Revista Rua

2018-05-03T11:00:17+00:00 Opinião

Sobre otimizar o namoro

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Sílvia Sousa
Sílvia Sousa
2 Fevereiro, 2018
Sobre otimizar o namoro

Desengane-se quem pensa que a Economia não tem nada a dizer sobre namorar. Paradoxalmente, esta ciência que assenta no pressuposto da racionalidade dos agentes económicos e, logo, dos indivíduos (pressuposto este que vem sendo questionado, é certo) oferece uma série de instrumentos teóricos para abordar tal matéria, envolta em sentimentos, emoções e afetos. Se o exercício da racionalização do amor pode parecer absurdo para alguns, outros procuraram compreender os incentivos, as restrições e o leque de escolhas que se colocam aquando das nossas decisões sobre namorar e antecipar os comportamentos que permitiriam otimizar o namoro. Naturalmente, não será indiferente o objetivo de cada um quando namora. Se todos nós, no fim do dia, o que queremos é ser felizes, o que nos proporciona felicidade poderá variar de indivíduo para indivíduo e mudar ao longo do tempo.

A relevância conceptual e teórica que está na base da abordagem, eventualmente mais popular, da otimização do namoro não é, de todo, de menosprezar. Na realidade, deu origem, em 2012, à atribuição do Nobel da Economia à dupla Roth e Shapley e ao seu contributo para o desenho dos mercados. Roth num contexto de doação de órgãos, desenvolve os mecanismos que permitem otimizar a correspondência entre o doador (oferta) e o recetor (procura), destacando a importância da informação (versus do preço), tendo por base o algoritmo matemático proposto por Shapley (e Gale), na década de 60. Este algoritmo, basicamente, propõe um mecanismo para emparelhar elementos ou indivíduos. Tratando-se de uma ideia aparentemente simples, num contexto de namoro ou casamento implicaria cada homem ou mulher escolher o melhor parceiro possível. Cada indivíduo receberia uma lista dos seus assumidos pretendentes e selecionaria, dessa lista, a sua primeira escolha. Os homens e mulheres sem parceiro, no final da primeira ronda, participariam numa segunda ronda. Este processo conduziria a casais estáveis, em que nenhum casal consideraria vantajoso trocar de parceiro. Contudo, não seria indiferente o processo ser iniciado pelos homens ou pelas mulheres – o grupo que iniciasse o processo tenderia a alcançar um melhor resultado. Ainda que se desconheçam casamentos que tenham resultado da aplicação do algoritmo, mais recentemente, este tem sido replicado em eventos de speed dating.

Roth terá, posteriormente, destacado a importância da informação contida na revelação das preferências dos indivíduos para o sucesso deste processo e, atualmente, as aplicações de encontros vêm potenciar a sua aplicabilidade na otimização dos pares produzidos, com o benefício adicional de ultrapassarem o embaraço da constatação da ausência de interesses comuns.

Será esta a grande riqueza da Economia – a capacidade de ajustar os seus contributos conceptuais e teóricos a uma diversidade infinita (por vezes improvável) de contextos. E como no amor, os resultados, por vezes, são imprevisíveis e inesperados, mas é exatamente isto que a faz evoluir.

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