Revista Rua

2019-07-31T15:37:21+00:00 Histórias

SPEAK, quebrando as barreiras da inclusão social

Hugo Aguiar é o CEO do projeto SPEAK, que pretende ligar os migrantes à comunidade através da criação de redes de partilha de conhecimentos linguísticos e culturais. O projeto ficou em 3º lugar no concurso internacional The Chivas Venture.
Hugo Menino Aguiar, CEO do SPEAK
Andreia Filipa Ferreira
Andreia Filipa Ferreira31 Julho, 2019
SPEAK, quebrando as barreiras da inclusão social
Hugo Aguiar é o CEO do projeto SPEAK, que pretende ligar os migrantes à comunidade através da criação de redes de partilha de conhecimentos linguísticos e culturais. O projeto ficou em 3º lugar no concurso internacional The Chivas Venture.

Hugo Menino Aguiar é co-fundador e CEO do SPEAK, um projeto português que visa quebrar as barreiras culturais numa tentativa de reduzir a marginalização de migrantes. De que forma? Através da criação de redes informais de partilha linguística e cultural. A startup portuguesa já arrecadou um fundo de 110 mil dólares ao conquistar o terceiro lugar na final global do The Chivas Venture, um concurso internacional que todos os anos oferece um milhão de dólares a empreendedores sociais que desenvolvam projetos com impacto positivo no mundo. A RUA foi conhecer melhor o SPEAK numa conversa com Hugo Menino Aguiar, que nos explicou de que forma todos podemos estar envolvidos nesta ideia de partilha de conhecimentos e culturas.

Equipa SPEAK

“O SPEAK liga migrantes, refugiados e pessoas locais através de um intercâmbio de línguas e culturas. Pessoas de diferentes origens inscrevem-se para aprender e, se quiserem, para ensinar uma língua”

Em primeiro lugar, gostaríamos de conhecer melhor a ideia do projeto SPEAK. A principal missão do projeto é quebrar as barreiras culturais e linguísticas, numa tentativa de reduzir a marginalização de migrantes, correto? Explique-nos melhor o conceito do SPEAK.

O SPEAK foca-se em combater a exclusāo social. Infelizmente, é um problema facilmente negligenciado, mas com consequências muito reais, como depressāo, xenofobia, criminalidade e desemprego. As raízes da exclusāo social sāo muitas vezes ignorância, estigmas ou a dificuldade de integração devido a barreiras como a língua ou a falta de oportunidades de encontro social. O SPEAK junta migrantes, refugiados e locais num contexto informal, de igual para igual, e ajuda a aprender línguas num ambiente divertido e que promove a partilha de culturas. Assim, quebra-se a barreira da língua ao mesmo tempo que a probabilidade de as pessoas criarem laços aumenta, o que invariavelmente fomenta a entreajuda e facilita a integração na comunidade.

Como é que tudo começou? A temática da migração mostrou-se de grande importância para o Hugo?

A minha bisavó paterna foi forçada a abandonar a sua aldeia por razões religiosas e o meu avô materno emigrou por razões económicas. O facto de ser descendente de famílias migrantes torna-me especialmente suscetível ao tema das migrações. Para além disso, já vivi no estrangeiro e experienciei em primeira mão a dificuldade de integração numa nova cidade, nāo só devido a barreiras linguísticas como também devido à escassez de ocasiões que convidem ao convívio com residentes locais.

Estar sensibilizado para o tema deu-me uma motivação extra para contribuir para a integração de outros, principalmente daqueles que atravessam fronteiras por razões complicadas e contextos difíceis, mas, na verdade, todos podemos beneficiar com diversidade cultural nas nossas comunidades.

Como é que o SPEAK funciona? Pode explicar-nos, em traços gerais, os mecanismos de funcionamento?

O SPEAK liga migrantes, refugiados e pessoas locais através de um intercâmbio de línguas e culturas. Pessoas de diferentes origens inscrevem-se para aprender e, se quiserem, para ensinar uma língua. O SPEAK liga estas pessoas, os participantes que querem aprender e os buddies dispostos a ensinar, e fornece as ferramentas necessárias, como um espaço e os materiais necessários à aprendizagem. Cada curso tem um preço de 29€ e, por norma, uma duração de 12 semanas, com uma aula de 90 minutos por semana. Os participantes do SPEAK têm ainda acesso gratuito aos eventos.

Como podemos estar envolvidos, ou melhor, tornarmo-nos um buddy?

Através do nosso website www.speak.social é fácil fazer uma inscrição, tanto para aprender uma língua nova como para ser buddy, e ajudar outros a aprender. Existe também a oportunidade de serem um SPEAK ambassador, cujo propósito é dinamizar a comunidade. Por último, ainda é possível levar o SPEAK para a vossa cidade através do programa “Leva o SPEAK para a tua cidade”.

Que tipo de aprendizagem o SPEAK promove?

Acreditamos que a melhor forma de aprender uma língua é a falar, desde o nível básico ao conversacional, de uma forma informal e divertida. O primeiro nível é quase um kit de sobrevivência na língua que se está a aprender e ferramentas para aprender para lá do SPEAK. Já o segundo nível é focado em conversação. A aprendizagem é feita através de jogos e dinâmicas porque aprender a língua é um meio e não um fim em si mesmo. A metodologia está feita para progredir na criação de relação com o outro. Adicionalmente, os participantes é que são os agentes de transformação social. As pessoas não sentem estar a ser ajudadas porque são elas que ensinam e aprendem umas com as outras, são elas que se ajudam quando mais precisam. A equipa do SPEAK é invisível.

“Segundo a UNHCR, há neste momento quase 71 milhões de pessoas forçadas a deixar as suas casas e este número continua a crescer”

Um dos destaques importantes do SPEAK é a possibilidade de atribuição de bolsas para participar no programa. Pode explicar-nos como isto funciona? A principal missão é não deixar ninguém de parte por incapacidades financeiras?

O SPEAK tem uma regra de ouro em que ninguém que precise do programa fica de fora. Também qualquer pessoa que esteja a ajudar outros a aprender uma língua e conhecer uma cultura tem acesso a experiências de aprendizagem de forma gratuita.

O SPEAK foi consagrado com o terceiro lugar no pitch final do Chivas Venture, em Amesterdão. Foi a primeira vez que uma startup portuguesa esteve na final internacional da competição. Como vê este reconhecimento? É um sinal da potencialidade do SPEAK?

É muito gratificante ver o nosso trabalho reconhecido, mas, para além disso, esta conquista vai ajudar o SPEAK a crescer, nāo só devido ao financiamento obtido – o aumento da nossa visibilidade abre portas a potenciais parcerias. Conseguimos também fortalecer a nossa rede de contactos e temos hoje acesso a organizações e pessoas especialistas em áreas que são relevantes para escalar impacto do SPEAK e ajudar mais.

Hugo Aguiar na sua apresentação no The Chivas Venture

“É importante mobilizar jovens para que sejam agentes desencadeadores de mudança”

O SPEAK arrecadou na competição 110.000 dólares. Pode contar-nos de que maneira esse fundo vai ser aplicado? Quais são os objetivos?

Com o prémio vamos criar um fundo que através de capacitação e bolsas nos permite apoiar pessoas refugiadas e migrantes a implementar o SPEAK nas suas cidades, de forma a chegar a mais pessoas e impactar mais vidas mais rapidamente e, ao mesmo tempo, permitir que estas pessoas criem o seu próprio emprego.

Quais são os seus principais anseios futuros para o SPEAK?

O nosso objetivo é estar presente em todas as cidades que necessitem de soluções como o SPEAK, baseadas na comunidade e que resolvam o problema da exclusão social.

Considera que o desenvolvimento de projetos que promovam os valores culturais a migrantes recém-chegados são um fator de inegável importância? Principalmente nestes anos tão marcados pela crise migratória/de refugiados?

Segundo a UNHCR, há neste momento quase 71 milhões de pessoas forçadas a deixar as suas casas e este número continua a crescer. Sem sombra de dúvida que promover a diversidade é de inegável importância, não só num ponto de vista social e humanitário como também económico. Estas pessoas nāo só estāo a fugir de um problema como sāo vistas como um quando chegam às nossas fronteiras. Nós acreditamos que podem ser não um problema, mas uma solução!

Como vê esta fase global marcada pelo desenvolvimento de projetos que potenciem a resolução de problemas que afetem o nosso mundo? Falamos claro da questão da migração, mas também de outras questões, como as alterações climáticas. Considera que os jovens empreendedores da atualidade estão cientes da sua missão como agentes de mudança?

Sim, estamos mais e melhor informados. É importante mobilizar jovens para que sejam agentes desencadeadores de mudança. Acredito que existe nos jovens uma verdadeira motivação e capacidade para fazer uma diferença real na sociedade.

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