Revista Rua

2020-11-09T15:07:28+00:00 Opinião

Slow tourism como uma filosofia de vida

Turismo
Hugo Aluai Sampaio
Hugo Aluai Sampaio
9 Novembro, 2020
Slow tourism como uma filosofia de vida

Sendo o Turismo um sector em franco crescimento (tentem esquecer a pandemia durante as próximas linhas), o diálogo entre a procura e a oferta leva à inevitável busca da inovação. Contudo, a busca imoderada de lazer e férias desemboca em práticas massivas. As operadoras aéreas low cost trouxeram o acesso generalizado às viagens. Como resultado, a síndrome do overcrowding assola muitos destinos, onde se vive o fenómeno globalizante da “caça à selfie”: acontece junto à Fonte de Trevi ou do Stonehenge, junto à Muralha da China ou do templo de Angkor Wat, junto às pirâmides de Gizé ou em Machu Picchu. Mas, mais do que o fenómeno da globalização, o perigo desta sobrelotação traz, também, a descaracterização dos locais e a perda da identidade e da autenticidade.

Sem ter espaço para entrar naquilo que é, ou não, genuíno, cabe hoje falar sobre algo que tem reflexos de modos de vida filosóficos e que tem visto o número de adeptos aumentar no setor turístico. Mas para entendermos o que é o slow tourism temos que falar da própria noção de sustentabilidade. São conhecidas as preocupações sustentáveis que, muito por força da luta pela proteção ambiental, transbordaram para os mais variados setores, e o Turismo não foi exceção. Mais do que o consumo, o usufruto ou a experiência, qualquer prática (turística) deve primar por ser sustentável. Não caberá aqui, também, analisar o grau de permeabilidade do tentar “ser sustentável” em Turismo. Veja-se, por exemplo, o índice de poluição da indústria da aviação ou a mutação (ou mesmo perda) de autenticidade de certos locais, que colocam em causa a continuidade sociocultural de certas culturas, mesmo que a uma pequena escala.

O conceito tem as suas origens na Itália dos anos 80 do século XX, curiosamente, associado ao consumo gastronómico. A ideia era, precisamente, o de contrariar o tendente desaparecimento e perda de peso económico dos produtores locais, ao mesmo tempo que procurava incentivar a alimentação de qualidade. Mais, procurava-se o combate aos modos de vida agitados e desgastantes do progresso tecno-urbano, cujos efeitos nefastos na sociedade propagam as crises de stress.

Falar em slow tourism é considerar dois aspetos: tempo e velocidade. Começa, desde logo, pelo conceito de viajar de forma prolongada e a um ritmo lento para poder usufruir na plenitude de uma experiência cultural e/ou ambiental imersiva. Esta forma de estar, que muitos poderão associar erradamente a “carteiras gordas”, tem como principal retorno uma forma de viajar mais sustentável em questões ambientais, sociais, económicas e culturais. Ainda que esta prática seja mais comum entre os denominados “mochileiros”, que tão bem conhecemos através, por exemplo, dos Caminhos de Santiago, já começa a integrar outros públicos e diferentes modalidades (roadtrips, turismo aventura, turismo voluntário, etc.). A ideia de viajar mais lento, percorrendo menores distâncias de cada vez, permite uma aproximação às particularidades culturais e ambientais de cada local visitado, ao mesmo tempo que se torna menos impactante, também, em termos ecológicos. Da mesma forma, esta filosofia de vida e de usufruto dos destinos contraria os pacotes de férias e os programas de animação e eventos habitualmente pensados para as massas. A ideia é fomentar a ligação com as gentes, os costumes, as tradições e os hábitos, por forma a permitir uma experiência mais apurada da realidade cultural visitada e de um contacto mais profundo com as comunidades.

Neste sentido, praticar slow tourism implica procurar qualidade, não quantidade; implica usufruir das coisas à velocidade certa (sendo que a “velocidade certa” difere de pessoa para pessoa); não menos importante, implica a predisposição para alterar a visão que temos sobre o conceito de velocidade. A ideia é, precisamente, fugir da azáfama do quotidiano para libertar o corpo e a mente do stress diário dos horários, dos afazeres e dos compromissos.

É assumida a estreita relação entre a prática do slow tourism e a sustentabilidade nas suas mais variadas esferas. Apreciar as vistas em vez de correr para as principais atrações antes de apanhar o próximo voo; visitar atrações locais menos procuradas e contactar com realidades menos conhecidas; usufruir da gastronomia tradicional e não das cadeias de alimentação ocidentais; procurar alojamentos locais contrariando as grandes cadeias de hotelaria, potencia experiências mais autênticas. Além disso, os benefícios económico-sociais para o próprio destino aumentam com a promoção do consumo do que é típico, levando à permanência do dinheiro nos circuitos económicos locais.

Portugal, sob a máxima “vá para fora cá dentro”, é ótimo para a prática do slow tourism, basta para isso sermos mais abertos às tendências que beneficiam o setor…

Sobre o autor
Arqueólogo, professor universitário, investigador integrado do Lab2PT e colaborador do CiTUR.

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