Revista Rua

2019-09-12T23:24:54+01:00 Opinião

Setembro

Viagens
João Rebelo Martins
12 Setembro, 2019
Setembro

Hoje fui à praia. Uma praiazinha minúscula no Estoril, com famílias, uma esplanada. A água estava quente, melhor do que em Julho e Agosto, e o sol, apesar do calor, era acolhedor.

Setembro é um mês de revolução da natureza, onde as cores se alteram, o tempo fica mais ameno e o corpo e a mente reagem melhor. Há quem diga que é o mês do recomeço. Eu digo que se cria um bom momento para se tirar uma polaroid.

Deitado no areal, a ler Le Carré, vieram-me imensas memórias de infância, adolescência e Setembro. Fugi do livro e senti a nostalgia a passar, enquanto a maré subia e comprimia as pessoas contra o muro, fazendo-se escutar as conversas aqui e ali.

Depois da azáfama do Algarve, com horas certas para ir para a praia, para evitar filas, com tudo organizado ao milímetro, a praia de Setembro era relaxada. Moledo tinha outro ritmo, eram os dias longe dos pais, ficar até o sol desaparecer no horizonte, à espera daquele sorriso que brilharia mais que a estrela maior num qualquer bar, pela noite dentro.

E o S.Paio e as Feiras Novas!

O Miguel Esteves Cardoso escreveu, há dias, que Setembro era o mês para se começar a comer ostras, quando elas estavam já realmente boas. Bem, escreveu muito mais do que isso, mas as ostras ficaram-me e eu, que adoro ostras, neste primeiro dia de praia de Setembro, fui comer ostras ao mercado de Cascais. Procurava ouriços, mas o mar não os colocou cá fora; por isso comi ostras. Não foi aquela explosão do mar na boca, mas estavam boas; e cracas e lapas. Lembrei-me do MEC; coincidências.

Anos antes, ainda com dependência física – monetária, uiii, nem vamos falar disso! -, Setembro era uma altura de descobertas: sair por uns dias, explorar, conhecer a terra onde se fala a mesma língua.

Lembro-me de mini-férias de três ou quatro dias no Minho, nas Beiras, no Douro. O Alentejo era mais visitado na Páscoa.

Olhar o mapa, contar os tostões na carteira e: pim pam pum, para onde vamos?

Ficou-me esse gosto pelas viagens e, de há anos a esta parte, procuro viajar o mais que consiga. De carro, moto, avião, barco, a pé. O que quer que seja. Andar por aí, falar com desconhecidos, observar paisagens, provar o que a terra dá.

Viajar é embrenhar-me na vida e cultura desconhecida, tentar compreendê-la e, sobretudo, respeitá-la. As pessoas e a natureza. E, claro, o prazer de conduzir, da máquina e do motor. Adorei fazer o Camiño, mas falta aquela coisa de petrolhead.

De Setembro ficou esse gosto, de infância até hoje e: pim pam pum, para onde vamos?

Há dias andei a fazer mini-viagens de três dias. Fui em Maio e Julho. Saberiam tão bem serem feitas em Setembro, com outra luz, com outra leveza.

Três dias, três Parques Nacionais.

Como nas refeições preparadas pelos grandes chefes, há sempre um prato principal. As entradas e a sobremesa, assim como os vinhos e os tira-sabores, são complementos que tornam as criações divinais porque o olfacto e o palato está absorvido e predisposto a ter uma experiência.

Com três dias de viagem pela frente, preparei dois pratos principais – Gerês e Montesinho -, aos quais juntei tudo o resto, digno de figurar num qualquer guia com Estrela Michelin, com o Alto Douro até à Foz a finalizar.

Montado na Africa Twin, Fafe foi o local onde disse adeus à autoestrada e iniciei o “Road to National Parks”.

Em Julho, com Royal Enfield escrito na lateral da moto – um aspecto retro que transporta o heritage da marca britânica, o depósito com uma pintura camuflada de cinza -, senti-me um T.E. Lawrence ou o Steve McQueen.

Olhei o mapa e fiz um triângulo com Sintra, Alcoutim e Niza nas pontas, e fiz-me à aventura.

Como vai ser o seu Setembro?

Nota: Este artigo não foi escrito segundo o novo acordo ortográfico.

Sobre o autor:
Consultor de marketing e comunicação, piloto de automóveis, aventureiro, rendido à vida. Pode encontrar-me no mundo, ou no rebelomartinsaventura.blogspot.com ou ainda em instagram.com/rebelomartins. Seja bem-vindo!

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