Revista Rua

2020-04-16T09:44:10+00:00 Opinião

Turismo: coopetição versus canibalismo

Turismo
Hugo Aluai Sampaio
Hugo Aluai Sampaio
13 Abril, 2020
Turismo: coopetição versus canibalismo

A falta de colaboração e de diálogo entre os diferentes stakeholders, num mercado altamente competitivo, é algo que, em Portugal, mostra como somos um jardim pequeno com muros altos. Poucas são as mentes que, nada acanhadas, veem na coopetição uma forma de expandir o sucesso do seu negócio.

Não, não é erro ortográfico.

O termo coopetição provém do cruzamento entre as palavras cooperação e competição. E o que a vida me vai mostrando é que há por aí muito boa gente que perde mais tempo em ser competitivo do que cooperativo. No meio profissional facilmente invejamos o sucesso dos outros, justificando-o de todas as formas menos por via da meritocracia. Nas redes sociais queremos estar onde os outros estão, comer o que outros comem, parecer bem como os outros parecem. E fazemos questão de o registar por fotografia, por escrito. No dia a dia, as aparências regem os princípios de alguns: o carro, a roupa, o ócio, o tal lifestyle.

Mas atenção: ser competitivo não é mau, antes pelo contrário. Quando a competitividade é saudável, ela eleva o nível. Um atleta olímpico só se supera para bater recordes porque eles existem. Precisamente porque está em competição. Mas todos nós nos alegramos quando, no final, vencedores honram os vencidos. De igual forma, um empresário busca um produto/serviço original para ter (mais) sucesso no mercado. Acontece que, muitas vezes, este sucesso funciona melhor no modo de complemento com terceiros do que, propriamente, no registo clássico de combate à concorrência. O Turismo tem bons exemplos disso.

Um amigo meu é dono de um ginásio com Spa e piscina coberta numa determinada cidade minhota. Foi assoberbado  por uma ideia genial (digo eu). Uma vez que as unidades hoteleiras locais não tinham qualquer oferta do género, propôs os seus serviços como forma de complemento à estadia dos hóspedes. Disponibilizou-se, inclusive, a assegurar o transporte dos clientes de, e para, as respetivas unidades hoteleiras. A ideia seria permitir aos visitantes uma experiência mais completa, para o caso de estes quererem usufruir de um momento saudável de relaxe ou de desporto. As unidades hoteleiras não teriam qualquer custo associado. A reação dessas mesmas unidades foi simples e verbalizada numa questão: quanto é que ganhamos com isso? Aqui está o problema: não é quanto, mas o quê. A resposta parece-me óbvia: ganham prestígio por oferecerem uma estadia mais completa; ganham reconhecimento por terem a capacidade de diversificar a oferta e de satisfazerem o cliente; em última análise, ganham fidelização porque geram uma experiência positiva e, quiçá, fidelizam o cliente, pois fazem com que o boca-a-boca enalteça a empresa, os colaboradores, a cidade. Tudo isto é uma mais-valia no que toca a melhorar a qualidade da imagem do destino.

Continua a haver a tendente predisposição para o individualismo empresarial. Enquanto os gestores e os empresários não reconhecerem que – desculpem o chavão – “juntos são mais fortes”, tal posicionamento não beneficiará o sector turístico – nem tão pouco os seus negócios. Quem está no mercado não pode temer a concorrência: é ela que, de forma leal, faz elevar a fasquia da qualidade; é ela que, de forma séria, faz proliferar a oferta diferenciada; é ela que, de forma ética, permite que todos – sem exceção –  beneficiem. Só temos que ser genuínos e únicos no que pretendemos oferecer, e seremos altamente competitivos.

Nos tempos (tão difíceis) que hoje vivemos, há uma lição muito mais profunda a reter. Não somos ninguém sozinhos. Enquanto não tivermos a noção de consciência coletiva para determinadas matérias, o mundo continuará desequilibrado. O ambiente, a sociedade, a economia. Os mercados também são assim: o umbiguismo ou o canibalismo não favorecem a nossa existência coletiva. Mais partilha, por favor, e menos egoísmo.

Sobre o autor
Arqueólogo, professor universitário, investigador integrado do Lab2PT e colaborador do CiTUR.

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