Revista Rua

2022-09-20T14:48:17+01:00 Opinião

Sombra de alguém a segurar uma máscara

Crónica
Francisco Santos Godinho
20 Setembro, 2022
Sombra de alguém a segurar uma máscara

Há certas coisas que vi que talvez emocionassem alguém, talvez fossem capazes de emocionar alguém, nem que fingissem um sorriso tímido que me ilustrasse o ridículo do que me povoa os fios do que sinto ou imagino sentir, tudo no tempo da memória, não no tempo da descoberta, emoções que chegam a mim não através de mim mas por reflexos daquilo que me parece que outros sentiram, coisas que eu não poderia saber por ser demasiado novo ou talvez apenas as pudesse saber por ser demasiado novo e talvez ainda só não lhes soubesse dar um nome, que nome dar a uma lágrima a teimar num ângulo de olho reflectida num vidro prestes a embaciar enquanto a cidade lá fora permanece indiferente a tudo isto, da forma que o meu pai permanecia indiferente ou talvez nem sequer existisse, apenas fosse uma sombra que aspirava um cigarro e saía devagar para que todos notassem que se havia ausentado, como no silêncio qualquer outro silêncio se demonstra demasiado para que se ignore. A improvável realidade de tudo, talvez isso. Há certas coisas para as quais levamos anos para aprender a olhar – e é só isso, prometo-vos que é só isso.

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Nota: Este artigo não foi escrito segundo o novo acordo ortográfico.

Sobre o autor

Licenciado em Direito pela Faculdade de Direito da Universidade do Porto. Autor do livro Sentido dos dias e da página Francisco Santos Godinho. Escritor. Luto contra o tempo de caneta na mão.

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