Revista Rua

2019-04-18T12:16:42+00:00 Opinião

Somos uns fraquinhos

Humor
João Lobo Monteiro
João Lobo Monteiro
18 Abril, 2019
Somos uns fraquinhos

É a primeira vez que começo um texto destes num tom sério, mas vou tentar que isto tenha piada em alguns momentos, como tento todos os meses, o que acaba por fazer sentido, porque isto é suposto ser um texto de humor, mas por outro lado não faz tanto sentido, porque os tiros costumam sair-me pela culatra e é surpreendente que eu consiga ter piada. E é mesmo sobre isso que vos venho falar, sobre tiros que não saem pela culatra, sobre mocas de pregos, catanadas, chapadas, ameaças físicas e verbais: violência, no fundo. Devia ter escrito isto para alturas do Dia da Mulher? Não, porque isto é importante todo o ano – ou é só uma desculpa que eu arranjei para não dizer que não me lembrei deste tema anteriormente.

Não deixa de ser útil que, de repente, se tenha gerado uma onda de atenção e comoção sobre o número de mulheres que morrem por causa da violência doméstica e alguma violência fora de casa, também. Infelizmente, como todas as modas, em algum momento isto vai passar. Caramba, já está calor, não tarda vêm aí os incêndios e os telejornais deixam de contar quantas senhoras foram desta para uma certamente melhor.

Não é de hoje o ditado, popular entre os machos, de que se deve bater na mulher, porque se a gente não sabe por que é que bate, elas sabem por que é que apanham. Portanto, é capaz que a violência doméstica já exista há uns anitos. Tal como o bullying, que sempre existiu, mas agora é que tem nome estrangeiro, então é importante olhar para o que fazem com as criancinhas no recreio da escola. E é importante olhar para o que fazem com as criancinhas na igreja, e por aí adiante.

Não mandas nada, amigo! Ela tem mais força e poder do que tu, em muitas situações, mas como não consegues raciocinar assim muito bem, ainda mais com álcool e ciúme no bucho, não te apercebes disso. Faz um favor à sociedade: dá socos na parede, vai desabafar para as redes sociais (mais um ou menos um não faz diferença) e, no caso extremo de teres de sacrificar alguém, sacrifica um mosquito, sei lá, um bicho assim mais estúpido do que tu.

Eu tenho a felicidade de nunca ter convivido de perto com a violência doméstica física e tenho a certeza de que não será por minha iniciativa que vou conviver, porque eu nem em halteres de 5kg consigo pegar, no ginásio, quanto mais espetar um soco em alguém – brincadeira, não é só por isso, é porque sou um animal racional, bastante respeitador, até. Na maioria dos casos, é desvantajoso ser assim panhonhas, mas pelo menos nisto estou seguro de que estou correto.

A primeira crónica que escrevi na RUA já fez dois anos (mais uma vez, é surpreendente como continuo aqui) e era sobre como cresci sempre rodeado de mulheres. Não só eram mulheres, como eram e são das melhores mulheres – o que é um excelente trava-línguas, tentem lá. O ser humano feminino é realmente maravilhoso, não só no sentido javardo, porque realmente há belos espécimes, mas porque efetivamente são pessoas que normalmente levam com muita injustiça e têm poderes incríveis, nomeadamente ao nível da sedução e noutros níveis mais relevantes. Lixam-nos muito a cabeça? Lixam, ó se lixam. Mas caramba, eu também ficava alterado se uma parte de mim se esvaísse em sangue uns dias por mês, se eu trabalhasse tanto ou mais que um homem e ganhasse bem menos do que ele, se depois tivesse de ir para casa fazer o comer e cuidar de uma ou mais crianças que, durante nove meses, fizeram do meu ventre um balão, apesar de depois se tornarem em seres maravilhosos. Entre outras coisas, que não cabe tudo aqui. Embora nem tudo seja desculpa para nos lixarem tanto a cabeça, admito.

E depois de tudo isto, algumas ainda são forçadas a levar com uns filhos da mãe (mãe essa que é mulher, atenção) que se acham mais poderosos do que elas porque são mais fortes fisicamente e porque a moral e os bons costumes dizem que eles são quem manda, então bota também pressão psicológica para cima dela. Não mandas nada, amigo! Ela tem mais força e poder do que tu, em muitas situações, mas como não consegues raciocinar assim muito bem, ainda mais com álcool e ciúme no bucho, não te apercebes disso. Faz um favor à sociedade: dá socos na parede, vai desabafar para as redes sociais (mais um ou menos um não faz diferença) e, no caso extremo de teres de sacrificar alguém, sacrifica um mosquito, sei lá, um bicho assim mais estúpido do que tu.

Finalizando, e apesar de este texto ser sobre violência doméstica, que é maioritariamente exercida pelo homem sobre a mulher, também há o reverso da medalha. Por exemplo, as mães dos concorrentes do Quem Quer Casar com o Meu Filho. Portanto, muitos de nós são, como diz o título, uns fraquinhos, mas algum mulherio também precisa de fazer uma reunião de condomínio e rever os seus conceitos.

Sobre o autor:
Tenho dois apelidos como os pivôs de telejornal, mas sou o comunicador menos comunicativo que há. Bom moço, sobretudo.

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