Revista Rua

2019-10-04T12:03:27+00:00 Opinião

Tomai a minha carne

Humor
João Lobo Monteiro
João Lobo Monteiro
4 Outubro, 2019
Tomai a minha carne

Fui muito atiradiço no título, não fui? É a ver se pega. Não vai pegar, muito provavelmente. Mas pelo menos já tenho a vossa atenção, era isso que eu queria, embora seja um grande erro que cometeram, ao darem-me atenção, e vão aperceber-se disso ao longo do texto. Isto se chegarem ao fim dele. Mesmo a meio, já vai dar para perceber. Ou já, neste momento já se devem ter apercebido do erro que foi. Pelo menos, leram um parágrafo e ler faz bem.

Ora, acontece que experimentei – ou fui pressionado socialmente a experimentar – comida vegetariana. Desloquei-me mesmo a um estabelecimento de comida vegetariana para efetuar o ato de comer cenas vegetarianas. Além desse pecado, reparem, acabei de escrever “efetuar o ato”, sem javardice, mas no novo acordo ortográfico, o que é odioso, mas tem de ser. Tal como teve de ser isto de comer no vegetariano.

Portanto, fui lá com colegas que já tinham experiência e gosto naquilo, e que me levaram na cantiga de “ah, nem se nota a diferença, é como se estivesse lá a carne”. Isso também diz quem se relaciona com modelos: parece que está lá a carne, mas não, é só osso e pó.

Bem, mas já estava lá, tinha de ser. Logo ao sentar, a funcionária do restaurante veio servir chá quente. Eu pensei “não estou doente, mas obrigado, menina”. Fiquei com receio de perguntar se não podia beber outra coisa. Bastava água, sem ser quente e sem ter sabor. Água, tipo água, mesmo. Mas mais uma vez, a pressão social ganhou-me, fiquei caladinho. Se não estava doente, ao ingerir comida vegetariana talvez viesse a ficar doente, então já adiantava o processo com um chazinho, pensei eu. “De que era o chá, João”? Não sei. Eu sou daltónico e o chá sabe-me todo a chá, são problemas que eu tenho. Não façam perguntas complicadas.

“No final, notando que eu e outro colega não jogávamos naquela equipa dos verdes, a funcionária disse que devíamos lá ir quando houvesse francesinha vegetariana. Quero aqui declarar publicamente que não, não vamos.”

Escolhi o prato: pastel de massa filo com seitan, abóbora e castanha. Por quê a escolha? Primeiro, era o menos mau que tinha no menu. Depois, já que estava num restaurante vegetariano, levei a brincadeira até ao fim e fingi que estava no Masterchef, queria um prato com nome pomposo. Finalmente, queria experimentar seitan, em homenagem a Coraçãozinho de Satan, personagem mítica e verde (logo, vegetariana) do Dragon Ball.

Foi bom? Não foi. Mas podia ter sido pior. Veio um arroz, pelo menos alguma coisa normal; fui numa parte da salada, também fui; a massa filo estava boa, mas lá dentro estava papa de bebé. A castanha, acho que era só boato, não a vi lá; a abóbora estava MUITO lá, mas não era em forma de compota, como eu queria; e o seitan, realmente, não é carne. Mas vá, aguentei-me como um herói. Até bebi o chá até ao fim, já para curar.

Entretanto, notei noutras mesas que havia sobremesas normais e isso deu-me motivação para ir até ao fim. Para não fugir do padrão, pedi bolo de cenoura com cobertura de chocolate. Abençoada cobertura de chocolate, porque realmente era bolo, verdade, mas era muito de cenoura. Isto é, era outra vez um bocado de salada, mas em bolo, sem sabor.

No final, notando que eu e outro colega não jogávamos naquela equipa dos verdes, a funcionária disse que devíamos lá ir quando houvesse francesinha vegetariana. Quero aqui declarar publicamente que não, não vamos. Na minha carne, só mexe quem eu quero e a francesinha, entre outras coisas, é sagrada. A única francesinha que deve ser destruída é a seleção francesa. Seja ela de que modalidade for. E o Eder já tratou disso!

Sobre o autor:
Tenho dois apelidos como os pivôs de telejornal, mas sou o comunicador menos comunicativo que há. Bom moço, sobretudo.

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