Revista Rua

2019-08-23T10:09:12+01:00 Opinião

Spoiler Alert

Cinema
João Rebelo Martins
23 Agosto, 2019
Spoiler Alert
©D.R.

Se ainda não viu o novo filme de Quentin Tarantino, não leia este artigo.

A t-shirt da Champion por baixo de uma vistosa camisa havaiana, os jeans da Levi´s e os óculos de sol, per si, são capazes de captar o olhar de qualquer petrolhead. Será um piloto de automóveis, um surfista, um rockandroller?! É um duplo, um stuntman, que por instantes vai ser chefiado por stuntman Mike e pela Zoe, que interpreta sempre o seu papel da vida real.

Mal começa o nono filme de Tarantino, somos invadidos por uma série de pensamentos de outros filmes seus: caçadores de prémios, duplos, os nazis a serem queimados, a referência a Hermann. As personagens interagem de película para película; uma marca de água cada vez mais visível assim que nos aproximamos do fim da carreira do cineasta – Tarantino já referiu que só faria dez filmes.

Brad Pitt faz de Cliff Booth, o duplo de Rick Dalton. É o homem da pasta, o faz tudo de um actor em declínio, seu duplo ou quiçá, a segunda vida do Tenente Aldo Rain?! Sabemos que é um herói de guerra e a sua expressão e a voz, muito rectilínea e militarizada, não deixa de ser uma característica análoga à personagem principal de Inglourious Basterds.

É um anti-herói porque torcemos por ele, apesar da sua falta de tacto, de ter morto a mulher, de morar numa caravana. Faz-nos rir quando troça com Bruce Lee… e Bruce Lee merece ser troçado!

Rick Dalton, a personagem de DiCaprio, é um actor bronco, em declínio, que improvisa uma fala e tem uma tirada de génio. Há quem diga que é inspirado em McQueen, Eastwood e Reynolds. Espero que seja uma caricatura.

E depois tudo o resto é Tarantino no seu melhor.

Há anos ouvi dizer que ele não trancava a porta de casa e um amigo perguntou se ele não tinha receio de alguém entrar e roubar os guiões – isto já lá vai há vinte anos! -, e ele respondeu que podem levar à vontade porque não saberiam a ordem das cenas.

No meio do filme, enquanto se conta, por via de uns cartazes de filmes, a ida a Itália de Rick, salta o nome de António Margheriti: será que é o do verdadeiro ou do Sgt. Donny Donowitz que se transforma em cameraman no Cinema de Paris?! Eu apostaria no segundo.

Mas como escrevia, todo o resto do filme é Tarantino no seu melhor: uma história principal e muitas estórias cruzadas que servem de camuflagem para o verdadeiro objectivo. Muito bem realizado e produzido, sem falhas. O realizador é um fã de BD, da vitória do bem sobre o mal, de forma espectacular e cheio de desafios até à vitória final.

Aqui a história do filme são os assassinatos levados a cabo por Charles Manson e a sua família. Marca indelével na imagem de Manson? A suástica na testa, como Aldo Raine deixava as suas vítimas “vivas”.

Tarantino altera o destino e faz um final feliz: a família Manson morre às mãos de Cliff e da sua cadela; Polanski teria vivido descansado o resto da vida.

Isto é Hollywood e eu sou um spoiler. Ah! No Ford vs Ferrari, quem ganha é a Ford.

Nota: Este artigo não foi escrito segundo o novo acordo ortográfico.

Sobre o autor:
Consultor de marketing e comunicação, piloto de automóveis, aventureiro, rendido à vida. Pode encontrar-me no mundo, ou no rebelomartinsaventura.blogspot.com ou ainda em instagram.com/rebelomartins. Seja bem-vindo!

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