Revista Rua

2020-03-02T11:53:40+00:00 Cultura, Pintura, Radar

Tamara Alves, o Urbano Feminino

As obras da artista Tamara Alves estão em exposição até dia 7 de março na Underdogs Gallery, em Lisboa.
Cláudia Paiva Silva
Cláudia Paiva Silva2 Março, 2020
Tamara Alves, o Urbano Feminino
As obras da artista Tamara Alves estão em exposição até dia 7 de março na Underdogs Gallery, em Lisboa.

Até dia 7 de março, na Underdogs Gallery, em Lisboa, Tamara Alves é a artista convidada com a exibição When the rest of the world has gone to sleep, numa homenagem às criaturas da noite.

Tamara Alves será porventura uma das mais conhecidas artistas plásticas de arte urbana em Portugal. Nascida em Portimão, onde viveu até aos 18 anos, filha de pais também pintores que são a sua maior influência, Tamara cedo mostrou uma capacidade inata para o desenho complexo que foi posteriormente sendo acompanhada pela forma como lidava com os vários tipos de materiais disponíveis e tintas. Depois veio a licenciatura nas Caldas da Rainha e finalmente Erasmus em Birmingham, no Reino Unido, onde ganhou o gosto pela arte urbana. Nesta sua exposição a solo mostra algumas das pinturas e esquissos mais emblemáticos da sua carreira, onde o feminino e o animal estão sempre presentes, numa definição direta de todo o seu trabalho, onde selvagem se funde com humano e irracional, onde a pele nua de mulher e homem contrastam com a existência de metais do dia a dia industrial, onde lobos convivem com a natureza, onde a natureza é no fundo o nosso habitat natural. Onde também há sempre Amor e Paixão.

Numa curta entrevista à RUA, minutos antes de um workshop de desenho para crianças, Tamara explicou como se sente enquanto artista feminina em Portugal, as principais diferenças que observa entre as cidades do litoral e do interior do país em relação ao desenho e arte urbanas e qual o papel do artista na sociedade.

Como foi o teu percurso desde Portimão até ires para as Caldas? E de que forma o facto de os teus pais serem pintores te influenciou?

Nasci já a pintar com os dedos! A minha mãe diz que eu ainda antes dos dois anos já fazia desenhos super complexos, muito diferentes daquilo que as crianças da mesma idade fazem. Como os meus pais são pintores, para mim sempre foi muito natural a forma de lidar com os materiais. Nunca tive medo em experimentar – sabia desde muito jovem o que dava para misturar ou não, sou desenrascada, o que dá imenso jeito na minha área, mas continuo sempre a aprender a ganhar experiência. Felizmente sempre tive uns pais que me apoiaram e incentivaram, nunca me limitaram – lá em casa (em Portimão) existem desenhos meus desde os nove anos de idade no meu antigo quarto e sempre que queriam partir paredes, pediam-me (e ao meu irmão) para ir pintar essas paredes antes de mudarem alguma coisa.

Outro incentivo acontece porque eu cresci perto da praia do Carvoeiro e como no Algarve há muito pouca oferta cultural, havia sempre um deslocamento aos fins de semana – às vezes íamos a Lagos ou a Lisboa ver exposições e isso dava para aprender e ganhar mais informação, educar, ver e conhecer.

Qual achas que é a principal diferença entre a tal oferta cultural, principalmente artística de pintura e o conceito de arte urbana? Como vês que as pessoas reagem?

Para começar, em Lisboa, tu vês tudo e consomes tudo de uma forma muito mais rápida. Tens uma parede, vês a parede, pintas a parede e vais para a tua vida. Demoras cerca de uma hora a chegar ao café onde tinhas combinado alguma coisa. Nos locais mais pequenos (e nas pessoas mais velhas – aqui independente da região do país), tu vês um maior cuidado com a sua terra e sítio, vês uma valorização pelo espaço que se calhar a nossa geração já não tem tanto. Quando vais então para locais mais pequenos, deixar lá alguma coisa, elas ficam na dúvida, desconfiam do que vais lá fazer, ficam na defensiva e aí é importante conhecer essas pessoas, conviver com elas, ouvir o que elas têm para dizer. E se deixares algo que seja para a cidade, uma oferenda, então que seja algo com uma mensagem. Existe uma responsabilidade social enorme no trabalho de rua. Não é estar a apontar os dedos, ou dizer como as pessoas devem agir, é preciso aliás ter cuidado com o que dizes e respeitar toda a gente – mas se estás na rua, as palavras têm um peso, as imagens têm um peso e se for para passar alguma mensagem que seja algo inteligente.

De certa forma, são as pessoas mais velhas do interior as mais recetivas?

Sim, no início ficam muito defensivas, mas depois acabam por valorizar e gostar, principalmente se já te conhecerem e acompanharem o teu percurso. Guardam aquilo possessivamente, é para eles, deles, defendem aquele trabalho. Já nas cidades “grandes”, a mensagem tem de ser mais direta e mais forte.

Viveste em Birmingham. O que achas que é diferente entre o feminino artístico cá, em Portugal, e o que conheceste lá fora?

Eu acho que quando falamos do papel na arte dizem sempre que somos poucas, e sim, a balança está muito desequilibrada. Mas se calhar é porque tens mulheres que não querem mostrar o seu trabalho, não têm interesse ou acham que não podem. Então eu digo: elas que saiam e que venham fazer coisas. A rua é uma tela de exposição gigantesca e toda a gente está de olhos postos na rua agora. Hoje em dia, mais que tudo, é aproveitar a “onda” do feminismo. Se estamos a ganhar mais consciência, melhor, então vamos mostrar o que valemos. Já passei por situações muito desagradáveis em que me pagaram para estar presente, para fingir que estava a trabalhar e se calhar aceitei com imensa dificuldade porque precisava do dinheiro. Mas qual é afinal o meu papel? É suavizar um meio de homens? Não é! Sei que somos três ou quatro muito ativas no meio de arte urbano, mas são várias exposições por ano e vai uma ou outra apenas para preencher o buraco da única mulher que está disponível. E isso é muito complicado, mas é preciso aproveitar e marcar presença para fazer a diferença!

Sim, o que é que se pode perder, principalmente durante esta altura?

Ainda por cima, no meio de arte urbana, há muitos anos, senti que havia uma desconfiança quando dizias que querias fazer alguma coisa. Nós vivemos numa sociedade machista – se hoje uma mulher quer ser condutora de um Uber ou um autocarro, há ainda uma censura imediata porque foi a sociedade que nos fez pensar dessa forma, é normal – por isso é uma questão de darmos a volta. Mas, para mim, é uma questão de igualdade para todos. Para uma mulher ter empoderamento, o homem tem de se sentir também empoderado.

Tem de haver um equilíbrio…

Sim, a maior parte das desigualdades é criada devido às inseguranças das outras pessoas.

Tu retratas tanto o universo masculino como o feminino nas tuas pinturas.

Sim. O feminino porque sou mulher e sei exatamente como me colocar na pele de uma mulher. E acho que é importante, já que retrato o peito de um homem nu, retratar o peito de uma mulher também nu, porque é importante assumir-se tanto para um como para outro. Fiz um trabalho no Hospital dos Capuchos, onde o nu era essencial para que fizesse sentido e houve alguém que chegou lá e pintou os seios da figura feminina, mas como se tivesse sido eu a fazê-lo (está muito bem feito). E isso chateia-me. Uma coisa é fazerem tags ou bigodes por cima e isso não me chateia nada, mas quando vão desconstruir o teu trabalho e a mensagem que queres transmitir, isso é algo que me irrita muito.

Para finalizar, o que dirias à Tamara de há 20 anos?

Vai em frente, força e não desistas, porque tudo vai correr bem. Pode doer, mas vai correr bem (risos). Se há persistência, se há amor e paixão, então vai ter de correr bem.

Além da exposição de entrada gratuita, a Underdogs Gallery tem ainda à venda na sua loja, 12 exemplares impressos a quatro cores e assinados pela artista do conhecido We are slow dancing in a burning room – um desenho onde a fragilidade feminina contrasta com a presença masculina de um isqueiro a queimar uma rosa.

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