Revista Rua

2019-05-28T20:58:45+00:00 Opinião

“Sometimes a person needs a story more than food to stay alive”

Sociedade
João Rebelo Martins
João Rebelo Martins
28 Maio, 2019
“Sometimes a person needs a story more than food to stay alive”
“Sometimes a person needs a story more than food to stay alive”, escreveu Barry Lopez.

Quando viajo, quando compito, no trabalho, no Rotary Club e nas demais associações que pertenço, o que mais gosto de fazer é conhecer pessoas: ouvir, falar, contar piadas, ganhar confiança, manter a chama de uma relação que ultrapassa o estritamente necessário. Ver para além das aparências.

São meus amigos? Alguns; poucos. A maior parte são rostos que passamos a reconhecer, que ficam a fazer parte da nossa vida.

Um dia, ao entrevistar um político que tinha sido deputado na Assembleia da República e Presidente de Câmara, – que tinha o seu poder bem vincado! –  dou por mim a escutar a relação com a mulher, desde que se conheceram às dificuldades no relacionamento, a sua doença, os conselhos que o pai lhe deu, o afastar e o aproximar do amor que tinha por ela, os filhos que não existiam. Senti-me um padre no confessionário.

O homem deve ter olhado para os meus olhos, ainda jovens, e viu alguém, um miúdo, fora do seu ciclo a quem poderia contar o que não conseguia dizer aos amigos. Se não fosse isso, tudo o resto que me disse eram banalidades.

É o relacionamento humano que torna tudo mais especial, que é capaz de deixar saudades do que se viveu ou, melhor ainda, do que ainda está para vir.

Numa outra vez, a caminho do Algarve, sozinho, parei num restaurante recentemente coroado com uma estrela Michelin. Uma experiência única de degustação, uma simbiose de escolhas do chef com o melhor que a gastronomia alentejana poderá oferecer e um toque de sofisticação capaz de atrair o júri do famoso concurso e, com isso, milhares de turistas em busca do prazer da gula.

O espaço é lindo, maravilhosamente decorado e a comida, certamente, estava óptima. Se não fosse um episódio caricato com o vinho, já não me lembrava sequer do que tinha bebido.

Estava tudo milimetricamente pensado, mas faltava companhia, faltava o calor de anos de contacto com o dono e os empregados, faltava alguém com quem partilhar a experiência que, espera-se, seja única. E hoje já não consigo recordar o que senti naquele momento. Tal qual Christian Bale no American Psycho, mas sem a parte das mortes!

O Sr. Alberto, no D.Gomado, vem-me receber à porta e já sabe o que eu quero; o Sr. Jacinto, sempre que vou de visita ao Algarve, vem sentar-se à mesa e perguntar como está a família; o Licínio, no Tarântula; O Sr. Artur, lá para a Aboboreira; e tantos outros sítios onde os sorrisos e a simpatia das pessoas vale tanto como a comida!

É o relacionamento humano que torna tudo mais especial, que é capaz de deixar saudades do que se viveu ou, melhor ainda, do que ainda está para vir.

Por vezes uma pessoa necessita mais de uma história do que comida para se manter vivo. Concordo plenamente com a afirmação do escritor e ensaísta norte-americano: esta é a base do humanismo, das relações diárias de quem se preocupa com o seu semelhante. Colocamos estórias de uma história na mente dos outros para que eles se possam recordar de nós. Por isso, com os dois ouvidos, dois olhos e a boca que possuímos, devemos escutar, ler e, depois, transmitir. A palavra escrita e a palavra dita. Para que o nosso amigo seja sempre recordado.

Nota: Este artigo não foi escrito segundo o novo acordo ortográfico.

Sobre o autor:
Consultor de marketing e comunicação, piloto de automóveis, aventureiro, rendido à vida. Pode encontrar-me no mundo, ou no rebelomartinsaventura.blogspot.com ou ainda em instagram.com/rebelomartins. Seja bem-vindo!

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