Revista Rua

2020-10-21T16:59:35+00:00 Histórias

Solar das Bouças, quando o Vinho Verde se funde na arte

Localizada na freguesia de Amares, a cerca de dez quilómetros do centro da cidade de Braga, a quinta Solar das Bouças é um marco do Vinho Verde da região [Com vídeo]
Fotografia ©Nuno Sampaio
Andreia Filipa Ferreira
Andreia Filipa Ferreira20 Outubro, 2020
Solar das Bouças, quando o Vinho Verde se funde na arte
Localizada na freguesia de Amares, a cerca de dez quilómetros do centro da cidade de Braga, a quinta Solar das Bouças é um marco do Vinho Verde da região [Com vídeo]

Chegámos ao Solar das Bouças e já os cestos estavam lavados. A vindima estava terminada, mas o aroma a uva ainda estava bem presente na atmosfera que preenche os 34 hectares da quinta. Alvarinho, Loureiro, Arinto… É o sabor do Vinho Verde, relembrando um rico passado histórico que sobrevive nos recantos do Solar das Bouças, desde 1761. Com uma paisagem que faz perder o Rio Cávado de vista, esta quinta é hoje, em sinal de respeito pelo seu legado, um exemplo de produção de bom Vinho Verde, mas há muito que a oferta se alargou: falamos de atividades enoturísticas com possibilidade de alojamento, espaços para eventos como casamentos ou ações corporativas e até agenda artística! “Sempre achamos que este espaço, pela sua dimensão e características, poderia dar mais ao visitante do que os seus próprios vinhos. Numa primeira fase, abrimos o espaço ao enoturismo com oferta de alojamento e degustações. No entanto, mesmo assim, queríamos ter algo diferenciador. Decidimos então apostar na componente artística, dado o meu interesse pelas artes plásticas. Temos, então, uma galeria de arte permanente instalada no Solar”, explica-nos António Ressurreição, o atual proprietário do Solar das Bouças.

O Solar: a imponência da traça antiga… numa fusão com arte

Mantendo a qualidade dos seus vinhos como convite perfeito à visita, a quinta Solar das Bouças tem vindo a reinventar-se nos últimos dois anos, desde a chegada de António Ressurreição. Um dos principais destaques é o próprio Solar, uma casa senhorial majestosa que, apesar das obras de remodelação interior, manteve toda a traça e arquitetura original. Com os jardins a marcarem um cunho de personalidade, o Solar é, a par da oferta da Casa da Eira e da Casa de Montariol, o espaço ideal para dormir neste ambiente minhoto. Com suites aprimoradamente decoradas, com detalhes simples e clean, num design acolhedor e intimista, o Solar surpreende pela sua vista sobre as vinhas e pela sua aura artística. Sim, artística! A verdade é que, com a remodelação do Solar, as áreas comuns são uma autêntica galeria de arte. Para além das obras expostas no âmbito de mostras específicas, como a exposição de artes plásticas intitulada Da Leira para a Bouça que aconteceu de 7 de setembro a 11 de outubro, há peças que se mantêm disponíveis para ser contempladas pelos visitantes em qualquer altura do ano. Quais? Três nomes que dispensam apresentações: Paulo Neves, Fernando Pessoa e João Cutileiro.

António Ressurreição ©Nuno Sampaio

As esculturas do artista de Cucujães, Paulo Neves, marcam o exterior do Solar apresentando uma série de peças coloridas em forma de cabeça, com cerca de 1,50 metros, que contemplam a paisagem. As peças provêm da madeira do icónico Pinheiro Manso, que ficou destruído com as rajadas de vento da tempestade Elsa, em dezembro de 2019. Já Fernando Pessoa é homenageado numa das salas comum do interior do Solar. São objetos pessoais que fazem parte da coleção do próprio Solar das Bouças e que estão disponíveis para visualização dos visitantes. No entanto, o verdadeiro ex-libris está na capela também situada no interior do Solar: O Crucificado, considerado o segundo mais importante trabalho do escultor português João Cutileiro. A carismática obra é um ponto de destaque do portefólio artístico do Solar das Bouças, juntando ainda os oito mármores com motivos de peixe, com assinatura do próprio escultor, às memórias imprescindíveis de recolher numa visita à quinta. “João Cutileiro passou pelo Solar das Bouças nos finais da década de 80, a convite do anterior proprietário – a família Van Zeller – para renovar a capela da quinta. Segundo dizem os entendidos, está cá a segunda obra mais importante de Cutileiro, sendo que a primeira é o D. Sebastião em Lagos. A obra incorpora O Crucificado, o altar e a Via Sacra. Por outro lado, aquando as limpezas após a aquisição, descobrimos uma série de oito mármores com motivos de peixe que estão assinadas pelo próprio João Cutileiro, coisa rara”, assegura António Ressurreição.

Nomes como Mário Rocha e Ovidiu Batista mantêm-se também na lista de artistas com obras em destaque no Solar das Bouças.

Os vinhos e as experiências de degustação

No território minhoto, o Solar das Bouças e o Palácio da Brejoeira sempre se destacaram como uma referência a nível de produção de Vinhos Verdes. Ao longo do tempo, o Solar das Bouças tem-se mostrado com intenções de carimbar o seu posicionamento, alargando a sua oferta em termos de experiências. “Temos consciência que temos um vinho de altíssima qualidade. Temos tentado angariar maior conhecimento das nossas parcelas, percebendo as diferenças que existem entre elas. Sabemos hoje que as nossas vinhas estão ocupadas por cerca de 80% por casta Loureiro, cerca de 18% de Alvarinho e 2% de Arinto. A partir dessas castas, temos tentado fazer vinhos interessantes para alargar o nosso portefólio. Os vinhos verdes evoluíram muito, felizmente!”, conta-nos António Ressurreição.

Numa tentativa de conquistar mais amantes de Vinho Verde, o Solar das Bouças tem disponíveis várias oportunidades de degustação. Sob marcação ou numa visita inesperada, há sempre copos preparados para surpreender o visitante com os aromas da região.

No coração de Amares, o Solar das Bouças apresenta-se como um segredo à espera de ser revelado. Entre memórias centenárias e tranquilidade convidativa, a quinta é esplendor em todos os seus recantos, guardando em cada vinha o sabor de um povo. Com o Vinho Verde como companhia ideal enquanto o outono chega, despedimo-nos do Solar das Bouças com a vontade de um dia regressar… desta vez, antes de os cestos estarem lavados.

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