Revista Rua

2019-07-31T15:21:23+01:00 Cultura, Teatro

Troianas: A Guerra, no olhar das Mulheres de Tróia

Até 17 agosto, nas Ruínas do Convento do Carmo, em Lisboa
©Luisa Ferreira
Cláudia Paiva Silva31 Julho, 2019
Troianas: A Guerra, no olhar das Mulheres de Tróia
Até 17 agosto, nas Ruínas do Convento do Carmo, em Lisboa

Com tradução de Luísa Costa Gomes, que admite tê-la feito bem perto do texto original, Troianas, de Eurípides, é, acima de todas as coisas, um manifesto: um manifesto antiguerra, anti barbárie, anti violação. E é, também, contudo, todo o seu total oposto. Não é por acaso que, reza a História, Eurípedes tenha ficado num segundo lugar quando apresentou esta sua obra num festival dedicado ao Deus Dionísio/Dionisus – nenhum grego (nenhum Homem) gosta de se ver no lugar do vilão, do assassino ou do bárbaro sem moral ou ética. Precisamente, é por aí que Troianas, a visão das mulheres de Tróia, ganha todo o seu esplendor e todo o apogeu da sua dor.

Serão as mulheres e apenas as mulheres a falar – algumas exceções aos homens sem escrúpulos e sem moral, Taltíbio e Menelau, que renegam os seus erros e crimes pessoais, e os relegam para os outros, tal como Pilatos fará séculos depois, lavando as suas mãos de qualquer culpabilidade. Mulheres, rainhas, deusas e princesas. De um lado, Hécuba (uma magnífica Maria Rueff), rainha de Tróia, vendo-se agora tornada escrava de Ulisses, esse grego que compactuou na invasão, saque e destruição da cidade. Do outro lado Helena, rainha Espartana, que imoralmente acusa os deuses para a desgraça que a sua luxúria, em todos, recaiu. Dissimulada, encantadora de serpentes, acabará por contornar o seu suposto fado (A Morte) e voltar a casa, quando, uma vez mais, ludibria o seu marido, Menelau – ele, afinal, culpado pela falta de Justiça na tragédia.

©Luisa Ferreira

Hécuba, a rainha velha, a antiga rainha, mãe de Heitor, mãe de Cassandra – esta que, entre uma aparente loucura que acaba por ser uma fuga à realidade que a espera enquanto concubina, profetiza um destino trágico para os gregos – e mãe de Polixena, sabe que perdeu. Sabe que a sua prole jaz, vê as suas filhas serem levadas em barcos para terras longínquas, para mãos de destinos infames, vê o seu neto ainda criança ser atirado do cume dos montes, embora lhe seja concedida honra e enterro digno depois de morto. Compreende-se então que a mulher de há 26 séculos, qual analogia aos dias de hoje, é igualmente descartável, carne que se quer casta, mas que na mesma medida é desejada e cobiçada, objeto de prazer e de maledicência, que se pretende apenas fértil, mãe que se pode transformar em amante, rainha que se pode tornar escrava.

As ruínas do Carmo, uma vez mais palco para o que é antigo, revela-se, uma vez mais, também, o mais apropriado local para esta encenação. O verão que demora em chegar, substituído por vento forte ao final do dia, compõem o cenário. Este vento, a ideia das mulheres das ilhas gregas e dos mares Jónico e Egeu, as velas dos barcos, as velas dos moinhos, os panos brancos de linho, até mesmo o som das gaivotas, que voam nos céus escurecidos da cidade que se diz, também ela, numa versão romântica, fundada por Ulisses, tudo gera uma imersão total do espectador, aliado aos cânticos das escravas que veem assim o seu destino completo na mais pura das calamidades, deixando para trás uma cidade em chamas.

Troianas é dor e amor à pátria. É um fim e um recomeço. É morte e ressurreição.

Ficha Técnica

31 de julho a 17 de agosto | MUSEU ARQUEOLÓGICO DO CARMO

Segunda a Sábado | 21h30

Tradução: LUÍSA COSTA GOMES

Encenação: ANTÓNIO PIRES

Interpretação: MARIA RUEFF, ALEXANDRA SARGENTO, SANDRA SANTOS, VERA MOURA, JOÃO BARBOSA, HUGO MESTRE AMARO, FRANCISCO VISTAS e os alunos finalistas da ACT – Escola de Atores Álvaro Aragonez, André Vazão, Beatriz Garrucho, Carlota R. Marques, Carolina Azevedo, Carolina Lopes, Eva Fornelos, Gonçalo Pinto, Inês Gomes, Inês Mata, Inês Meira, Pedro Nunes, Rafael Diaz Costa e Rui Teixeira.

Música e Direção Coral: LUÍS BRAGANÇA GIL

Movimento: PAULA CARETO

Cenografia: JOÃO MENDES RIBEIRO

Figurinos: LUÍS MESQUITA

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