Revista Rua

2020-05-18T12:22:08+00:00 Opinião

Trilogia de Covid

Humor
João Lobo Monteiro
João Lobo Monteiro
18 Maio, 2020
Trilogia de Covid

Vou tentar que o tema do próximo mês não seja Covid, mas não depende muito de mim, pessoal. Quer dizer, depende, por causa daquilo de eu ser responsável pela minha saúde e pela dos outros e isso, mas de facto não há muito por onde fugir do assunto. Ou melhor, convém fugir do bicho, mas do assunto bicho não há muito como fugir.

Decidi continuar no tema por ainda ter diversas e minúsculas questiúnculas para abordar acerca da vida em confinamento, mas sobretudo para vos ensinar que se diz “trilogia” e não “triologia”, como está bem patente no título. E decidi explicar-vos isto no início do texto, porque a partir daqui é capaz que desistam de ler, mas pelo menos o mais importante de se aprender já fica dito.

Quem acompanhou as minhas duas crónicas anteriores, deve estar em pulgas para saber como está a pele das minhas mãos. Antes de mais, se estão em pulgas, isso é muito estranho, porque o que está a bater é outro bicho. Vejam lá isso. Depois, a pele das minhas mãos está completamente regenerada, por uma questão muito simples e que eu tinha antecipado: ao fim de dois meses, nós já estamos a lavar as mãos à pressa, outra vez. E quando digo nós, é nóóós. Não sou só eu, eu sei. Lavamos muitas vezes, acredito, mas já não demoramos dois “Parabéns a você” completos a lavá-las. No máximo, demoramos um “Parabéns a você”, mas só o primeiro verso do “Parabéns a você”, que é precisamente “Parabéns a você”. Não estamos de parabéns. Mas enquanto nos safarmos, está tudo. Somos tugas, há que desenrascar.

Entretanto, cortei o cabelo. Que mudança de assunto repentina, não foi? Tem de ser, temos de testar os reflexos, manter-nos ativos para enganar o bicho. Vamos lá. Cortei o cabelo em casa. Não rapei, como os do kung-fu, mas fomos ali a um pente 2, por aí. Tive de me auto-carecar até onde conseguia (agora que inventei isto, reparo que auto-carecar é um excelente nome para stand, porque tem “auto” e tem “car”. Aproveitem, vendedores). Depois, fiz chantagem emocional sobre a minha mãe, para que escolhesse se eu ficava assim, tipo praxe, ou se ela me cortava o resto, já que vivo com pais que não gostam que eu tenha cabelo curto. Ou não gostavam, porque já ganhei o meu pai para o team João de cabelo curto. Ele também não tem muito como reclamar de quem não tem cabelo. Há pais que refletem os seus sonhos nos filhos, por exemplo, querem que sejam os filhos sejam advogados ou médicos, porque eles, pais, não conseguiram ou não tiveram possibilidade; o meu pai não, o meu pai reflete em mim o sonho de ter mais cabelo do que o que tem. Não me posso queixar, mas vou ter de o desiludir, porque consegui provar que fico igualmente esbelto, ou até mais, com o cabelo curto. Além do enorme tempo que me poupa para me pentear, já que o diminuí para cerca de zero segundos. Espetáculo, digo eu.

Falando nisso: o meu pai comprou um passarinho. Ainda me estou a adaptar à condição de, repentinamente, ouvir um chilrear. Assusta um bocado. Acrescido a isso, é um pássaro que vai para o ombro da pessoa (não para o meu), portanto os meus pais passaram a ser piratas, é como se pode resumir. Eu já era apelidado de palhaço, o que dá para compreender, pelas coisas que escrevo, mas não era por isso, era por razões de adição ao futebol – que voltou, caramba, voltou, é a primeira vez que amo a Alemanha! Agora, vivem aqui em casa um palhaço, dois piratas e um pássaro. Era de se fazer uma live deste circo.

Falando em lives, queria dedicar um espaço neste texto para voltar ao título da primeira crónica que fiz nesta fase Covid. Entretanto, e ainda bem, o “Como é que o Bicho Mexe?” escalou. Tornou-se no veículo do melhor 25 de Abril de que tenho memória; tornou-se veículo de ajuntamento de parte da Seleção que seria campeã europeia em julho – o Cris não participou em nenhuma live, só na do Bruno Nogueira, o que é incrível; tornou-se, por tantos motivos, a única razão válida para termos passado por esta situação de isolamento social (até agora, porque ainda pode ser que realmente nos tornemos melhores pessoas com esta situação). Mesmo que não seja lido, junto-me aos milhares de agradecimentos a todos os que tornaram as nossas noites melhores através de um simples direto diário no Instagram. Porque é muito isto que o humor é e que eu tento fazer, em muito menor escala e com muito menor brilhantismo do que Bruno Nogueira e Companhia – não o palhaço, o palhaço sou eu, já disse: é tentar, mesmo que de forma simples, melhorar a vida dos outros, para tentar melhorar a minha vida, ainda mais quando estamos todos mais ou menos na mesma situação. Epá, belo final, nem mexo mais!

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