Revista Rua

2020-03-11T11:16:08+00:00 Histórias

The Red Wolf, o traço que ilustra uma história

A The Red Wolf é uma marca portuguesa de ilustração e design, criada por Filipe Duarte e Joana Campos Silva que, juntos, propõem um conceito inovador de exploração da arte e da criatividade.
©The Red Wolf
Maria Inês Neto11 Março, 2020
The Red Wolf, o traço que ilustra uma história
A The Red Wolf é uma marca portuguesa de ilustração e design, criada por Filipe Duarte e Joana Campos Silva que, juntos, propõem um conceito inovador de exploração da arte e da criatividade.

Com um traço delicado, as ilustrações da The Red Wolf saltam-nos à vista pela mistura de sensações: a leveza dos cabelos esvoaçantes, a cor que realça os elementos, o detalhe da composição. Não é à toa que, também nós, nos rendemos ao talento da The Red Wolf, entregando a Filipe Duarte o nosso bem mais precioso: a nossa capa. Esta é uma história desenhada, de espírito livre e delicadeza artística.

Filipe Duarte com a Revista RUA #34 ©Nuno Sampaio

São linhas que traçam o esvoaçar de um cabelo, cores vivas que se fundem numa sinergia cativante e rostos indefinidos que se revelam espelhos de personalidade. A The Red Wolf é uma marca portuguesa de ilustração e design, criada por Filipe Duarte e Joana Campos Silva que, juntos, propõem um conceito inovador de exploração da arte e da criatividade. É a partir da sua casa, situada no Porto, que estas ilustrações são pensadas e criadas. Sentámo-nos à mesa com Filipe e, numa longa conversa, visionamos a sua perspetiva de negócio, as suas ambições, receios e estratégias, na intenção de conhecermos a história que dá vida a uma marca tão inerente e, ao mesmo tempo, curiosa.

Filipe é designer gráfico de formação e professor na Escola Artística Soares dos Reis, enquanto que Joana trabalha como especialista em estratégia e desenvolvimento de marcas de moda, assim como na gestão de projetos criativos. Planeando o desejo comum, enquanto casal, de um dia criar um negócio próprio, onde perspetivassem as suas ideias e convicções, lançaram-se na aventura de gerir uma marca. Em 2016, mais concretamente, a 1 de abril, estava no ar a loja online da The Red Wolf, com criações originais, quadros imperdíveis e ilustrações particulares.

Ao longo de quase quatro anos, desenharam histórias e traçaram linhas. Descobriram a rapariga de espírito livre que lhes prendeu a atenção, a mesma que se esconde por detrás de uma máquina fotográfica vintage, que fecha os olhos para sonhar e explora o mundo na sua bicicleta amarela. Também a mulher contemporânea que aguarda sentada na sua vespa vermelha ou que vive a correria da modernidade num cenário da Broadway, em plena década de 70. São traços que avivam a memória e detalhes que relembram histórias que não querem ser esquecidas.

Tudo começa com um propósito: decorar a casa. Mas aquilo que parecia ser um projeto apenas pessoal seguiu um outro caminho. Apaixonado pela arte de desenhar em papel, foi no digital que Filipe encontrou o espaço que idealizava para ser livre. “Eu tinha muita curiosidade em experimentar desenhar no digital. Comprei uma caneta própria, descobri alguns softwares ligados ao desenho e comecei a explorar. Rapidamente percebi que desenhar no digital é muito mais prático. Se uma pessoa desenhar bem no digital, desenha bem no papel, e vice-versa, mas o digital dá-me outras possibilidades”. Sempre abraçado pela arte, Filipe deixa-se inspirar pelos variados estilos de vida, pelas vivências do cosmo feminino, a graciosidade da natureza, a pureza dos animais, os eternos anos 70, o amor pela sua esposa, a relação com os amigos e o inesperado da vida de tudo aquilo que o rodeia.

“Quando comecei, não sabia muito bem o que é que iria desenhar. Como gostava muito da figura feminina e da natureza, comecei a desenhar mulheres com árvores no lugar da cabeça. O fator feminino agrada-me, porque acho que a mulher tem sempre um estilo diferente do homem, são mais criativas e delicadas. Se abrirmos o guarda-roupa de uma mulher ou o de um homem, vemos que o da mulher tem muita mais criatividade”, partilha Filipe. Curiosamente, essa indefinição concreta de um rosto presente nos seus desenhos acabou por ser uma característica que se revelou determinante para o reconhecimento do seu trabalho. “Uma coisa que eu descobri é que as pessoas nos compram porque se reveem nas ilustrações, que é algo que eu não fazia a mínima ideia”, conta-nos Filipe, continuando: “A verdade é que eu cheguei a conhecer mulheres que eram completamente iguais às que eu desenhava, porque são ilustrações que não definem nenhum rosto”.

Nas ilustrações é percetível a predominância de três cores, assim como detalhes que se repetem em todos os desenhos. O espectro reflete-se em amarelo, vermelho e azul, sendo que a escolha destas tonalidades é propositada, no sentido de se revelarem cores fortes e que possam facilmente ser contrastadas. “Eu queria trabalhar uma ilustração que fosse diferente e não queria que fosse nada idêntico ao que já existe, nem queria nada demasiado artístico. Quero que uma pessoa olhe e perceba logo o que ali está. Também não queria nada que fosse negativo, queria uma comunicação positiva, para que as pessoas olhem para os meus desenhos e se sintam bem”.

Tirando proveito das técnicas que ditam a vanguarda do mundo digital e favorecendo a matéria-prima que as redes sociais oferecem, conseguiram delinear uma estratégia que rapidamente impulsionou o reconhecimento da marca. Com a intenção de expandir o nome e conceito, Filipe começou por contactar algumas influenciadoras digitais, como a autora do blog D Concept, ou personalidades, como Sara Carbonero, com o objetivo de lhes criar uma ilustração personalizada em troca da promoção nas redes sociais. Essa partilha encadeou uma chuva de pedidos de ilustrações personalizadas, o que não era, inicialmente, aquilo que Filipe projetava fazer. “Eu queria desenhar livremente e pensava: ‘Criei uma marca para ser livre e agora vou começar a ter de fazer ilustrações para clientes?’. Chegava a responder a centenas de pedidos diários a dizer que não fazia esse tipo de serviços, que era apenas para divulgar. É engraçado, porque só quando uma pessoa faz é que percebe realmente como é que as coisas funcionam”, partilha Filipe. Aquilo do qual fugia, revelou-se num gosto particular: “Muitos pedidos de ilustrações personalizadas chegam com uma história por detrás. Querem ter um quadro que resista ao tempo, há quem procure oferecer uma ilustração como prenda de casamento ou a alguém que completa 50 anos. Essas histórias dão-me algum peso e responsabilidade e a sensação que tenho é que o meu trabalho está a entrar na casa das pessoas, para quem terá um significado enorme”, refere.

Quanto à escolha do nome, esta não foi mero acaso. Joana tinha já em mente um nome que gostaria de um dia atribuir a uma marca sua, sem sonhar ainda qual seria, e esse nome tinha inevitavelmente a palavra wolf, que se traduz num animal do qual Filipe guarda um certo reconhecimento. “Adorava a ideia do lobo, porque faz parte da nossa infância e de muitas estórias. Comecei a pesquisar diversas raças de lobos e descobri uma, a Red Wolf, uma espécie protegida em vias de extinção. Tinha de ser esta”, conta-nos Filipe. As ilustrações chegam ao público através da loja online, assim como alguns pontos de venda, distribuídos no Porto, Aveiro e Lisboa. O propósito não é massificar nem banalizar a marca, mas garantir que o crescimento é sinónimo de maior alcance. Através da criação de ilustrações que acrescentem ainda mais valor à marca, assim como a continuidade de trabalhos personalizados, Filipe e Joana assumem a missão de diferenciar a marca, sem perder o prazer pela mesma. Cada desenho é um ponto de partida para uma história que quer ser contada e esta ainda tem muitos traços pela frente.

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