Revista Rua

2020-03-03T10:15:34+00:00 Opinião

Turismo e Responsabilidade: 11 princípios (básicos)

Turismo
Hugo Aluai Sampaio
Hugo Aluai Sampaio
2 Março, 2020
Turismo e Responsabilidade: 11 princípios (básicos)

Decorrente da sua condição crescentemente contributiva para o Produto Interno Bruto de certos países, o Turismo assume, hoje, um papel de relevo na economia nacional. Por esse mesmo motivo, falar de um princípio basilar como a Responsabilidade é, mais do que premente, indispensável.

Convenhamos, contudo, que tornar o Turismo Responsável não é só pensarmos naqueles grandes chavões generalistas. Se é importante que a prática turística responsável tenha em consideração o não esgotamento dos recursos ou a não poluição, não deixa de ser menos verdade que a atividade deve primar por concretizar um conjunto de premissas que direcionem as suas ações muito para lá daquele impacto evidente e imediato que daí decorre.

Neste sentido, o retorno positivo que a atividade deve implicar nas comunidades locais e nas áreas em que se desenvolve (Responsabilidade Social), bem como o caráter preocupado com que as empresas e os negócios do sector devem olhar e tratar os seus colaboradores, valorizando o seu percurso e reconhecendo o seu real valor (Responsabilidade Social Corporativa), devem igualmente ser variáveis nesta complexa equação.

Refiram-se alguns (“apenas” onze), ainda assim poucos, princípios básicos:

(1) A sobrelotação turística de um destino não é responsável. Ao sobrecarregarmos uma cidade, um produto, um recurso, estaremos no caminho certo para a sua degradação. Além disso, a sobrelotação retira capacidade de resposta, diminui a qualidade do serviço prestado, ou causa má experiência.

(2) A concorrência desleal não é responsável. Porque assenta na prática de preços consideravelmente mais baixos e na falta de ética, leva, invariavelmente, a uma redução significativa na qualidade dos serviços prestados e contribui significativamente para o degredo da imagem do destino.

(3) A “fabricação” não é responsável. Vender “gato por lebre”, contar a “história da carochinha”, rotular como “mais antigo”, “o original”, ou “o melhor” sem comprovação histórica, é defraudar expectativas. É uma forma de armadilha que, convenhamos, não mata, mas ninguém gosta de descobrir que foi tomado por tonto.

(4) Oferta desqualificada não é responsável. Com uma procura mais acentuada, haverá espaço para maior oferta de produtos e serviços. Tal, por sua vez, poderá incrementar a concorrência desleal, o abuso de horários laborais, as más remunerações. Tudo isto, por sua vez, não promove a Responsabilidade Social Corporativa (RSC). Como consequência, a procura de mão-de-obra barata e não especializada, não acrescenta valor ao serviço.

(5) Comercializar algo até à exaustão, descaracterizando esse “algo”, não é responsável. As modinhas e a manipulação de traços tradicionais são um fenómeno que advém do uso e do abuso de determinadas realidades culturais. Criar o ambiente “só para turista ver” não é ser tradicional, é encenação. Trata-se de contribuir para a perda ou distorção de traços de identidade.

(6) Alterar rotinas de habitantes locais, contribuir para o aumento dos preços, gerar confusão, poluição, stress, engarrafamentos, enfim, tudo isto não tem nada de responsável. Tornar “algo” turístico não deve ir contra as gentes locais, sob pena de criar mau ambiente. E nenhuma atração turística quer ter os habitantes locais contra a remar em sentido contrário.

Mas passemos do geral para algo mais particular e não menos importante…

(7) Os contratos de trabalho precários não têm nada de responsável. Não só não favorecem a classe trabalhadora, como impactam negativamente na sua prestação. Quem não é bem pago, não veste a camisola; quem não veste a camisola, não presta um bom serviço; quem não presta um bom serviço, não promove uma boa imagem do destino.

(8) Trabalhar num determinado sector sem ter a preocupação de adquirir conhecimentos sobre o mesmo, não é responsável. Já aqui disse, algures, que toda a minha gente acha que trabalhar em Turismo é fácil, ou que gerir um negócio turístico é fácil. Nada mais errado. O Turismo – e isto pode parecer estranho para alguns – também tem ciência e, por isso mesmo, é estudado. Ainda que a Academia possa, muitas vezes, andar desfasada da realidade no terreno – assumamos, sim, que tal acontece! –, a investigação é essencial para conhecer melhor a sua atividade e o seu comportamento.

 (9) Desconsiderar um especialista no sector do Turismo não é responsável. A visível falta de aposta em profissionais leva à descrença colaborativa. Quem melhor do que quem percebe, estudou, ou está por dentro para tratar as coisas pelo nome? E porquê contratar fora quando, muitas das vezes, as empresas têm, entre portas, pessoas mais do que qualificadas e com igual capacidade? A mobilidade vertical dentro de uma empresa é, em última análise, o reconhecimento da qualidade do colaborador.

(10) Pagar mal, não reconhecer o valor dos seus colaboradores, gerir à luz do despotismo, não se coaduna com as boas práticas de RSC. Trabalhadores insatisfeitos, mal pagos, com excesso de trabalho e sem perspetivas futuras, não encaixam no perfil de colaborador que se mantenha fiel à empresa. E o regime de rotatividade constante não beneficia o serviço e a sua qualidade.

(11)Last, but not least”, a falta de cooperação e de diálogo entre os diferentes stakeholders não traz nada de responsável. Portugal é um jardim pequeno, mas com os muros muitos altos! Continua a haver a tendente predisposição para o individualismo empresarial. Enquanto os gestores e os empresários não reconhecerem que – desculpem o chavão – “juntos são mais fortes”, tal posicionamento não beneficiará o sector – nem tão pouco os seus negócios.

Quem está no mercado não pode temer a concorrência: é ela que, de forma leal, faz elevar a fasquia da qualidade; é ela que, de forma séria, faz proliferar a oferta diferenciada; é ela que, de forma ética, permite que todos – sem exceção –  beneficiem.

Ser responsável não é só manter a sanidade económica do negócio ou a estabilidade ambiental da envolvente. Do que adianta ações concertadas de plantação de árvores ou de recolha de “plástico marinho” se, por vias travessas, a nossa ética de fachada esconde outros problemas (igualmente ou mais) importantes?

Sobre o autor
Arqueólogo, professor universitário, investigador integrado do Lab2PT e colaborador do CiTUR.

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