Revista Rua

2020-03-11T11:05:45+00:00 Opinião

Tão medricas somos

Palavras
Paulo Brandão
Paulo Brandão
11 Março, 2020
Tão medricas somos

Há sete anos que não tenho carro. Quase não como carne e no prato pouco peixe rabeia. Diminuí o consumo em geral e as únicas árvores que derrubo estão nos livros que compro e nas estantes que os suportam. Não é que tenha uma consciência plena de como ser melhor ambientalmente. O lixo não o trato lá muito bem, pois a rigorosa separação nem sempre é tão rigorosa quanto gostaria.

Gostava muito que o meu país fosse como Utrech, na Holanda. Em frente a minha casa há um liceu. Não vejo um único aluno a chegar de bicicleta. Há mesmo um parque automóvel no interior da escola para professores e funcionários. Como é possível? Em Utrech há mais bicicletas do que carros. Os bebés vão de bicicleta, confortáveis, junto ao peito do pai ou da mãe ou num cesto catita. E lá chove muito e está frio e ninguém pensa nas otites ou nas quedas, pois os seus habitantes são cuidadosos e informados e vivem em comunidade, respeitando o seu espaço e o dos outros. Espreitem a entrada de um prédio habitacional em Utrech e lá estão as bicicletas e os carrinhos de bebé muito bem tratados e alinhados.

Não me parece que vá lutar ou queira transformar a minha realidade, pois isso não depende só de mim e eu até queria convencer os amigos e as pessoas que no norte da Europa é que é, que lá faria mais do que faço e que aqui mesmo, no meu Portugal, todos devíamos ser mais cuidadosos e verdadeiros. Em Estocolmo, na Suécia, os jardins têm afixados os horários de rega e os canais placas indicativas da profundidade das águas. Cá seria visto como algo de engraçado e tonto.

Bom, o outro conta. Mas nós, portugueses, não vivemos mais em comunidade. Viemos quase todos para o litoral e já não sabemos apanhar os cogumelos comestíveis dos bosques ou onde encontrar espargos. A nossa dieta vem agora embalada em plástico. A nossa linguagem está mais pobre e se dizemos dormidos, cibo ou ponto de pérola ninguém sabe o que é. As casas têm preços inimagináveis e não há solução. As universidades, na sua maioria, são um passatempo para chegar ocupado até aos 30 anos. A violência doméstica é assustadora e a saúde mental uma miragem.

Hoje dormi pouco. Aceito que a minha higiene do sono está em falta. E que por isso escrevo de mau humor. Este é um texto que nada acrescenta. Estou, digamos, a pensar alto. Vou ler o Ai Weiwei e a sua entrevista ao Expresso e ele diz ser inimigo do Estado. Devíamos todos ser inimigos do Estado pela ação, como ele o é. Devíamos ser inimigos do Estado melhorando a nossa qualidade de vida sem esperar nada do Estado. Em comunidade. E nós e eu e a minha rua somos muito pouco. Podíamos talvez ser mais. Não esperar que o Estado nos compre bicicletas, proíba o plástico, autorize mais e mais zonas verdes ou permita que mãe ou pai fique os três primeiros anos de vida de licença, junto do filho ou filha acabado ou acabada de nascer.

Há coisas que levam tanto tempo. Mas as leis, a vergonha, o viver em sociedade, o politicamente correto não quer saber do Ambiente, da Ecologia ou dos Animais. Tão medricas somos.

A terra a mingar e nós aqui preocupados com o jantar, as batatas e o bacalhau para o próximo natal. Com gestos verticais e outros raciocínios podemos sempre mudar um pouco: dá para pensar tudo em papel reciclado ou em plástico reformado vindo do fundo dos mares ou vamos continuar a ser medricas?

Sobre o autor
Diretor artístico do Theatro Circo

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