Revista Rua

2019-08-07T15:35:13+01:00 Bússola, Viagens

Two PinaColadas To Go, espírito viajante

Rita e Pedro são de Guimarães, mas aventuraram-se pelo mundo com um bilhete só de ida.
Redação7 Agosto, 2019
Two PinaColadas To Go, espírito viajante
Rita e Pedro são de Guimarães, mas aventuraram-se pelo mundo com um bilhete só de ida.

Rita Rodrigues e Pedro Xavier são dois jovens naturais de Guimarães que se aventuraram à descoberta do mundo. Na página de Instagram Two PinaColadas To Go podemos encontrar o registo das suas viagens: Filipinas, Malásia, Singapura, Vietname, Sri Lanka, Índia… De momento de passagem pela Tailândia, fomos conhecer melhor este casal com espírito viajante.

Gostávamos de começar esta entrevista por conhecer o início da vossa história. Como é que se conheceram?

Nós conhecemo-nos no Liceu de Guimarães em 2004. A partir daí fomos sempre bons amigos e sempre tivemos um grupo de amigos em comum. Depois de acabarmos o 12º ano deixamos de conviver tanto. Em 2012 voltámos a encontrar-nos durante alguns dias seguidos no Enterro da Gata em Braga, e a partir daí começamos a sair mais vezes juntos. Somos namorados há quase sete anos, mas somos amigos há 15 anos.

O que motivou a criação do Two PinaColadas To Go? Há quanto tempo viajam e por quanto mais tempo vai durar a vossa aventura até regressarem às origens?

Fizemos a nossa primeira viagem juntos em 2012. Fomos a Roma em julho e ainda não namorávamos. Eu sempre gostei de fotografia e já ia praticando e publicando algumas fotografias de viagens no meu Instagram pessoal, embora num estilo completamente diferente. E nas viagens que fazíamos íamos tirando fotografias dos dois, mesmo sem ser de forma tão trabalhada e sem intenção de as publicar. Gostávamos de as ter para nós. No ano passado, quando fizemos uma viagem a Marrocos, decidimos começar a fazer de maneira diferente e a pensar na possibilidade de criar um blog com fotografias e dicas de viagens. A Rita adora planear viagens e achámos que podíamos complementar-nos bem ao criar a página. Começámos a desenvolvê-la poucos meses depois dessa viagem e agora estamos a planear fazer mesmo um website para darmos dicas de forma mais completa. Começamos esta viagem pela Ásia no dia 27 de março e não temos bilhete de regresso. Vamos ficar por aqui enquanto andarmos bem e estivermos dentro do orçamento que estipulámos. Mas queremos andar pela Ásia durante mais alguns meses.

Presumimos que existe alguma curiosidade por detrás do nome. Podem contar-nos?

Nós queríamos um nome que fosse invulgar e não tivesse palavras óbvias como “travelers” ou “wanderers”. Estivemos algum tempo a pensar em possibilidades e acabamos por fazer uma lista grande de nomes. Acabou por ser mais extenso do que aquilo que queríamos no início, mas foi o que nos soou melhor e o que gostamos mais. O nome é uma mistura do conceito de “Coffee to go” à americana, que sugere que nós não ficamos muito tempo no mesmo sítio e planeamos as coisas em andamento, mas com a nossa bebida preferida (piña colada) e que faz lembrar férias e climas tropicais.

Partiram recentemente numa grande aventura, viajando juntos pelo mundo. Como é que está a ser, até ao momento, toda a experiência?

Sim, está a ser uma experiência fantástica, mas por vezes exaustiva. Ainda estamos a recuperar da Índia. É um país lindíssimo, mas que nos atingiu de forma muito intensa através dos cheiros, da comida, das pessoas, do clima, da cultura, etc. Tudo é intenso na Índia. Estivemos lá um mês, mas é difícil aguentar algumas coisas. Houve alturas em que apareciam pessoas muito boas e nos davam fôlego para continuar, mas às vezes é difícil saber em quem confiar. Fomos perseguidos por um tuk-tuk em Agra e fomos enganados várias vezes por funcionários de aeroportos. Mas no geral em todos os lugares por onde passámos tivemos momentos em que nos sentimos em casa e outros em que só nos apetecia fugir. Num arquipélago das Filipinas vimos praias paradisíacas com água azul turquesa e, ao lado, na cidade onde estávamos hospedados, a água que saía da torneira era castanha. Até chegamos a ficar doentes devido à precária rede sanitária da cidade.

Deixar tudo para trás e partir à descoberta não é tarefa fácil. Sentiram algum receio inicial? Qual era a vossa maior preocupação?

A Rita é mais aventureira e já há muito tempo que queria fazer esta viagem. Sabíamos que tínhamos muito a ganhar com esta viagem e queríamos fazê-la, mas para isso tínhamos que abdicar do convívio com a família e amigos, presenciar marcos importantes como casamentos de grandes amigos e o aniversário de 60 anos do pai da Rita. A verdade é que nunca iria haver uma altura perfeita para nos lançarmos nesta aventura e achamos que se quiséssemos fazer esta viagem teria que ser naquele momento. Nunca tivemos grande receio de nada. A nossa grande preocupação nunca foi o que poderíamos vir a encontrar, mas sim o que deixaríamos para trás. Para além do conforto de casa, com pais e irmãos, a Rita também tem sentido muito a falta do Lupin – o cão dela – e eu dos convívios com a família e amigos aos fins-de-semana.

De todos os locais por onde já passaram, conseguem nomear a cidade que mais surpreendeu? Ou os locais?

Varanasi, na Índia. Foi a cidade que causou o maior impacto. Nunca pensamos que tal desorganização pudesse existir. Uma vez íamos a pé no regresso para o nosso hostel e ficamos presos no trânsito. Entre outras pessoas a pé, carros, motas, bicicletas, triciclos, vacas, cães, porcos e cabras ficámos cercados sem nos conseguirmos mexer em nenhuma direção durante cerca de cinco minutos. É a mais caótica de todas as que visitamos na Índia. Hoi An no Vietnam foi uma boa surpresa, por ser uma cidade que investe na limpeza das ruas, na sustentabilidade e organização de eventos e projetos culturais, ao contrário da maior parte dos lugares que visitámos na Ásia até hoje.

O que mais vos agrada quando chegam a um novo destino?

Como grande parte das pessoas que viajam, conhecer novas culturas, novas pessoas ou novos locais são os pontos principais da nossa viagem. Gostamos de encontrar locais pitorescos, com arquitetura peculiar e pontos pouco conhecidos e fora da rota turística. Gostamos também de “riscar” esse local da nossa lista infinita de coisas a visitar.

É impossível ficar indiferente à partilha de fotografias que divulgam nas redes sociais. Como é que tudo funciona? É fácil encontrar sempre o local ideal para fotografar?

Nós vamos sempre guardando locais que queremos visitar numa lista e, como a Rita gosta de ter tudo organizado nas viagens, normalmente quando vamos para algum sítio novo já temos a lista de locais a visitar, com a data e hora melhores para visitar. Claro que não corre sempre tudo como queremos. Às vezes temos que ir antes do nascer do sol para conseguirmos estar sozinhos. Outras vezes os locais estão cheios de gente e temos que ter muita paciência e esperar, por vezes durante muito tempo, pelo momento certo, ou até mudar o ângulo da fotografia. Não é só tirar a fotografia e publicá-la. Antes dela ser tirada há todo um processo de preparação: a escolha do melhor enquadramento no local, a decisão sobre a melhor roupa a vestir, optar por uma pose ou outra, entre outros imprevistos que sempre surgem. No pós, temos que ter em conta os aspetos da edição da fotografia e decidir como queremos o resultado final, mas 90% das fotografias não chegam a ser publicadas.

Já passaram por alguma situação menos agradável nesta aventura? Ou algum momento que, por alguma razão especial, vos tenha ficado na memória?

Tivemos a perseguição em Agra que mencionámos há pouco e nas Filipinas fomos maltratados algumas vezes quando nos recusamos a dar aquilo que nos pediam pelos táxis e tuk-tuks. Em contrapartida, recordamos com carinho um dia em que se instalou uma tempestade de areia e nós não tínhamos transporte e tínhamos que descer uma montanha durante cerca de quatro quilómetros a pé até à cidade mais próxima e uma família indiana nos ofereceu boleia. Também tivemos a ajuda de uma senhora muito querida em Alleppey (Índia), que às 21h nos viu na rua desorientados e nos levou à estação de comboios e tratou de tudo por nós. Para além destas situações, há um dia marcante para a Rita. Também em Alleppey, durante o nosso percurso de dois quilómetros para mudar de hotel, a mala de 20 kg ficou sem uma roda, começou a chover e a trovejar e tivemos que continuar o caminho a pé. Chegamos ao hotel e quando a Rita abriu a porta da casa de banho caiu-lhe uma barata em cima. Mudámos de hotel e quando estávamos quase a subir as escadas, a Rita foi atropelada por um rato que tinha o tamanho de um gato. Eu ia mais à frente e só ouvi um grito e a mala a cair ao chão. Toda a gente que estava por perto, inclusive o rececionista do hotel, veio ver o que se passava. Como o dia estava a correr muito bem, a Rita estava com receio que o rato tivesse ficado esmagado debaixo da mala, mas só estavam baratas. No Nepal, eu também fiquei sem o casaco quando estávamos num templo, porque enquanto estávamos a tirar uma fotografia, de repente começou uma ventania que levou o casaco para cima das tábuas onde fazem as cremações. O casaco ficou cheio de cinzas. Mas estas são situações desagradáveis, que não são graves, acabam por se tornar engraçadas.

Como é que tem sido esta adaptação constante a novos locais e culturas diferentes?

Tentamos sempre respeitar as culturas e experienciar parte delas. Gostamos de conhecer as tradições e as comidas locais e, por isso, também tentamos sempre ir aos sítios que os locais frequentam – e não só pontos turísticos. Há culturas muito exóticas, nas quais foi mais difícil conseguirmos uma imersão tão profunda. Mas quando se viaja é bom ver que num mundo cada vez mais globalizado ainda há locais autênticos e que mantêm a sua identidade. Uma das coisas que nos marcou bastante foi em algumas ilhas das Filipinas não haver hospitais nem um local com as condições mínimas para o tratamento das pessoas.

Podemos abordar a parte do alojamento? Onde é que têm por hábito ficar alojados e durante quanto tempo (em média) ficam em cada local?

Essa é uma questão que nos traz dores de cabeça constantes. Encontrar local para ficar, tendo em conta o nosso orçamento, e conseguir ter limpeza, boa localização e bom wifi para trabalhar não é tarefa fácil. Por vezes, até pedimos para ver o quarto antes de reservar. Fazemos isto, porque um dia chegamos a fazer check-in em três hotéis diferentes, porque entramos nos quartos e fizemos o cancelamento logo a seguir. Os padrões na Ásia são muito diferentes dos nossos. É muito comum as toalhas de banho e os lençóis estarem manchados e a casa de banho não estar de todo limpa. Em relação ao tipo de alojamento, tanto ficamos em hotéis, hostels, guesthouses ou apartamentos. Depende muito da oferta e da relação qualidade-preço do local. Como os preços flutuam de noite para noite, às vezes temos que mudar. Normalmente não ficamos durante muito tempo no mesmo local, mas às vezes sentimos necessidade de ter uma estadia mais prolongada para podermos descansar. Parte do nosso trabalho enquanto viajamos também é fazer colaborações/parcerias com hotéis e, por isso, por vezes aparecem hotéis espetaculares na nossa página.  Nesses momentos conseguimos estar em sítios melhores, mas como temos trabalho extra nem sempre conseguimos usufruir na totalidade das comodidades que nos oferecem.

Em que lugar se encontram neste momento e qual será o próximo destino? Estão motivados com o futuro?

Depois de termos estado no Sri Lanka, voltámos à Tailândia e seguiremos para Laos. Sim, porque ainda há muitos países que queremos conhecer neste lado do mundo e ainda temos muito para fazer nos meses de viagem que temos pela frente.

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