do século passado, numa pequena península, os Estados Unidos da América largaram mais bombas do que na Segunda Grande Guerra. Morreram mais de 36 mil militares americanos e cerca 7.700 desapareceram. Daí vem “a necessidade” de Pyongyang ter uma bomba atómica e misséis capazes de a levar por cima do Pacífico. Daí advém que sempre que um dos amados líderes espirra, o mundo democrático corra a comprar um pacote de lenços.

Estes dois exemplos demonstram bem a radicalização do nosso tempo, um dos piores factores da globalização e da era da comunicação, do mundo digital. Em vez de usarmos toda a nossa capacidade tecnológica e democrática para aproximar povos e culturas, cerramos fileiras.

É natural!

Vejam-se os jogos de futebol, por exemplo: o que importa é que o preto ganhe ao amarelo ou vice-versa. Não importa o mérito, os valores desportivos, não interessa a corrupção porque o fim justifica os meios. É assim desde as ligas mais avançadas até às camadas jovens, com os pais na bancada a canibalizarem o Olimpo. O que importa é ganhar, o que importa é que os nossos vençam; e para a vitória há toda uma série de desculpas, para a derrota é que não.

É a vida!

Como já tive oportunidade de escrever, os nossos meios de comunicação e a tecnologia ajudam a esse distanciamento cultural: a partir do momento que podemos escolher os conteúdos informativos, de entretenimento, culturais, económicos, etc., passamos a ser egoístas e a não ter a percepção de quem pensa diferente de nós. Quando se olha a sociedade, em vez de vermos pessoas iguais, mas com pensamento diferente, passa-se a ver um inimigo.

E é assim que entramos em 2020: com um vírus que provocou uma epidemia, vai provocar uma crise económica e uma crise política.

Como escrevia há dias o Rui Pelejão: “Depois de fechar as fronteiras qual será a próxima ilusão securitária dos portugueses? Isolar Ovar, pulverizar Felgueiras, encarcerar a ministra da saúde ou simplesmente acreditar que o mal vem dos outros e não está entre nós?
Vamos descobrir coisas muito piores do que o vírus. Os seus hospedeiros.”.

Recorro ao 1984, de Orwell, ou ao filme “V for Vendetta”, com Natalie Portman, John Hurt, Hugo Weaving e Stephen Fry: o controlo da população por parte dos governos começa depois de uma guerra ou de uma pandemia. Daí surgem líderes que usam mecanismos anti-democrátios, para resolver “o problema”. Ou os líderes moderados tomam as rédeas e apresentam planos sociais e económicos que não deixem ninguém para trás; um novo plano Marshall; ou teremos desemprego, fome e guerra.

Antes deste vírus a Europa já estava impregnada de radicais populistas. Se cada um deles é um pequeno fósforo, o COVID19 é um farrapo ensopado em gasolina, prestes a queimar a nossa civilização.

Nota: Este artigo não foi escrito segundo o novo acordo ortográfico.

Sobre o autor:
Consultor de marketing e comunicação, piloto de automóveis, aventureiro, rendido à vida. Pode encontrar-me no mundo, ou no rebelomartinsaventura.blogspot.com ou ainda em instagram.com/rebelomartins. Seja bem-vindo!

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