Revista Rua

2018-05-03T19:09:18+00:00 Opinião

Ter um disco nas mãos, ou não ter nada

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Emanuel Roriz
Emanuel Roriz
3 Abril, 2018
Ter um disco nas mãos, ou não ter nada

No decorrer de 2015, a LOUD! Magazine lançou o desafio aos seus leitores de redigirem um texto, sobre o disco que escolheriam para lhes fazer companhia numa ilha deserta. Fiquei entusiasmado pela ideia e comecei de imediato a imaginar as primeiras linhas. Lembro-me que a analogia foi praticamente imediata e a partir dela discorri o meu texto. Essa analogia ligou-se a Braga pela ilha deserta de lojas de discos que a minha cidade já era na altura, e que ainda é. Nesse texto foquei-me na imagem da ilha e nas passagens do disco Deliverance dos suecos Opeth, mas ficou por contar o episódio que me levou até essa magnífica obra e mais recentemente até à rádio.

Muitas vezes entrei na loja de discos Carbono, situada num dos pisos do Centro Comercial dos Granjinhos. Por vezes fazia apenas parte de uma caminhada pelo centro da cidade, indo eu saciar-me com a descoberta das novidades acabadas de chegar às prateleiras ou vislumbrar os clássicos usados a preços imbatíveis. Mas, sem dúvida, que as visitas mais entusiasmantes seriam aquelas em que lá entrava decidido a trazer algo novo para casa. Num tempo em que ainda não existia Youtube e a internet não chegava a todo o lado, levava apenas comigo as referências lidas e que mais me despertavam a curiosidade. No dia em que saí da Carbono com o Deliverance na saquinha, tinha lá entrado com duas opções em mente. Uma delas eram os suecos Opeth dos quais nunca tinha ouvido um único tema. Sobre eles e o seu disco de 2002 tinha lido na LOUD! um texto vibrante com uma alarmante nota 10 (em 10)! A capa do disco não me despertava interesse e mesmo com tamanha pontuação não tinha sido disco do mês. Durante alguns tempos senti-me intrigado por algo que não me atraía, por ser desconhecido e não agradável à vista. Naquela visita à loja, a outra opção era Figure Number Five dos Soilwork, também eles de origem sueca. Com nota 9 e a referência mais confortável que era a New Wave of Sweedish Death Metal, parecia-me sem dúvida um investimento mais seguro. Pedi ao dono da loja para me deixar escutar um pouco de cada disco e lembro-me de ficar bastante inclinado para o trabalho dos Soilwork. A sonoridade era familiar e o artwork mais agradável. Mas aquele texto e aquela nota 10, aquela sonoridade diferente, estranha. Será assim o sentimento ao atracarmos numa ilha deserta? Observar o desconhecido, a estranheza de não saber o que nos espera. Amarrei no Deliverance, inseguro, e trouxe-o comigo. Não resisti à tentação exótica. Com a passagem do tempo, é hoje sabido que estes são dois discos acima da média, mas tornou-se claro que o disco dos Opeth é uma obra ímpar e que se destacará como clássico mais facilmente do que Figure Number Five.

Toda esta experiência e todas estas ligações entre quem escreve sobre música, quem comercializa música (formato físico) e quem consome música, estão hoje drasticamente reduzidas. E nem vou falar das delícias do tape trading… Sem dúvida que este envolvimento que se foi perdendo retirou valor à obra de arte que pode e deve ser um disco. Para mim, ainda é fácil perceber o quanto se perdeu ao passar de um disco de vinil trazido para casa, desembrulhado, colocado no gira-discos, o baixar cuidadoso da agulha e o simples e incontornável acesso a uma plataforma de streaming. Acredito que existam muitos para quem esta diferença signifique perda alguma. Mas posso afirmar que a diferença é gritante, e para menor. A boa notícia é que pelo menos o disco de vinil está a experimentar um ressurgimento. Um pouco por aqui e ali, vão-se vendo edições bastante saudosistas em cassete e lançamentos em CD que são cada vez mais produtos especiais e trabalhados de forma única. Poderá isto levar-nos de volta às lojas de discos como local de encontro com a cultura e entre apreciadores de música? Daqui nasceu a expressão Disco Ou Nada, que se materializou recentemente num programa de rádio onde semanalmente dois amigos conversam sobre discos, que de alguma forma lhes são importantes. A mensagem que fazem passar é a da importância de cultivar o momento de retirar a rodela de plástico da caixa, ligar a aparelhagem, encostarmo-nos no sofá, abrandarmos, e sermos nós e a música. E tu o que preferes? Disco? Ou nada?

Sobre o Autor

Emanuel Roriz

Guitarrista e bandolinista, apaixonado pela música que vou vivendo entre palcos e plateias. Sigo caminho entregando-me também à leitura e escrita sobre esta arte e momentos. Falo sobre música, partilhando-a também, no programa de rádio Disco Ou Nada que realizo com António Melo (Sábados e Domingos das 22h às 23h na Antena Minho 106.0 FM).

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