Revista Rua

2019-02-22T00:02:16+00:00 Opinião

Tradições, imaterialidades e (ir)racionalismos

Património
Hugo Aluai Sampaio
Hugo Aluai Sampaio
21 Fevereiro, 2019
Tradições, imaterialidades e (ir)racionalismos

Refere  a Lei nº 107/2001, na alínea 1 do Artigo 7º, que “Todos têm direito à fruição dos valores e bens que integram o património cultural, como modo de desenvolvimento da personalidade através da realização cultural”. Para alguns, infelizmente, a pergunta que se impõe é: mas o que é que isso me interessa? A (minha) resposta? Tudo.

Ora, antes de mais, o Património Cultural (PC) enriquece-nos intelectual e socialmente. Além disso, preenche-nos com memórias; certifica-nos enquanto cultura; alimenta-nos o nada, tornando-o um todo; une-nos como nação. Em última instância, é o nosso PC que nos faz portugueses, e não espanhóis…

Poderão, incautos, vislumbrar resquícios de nacionalismo que não pretendo transparecer. Pretendo, antes sim, sublinhar o caráter indispensável do nosso património (seja ele Cultural ou Natural, porque também o há!).

Infelizmente, a vontade sórdida de originalidade de alguns pode levar a que certos exageros façam com que o Património Imaterial se vulgarize. Mas pior do que se vulgarizar é o risco de se tornar irracional!

Mas o PC não se constitui apenas pelas “coisas antigas” materiais e “obsoletas”. Se é certo que uma parte considerável do PC é histórico e construído, e integra uma narrativa cronológica bem definida que corporiza o que vulgarmente denominamos de “nosso passado” (castelos, igrejas, centros históricos, etc.), muito do que hoje pode integrar o amplo e complexo conceito de PC manifesta-se diariamente. Uma das suas variantes mais na moda é, precisamente, o Património Imaterial. O intangível percorre o nosso dia a dia nas mais diversas formas e feitios: nas feiras tradicionais em que regateiam as vareiras e os galináceos aguardam, em stress e de patas atadas, um novo dono; nas danças e nos cantares das associações paroquiais que se reúnem aos fins de semana para engordar regionalismos; nas lendas e nas crenças que rivalizam com vestígios materiais do passado mas que não descuram de lhes conferir novos sentidos; nos túneis do metro com ecos e movimentos de artistas de rua que dão provas públicas dos seus dotes em troca de uma moeda; no tilintar das latas de spray que, sob o escuro da noite, grafitam aquilo que é, mais do que uma expressão artística, (também) um movimento cultural (mas sim, grafitar pode ser arte, mas estragar propriedade alheia já é crime!).

Talvez chegue de anúncios ao “verdadeiro”, ao “único”, ao “primeiro” ou ao “mais antigo”, só porque sim…

Infelizmente, a vontade sórdida de originalidade de alguns pode levar a que certos exageros façam com que o Património Imaterial se vulgarize. Mas pior do que se vulgarizar é o risco de se tornar irracional! Por essa razão se verifica (e esta é tão somente a minha opinião) que as tradições, que já não são o que eram, muitas vezes voltam transfiguradas. Recordem, em 2015, a ridícula “tradição” da Queima do Gato, realizada numa aldeia portuguesa que não interessa o nome, cujos contornos perversos e medíocres da dita “tradição” perpetrados por um grupo de acéfalos sobre um animal indefeso ninguém soube comprovar em tribunal. E não sou eu que o escrevo, foi o tribunal que o decretou! Por este andar corre-se o risco de banalizar o conceito de imaterialidade patrimonial, e não vou aqui falar do exagero que são alguns processos de valorização e de classificação dessas intangibilidades. Política(s) à parte, ou não, querermos ser originais, à pequena escala, pode (e deve) incentivar as diferenças que nos unam, independentemente de tudo, enquanto portugueses. Mas, por favor, talvez chegue de anúncios ao “verdadeiro”, ao “único”, ao “primeiro” ou ao “mais antigo”, só porque sim…

Sobre o autor
Arqueólogo, professor universitário, investigador integrado do Lab2PT e colaborador do CiTUR.

Partilhar Artigo: