Revista Rua

2019-12-06T19:09:22+00:00 Opinião

Spoiler Alert II

Cinema
João Rebelo Martins
João Rebelo Martins
6 Dezembro, 2019
Spoiler Alert II

Na minha crónica de Agosto, em que escrevi sobre Once Upon a Time in Hollywood, de Tarantino, terminei o texto a dizer que no Ford vs Ferrari, quem ganha é a Ford.

Na altura ainda não se sabia qual o título do filme que juntou Christian Bale e Matt Damon, sob a batuta de James Mangold, mas sabia-se que tinha como estória a história da ingressão da Ford em Le Mans e o seu sucesso.

É um filme de e para petrolheads, algo que todos os anos é evocado aquando a realização da mítica prova de endurance em França: a Ford tentou comprar a Ferrari e, dada a resposta do Commendatore, os americanos fizeram o GT 40 e ganharam a prova, enfurecendo Enzo.

A história poderia contar-se assim.

A Ferrari é a marca mais importante da história do mundo automóvel: é a que representa a vitória, a glória, o glamour do desporto e do lifestyle a ele associado. É luxo, é sonho, é inacessibilidade. A Ferrari tem uma aura que o dinheiro não compra e, se se pensar em todos os insucessos que a marca teve – desportivamente – seria difícil imaginar que é pelos carros vermelhos que o público se levanta nos grande-prémios.

Há marcas que a escassos momentos da história, tiveram essa importância: Alfa Romeo, Maserati, Bentley, Mercedes, Auto Union, Porsche. Mas a Ferrari, desde o dia em que foi criada até hoje, é o marco na História. Foi uma fábrica, equipa e marca criadas, desde o primeiro instante, para a competição, colocando-a num patamar longínquo das que fazem camiões, tratores, berlinas a diesel para o dia-a-dia.

Ao longo dos anos a Ferrari coleccionou fãs, títulos, fortune and glory.

Coleccionou, igualmente, guerras e disputas, quer no meio desportivo quer no meio empresarial, numa altura em que, apesar do controlo financeiro da FIAT e da família Agnelli, a voz de Enzo Ferrari era sempre a última a ser ouvida. Felizmente que esses valores continuaram, fazendo sobrepor os valores da marca ao dinheiro; (ou a forma como isso levou a gerar ainda mais dinheiro!).

Por tudo isso, tinha algum receio no filme porque poderia ser mais uma vingança: americanos a falarem de uma marca americana, numa guerra com uma marca europeia, na Europa. Um pouco como diz a Wikipedia. *

Felizmente a história foi contada: a Ford é uma marca de automóveis concebidos para a classe média, através da genialidade de Henry Ford transformando uma marca de automóveis numa fábrica de commodities e de fazer dinheiro. Podia ser com carros ou com salsichas.

Felizmente o filme coloca a Ford onde ela deve estar e trouxe ao de cima a genialidade de Shelby e Milles. Sem os dois, o Ford americano que era construído em Inglaterra não teria passado de mais um fiasco. Assim, é lendário.

Os americanos, no geral, são patrióticos; mas são, também, dos povos que mais importância dão ao mérito.

Obrigado Hollywood.

*É verdade porque está na net

Nota: Este artigo não foi escrito segundo o novo acordo ortográfico.

Sobre o autor:
Consultor de marketing e comunicação, piloto de automóveis, aventureiro, rendido à vida. Pode encontrar-me no mundo, ou no rebelomartinsaventura.blogspot.com ou ainda em instagram.com/rebelomartins. Seja bem-vindo!

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