Revista Rua

2019-06-25T11:30:05+00:00 Opinião, Património

Sustentabilidade & Turismo (Parte 2)

Turismo e Património
Hugo Aluai Sampaio
Hugo Aluai Sampaio
21 Junho, 2019
Sustentabilidade & Turismo (Parte 2)
Imagem ilustrativa

Mas aprofundemos alguns aspetos relativos à estruturação da atividade. Desde logo, a concentração anómala de pessoas em determinadas geografias que, além de desembocar num claro desgaste dos locais, tem culminado e incentivado a descaracterização dos traços de tradição e de portugalidade. Em muitos casos (já) observamos evidentes encenações, teatralizações especificamente montadas para o turista e para os media. Além disso, o exponencial crescimento dos Alojamentos Locais levou a que, em certas áreas, os turistas partilhem as suas experiências com… outros turistas! Os bairros, as lojas, os negócios, as atividades, as gentes que já foram típicas, dão lugar ao Novo Turismo. As tasquinhas, antes “manhosas”, deram lugar a esplanadas de azulejos gourmet. E porquê? Porque o Novo Turista viaja mais barato, tem mais oferta, está mais informado, é mais exigente, move-se com mais facilidade. E porque as tendências ditam as modas. Comparativamente há uns anos, qualquer um de nós, hoje, pode ser turista. Aquilo que outrora foi próprio de elites, leva ao esgotamento de algumas atrações, de alguns locais, de alguns destinos. E isso gera inequívocos problemas. Veja-se Barcelona ou Veneza, por exemplo. Muitos dos responsáveis (entenda-se, com o poder de decisão) continuam a assobiar para o ar; mas não estão em negação. As implicâncias estão aí, e há sinais diários claros. Se não os “lermos” – ou não os quisermos ler – estaremos sujeitos ao devir.

Responda-se então à pergunta inicial: pode o aumento da atividade turística aspirar a ser uma prática verdadeiramente sustentável? Não, não pode. É impossível conciliar o aumento da atividade turística sem que daí advenham danos colaterais.

A sustentabilidade – palavra tão em voga! – deve estender-se às diferentes esferas de atuação. Pena que o grosso dos stakeholders sobreponha a componente económica às demais, seja a ambiental, a social ou a tecnológica. A poluição não é só ambiental; ela é, também, sonora e visual; as alterações dos modos de vida quotidianos das populações locais não passam só por fazer as pessoas transformarem os seus negócios; passam, também, por alterar os seus costumes e os seus valores. O excesso de “carga” num destino não provoca apenas constrangimentos no acesso ao seu “consumo”; ele imprime, também, significativos e irreparáveis danos que o dinheiro não paga nem recupera.

Continuamos na política da centralização: de repente, parece que quem visita Lisboa e o Porto acede ao que de mais tradicional e puro temos. Compram-se latas de sardinha em molho de tomate picante a preços ridículos; dão-se voltas às urbes sem sair do topo de um autocarro e conhece-se tudo numa tarde; tiram-se selfies nos lugares mais emblemáticos sem saber a sua História e, nas redes sociais, afirmam-se os egos exploradores… E depois, indo embora, vão-se vazios, (quase) sem nada de novo, apenas uma visita consubstanciada numa checklist.

Responda-se então à pergunta inicial: pode o aumento da atividade turística aspirar a ser uma prática verdadeiramente sustentável? Não, não pode. É impossível conciliar o aumento da atividade turística sem que daí advenham danos colaterais. O aumento de visitantes gera impactos inequívocos, positivos e negativos, mas em questões de sustentabilidade, é impossível estabelecer políticas consonantes com uma maior atividade turística sem que o prejuízo de terceiros suceda. Mas, para não acabar de forma tão negativa, saiba-se que é possível minimizar estes efeitos. E porque há quem estude o(s) fenómeno(s) do Turismo, porque não recorrer a quem “percebe da poda”?

Sobre o autor:

Arqueólogo, professor universitário, investigador integrado do Lab2PT e colaborador do CiTUR.

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