Revista Rua

2020-03-02T17:08:37+00:00 Opinião

Todos os dias são como todos os outros

Crónica
Francisco Santos Godinho
Francisco Santos Godinho
2 Março, 2020
Todos os dias são como todos os outros

Devia ser de manhã porque o filtro das cortinas estava aceso de amarelo e via-se o reflexo do copo de água na mesinha de cabeceira. Procurou pela mulher às apalpadelas no travesseiro e ninguém. Procurou os comprimidos com os olhos das mãos ensonadas, sentou-se na cama e foi compondo o quarto aos pedaços, primeiro a cómoda que estava no lugar, a cadeira estava no lugar e os chinelos também, de pontas viradas para lados opostos. Tacteou o caminho do quarto até à sala e estranhou o pai sentado no banco de entrada, como um casaco de visitas, olhando para a parede sem dar fé dele. Tomou café virado para a varanda, voltando-se para ver do pai que, sem explicação aparente, permanecia quieto numa rigidez de esfinge. Pegou nas chaves e desceu para o carro. Não havia nada na rua a não ser o seu automóvel e perguntou-se se seria terça-feira ou domingo. O relógio confirmou a primeira hipótese e dirigiu-se para o escritório. Os semáforos não funcionavam e não havia uma única alma na cidade e, portanto, tudo indicava um dia excepcional. Estacionou à porta, subiu no elevador e não havia sequer recepcionista à secretária e decidiu, então, atender o telefone que não se calava. Levantou o auscultador e não havia ninguém em linha. Trabalhou até ao meio-dia e almoçou um pão na mesa de trabalho, num cuidado assombroso para não enodoar os processos. Ligou o rádio e não apanhou emissora nenhuma. Voltou a conferir o dia e pensou nas efemérides todas, sem encontrar alguma que coincidisse com o dia presente. Desceu para o carro um quarto de hora antes das seis, com medo que o patrão lhe dissesse que seis são seis, não são seis menos um quarto, mas nada. Voltou para casa a contar os semáforos verdes, vinte e um, salvo erro, até estacionar de novo perto do prédio. Verificou o correio e encontrou os panfletos de serviços de canalização da véspera. Abriu a porta de casa e o pai voltou- se vagarosamente para ele, sorrindo num sossego etéreo. Colocou três pratos na mesa e serviu o jantar. Espiou a travessa até tudo arrefecer: a esposa não estava em casa e o pai permanecia no banquinho da entrada. Arrumou a refeição no frigorífico e sentou-se no sofá, batendo a ponta do pé numa esquina da carpete. Nada. Decidiu fechar os olhos por instantes, só por instantes, para não se distrair do pai. Puxou a custo as pálpebras do descanso e viu-se deitado na cama: devia ser de manhã porque o filtro das cortinas estava aceso de amarelo. Palpou o travesseiro vizinho e descobriu o cabelo morno das pessoas ensonadas, verificando que a sua esposa ainda dormia. Levantou-se sem fazer caso dos comprimidos ou dos chinelos e quando chegou ao corredor, o banquinho da entrada estava vazio, apenas um cachecol e um guarda-chuva pequeno. Dirigiu-se ao fogão de sala e o pai havia regressado ao retrato, embalando-o no joelho até ao emprego, desta vez sem semáforos avariados.

Nota: Este artigo não foi escrito segundo o novo acordo ortográfico.

Sobre o autor
Licenciado em Direito pela Faculdade de Direito da Universidade do Porto. Autor do livro Sentido dos dias e da página Francisco Santos Godinho. Escritor. Luto contra o tempo de caneta na mão.

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