Revista Rua

2019-11-19T23:09:43+00:00 Cultura, Teatro

Sombras em viagem, no Purgatório da Divina Comédia de Dante Alighieri

"Purgatório A Divina Comédia", a nova adaptação do Teatro O Bando, está na sala Garrett do Teatro Nacional Dona Maria II até 24 novembro.
©Rita Santana e Miguel Mares
Cláudia Paiva Silva
Cláudia Paiva Silva19 Novembro, 2019
Sombras em viagem, no Purgatório da Divina Comédia de Dante Alighieri
"Purgatório A Divina Comédia", a nova adaptação do Teatro O Bando, está na sala Garrett do Teatro Nacional Dona Maria II até 24 novembro.

A primeira reação é de assombro. Um arrepio incrível que nos percorre a espinha à medida que vamos escutando o maravilhoso Coro Setúbal Voz na sua participação triunfal e essencial na peça de Dante, aparecendo no início quase como mortos-vivos, num crescendo de música que enche a sala. Depois, a comparação feita nesta nova adaptação pelo Teatro O Bando aos dias de hoje, à nossa realidade, à nossa História moderna. E por fim, nós, humanos espectadores e atores, sendo as sombras que caminham ordeiramente, qual rebanho, atrás de um deus, de dinheiro, de aceitação, de rendição e de perdão, numa rota com destino certo ao Paraíso. Ou talvez a um destino que nos faça acordar do marasmo quotidiano, da mediocridade. Dante é aqui um de nós, uma sombra que ao princípio não consegue ver e não tem voz, uma sombra que apenas segue a ideia de uma Beatriz que não se encontra no mesmo plano físico em que ele se encontra, um Dante que tem espasmos, que não se consegue mover, e que aos poucos começa a ser guiado por um “mestre”, Vergílio, pessoa/sombra mais sensata que o vai “educando” e “curando” da cegueira, e também por Matilde, a sombra sarcástica e irónica que o irá chamar à realidade dos factos, ao que é óbvio, embora também se venha a revelar uma serva da Morte e da Esperança.

©Rita Santana e Miguel Mares

O que resulta? A sensação de andarmos agora, aqui e no Presente, no real Purgatório, com um Passado já passado, para um Futuro a que apenas podemos mesmo encarar com o olhar de Esperança, pondo fim ao que nos prendia, ao que nos tornava zombies. Mesmo que para isso tenhamos de perder a questão do Eu e mesmo que para isso tenhamos de ser Ninguém, tal como Dante diz no fim.

A marcar o passo desta caminhada, que é na verdade uma reflexão interna, existe a presença maravilhosa de Fernando Luís, Rita Brito, Sara Belo e Nélson Monforte, num espetacular exercício não apenas de interpretação textual, mas sim física e vocal, dando ainda maior ênfase à importância que é a dificuldade da travessia feita por Dante durante os três dias e três noites em que dura.

Depois de em 2017 terem apresentado O Inferno, o Teatro O Bando inicia agora a “subida” até ao Paraíso, com apresentação prevista para 2021. Por agora ficarão na Sala Garrett do Teatro Nacional Dona Maria II até 24 novembro.

©Rita Santana e Miguel Mares

Ficha Técnica:

Criação Teatro O Bando
Parceria Coro Setúbal Voz

Encenação e dramatografia João Brites

Texto Dante Alighieri (tradução de Sophia de Mello Breyner Andresen)

Com Fernando Luís, Nélson Monforte, Rita Brito, Sara Belo e 40 coralistas do Coro Setúbal Voz

Dramaturgia e dramatogenia Miguel Jesus

Dramatofonia, música e direção musical Jorge Salgueiro

Coralidade Juliana Pinho

Cenografia Rui Francisco

Figurinos e adereços Clara Bento

Desenho de luz Nicolas Manfredini

Desenho de som Miguel Lima

Contra-regra Matilde Santos, Isabel Santos

Assistência à encenação e cenografia Dora Sales

Produção executiva Filipa Ribeiro

Coprodução TNDM II, Coro Setúbal Voz, Fórum Municipal Luísa Todi / Câmara Municipal De Setúbal

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