O Verão trouxe uma natural abstracção dos acontecimentos, transversal a uma sociedade deliberadamente influenciada pelos tópicos dos media. Dir-se-á que a mente humana necessita de um “reset” de tempos a tempos, em nome da inestimável salubridade que nos alumia. Mas não menos importante é a percepção daquilo que o Inverno também nos trará.
A guerra que assola a Ucrânia tem, desde o início, inevitáveis repercussões na Europa, para as quais nos devemos preparar. E, para isso, torna-se importante percebermos em que ponto se encontra o conflito. Proponho-me assim a fazer um pequeno apontamento sobre o actual momento.
A preocupação mais premente prende-se com a persistência de um potencial desastre nuclear na central de Zaporizhzhia. A operadora estatal de energia da Ucrânia alertou que há “riscos de fuga de hidrogénio e salpicos de substâncias radioactivas” na central agora ocupada pelos russos. A Europa sustém a respiração.
Rússia e Ucrânia trocaram acusações mútuas de bombardeamentos na área da central nuclear, a maior da Europa. A empresa nuclear estatal ucraniana ‘Energoatom’ alerta que as tropas de Moscovo “bombardeiam repetidamente” o local, e o Ministério da Defesa da Rússia alegou que as tropas da Ucrânia “bombardearam o território da estação três vezes” num único dia.
Perante este cenário, a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) tenta negociar o acesso à central para uma missão de inspecção urgente, procurando “ajudar a estabilizar a situação de segurança e protecção nuclear no local”. O chefe da Energoatom, Petro Kotin, referiu mesmo que esta visita poderia ocorrer antes do final do mês. Apesar de a Conselheira do Ministro da Energia da Ucrânia, Lana Zerkal, ter afirmado aos meios de comunicação social que os russos não permitirão a realização de qualquer inspecção, o Diretor-Geral da AIEA, Rafael Grossi, informou que a missão à central está “agora a caminho”.
Mas a verdade é que parece não existir abertura por parte do Kremlin para amenizar a situação. A Rússia bloqueou um acordo na ONU destinado a reforçar o Tratado de Não Proliferação Nuclear. Este fracasso em concordar com uma declaração conjunta, devido à objecção de Moscovo relativamente a uma cláusula sobre o controlo da central de Zaporizhzhia, é o mais recente golpe nas esperanças em manter um regime de controlo de armas e conter uma corrida ao armamento, agora reacendida.
Após longas negociações nas Nações Unidas, os Estados Unidos denunciaram o “obstrucionismo cínico” da Rússia. Moscovo ergueu o único obstáculo para bloquear a adopção de uma declaração conjunta sobre a não proliferação nuclear. Os 191 signatários procedem a uma revisão do Tratado de Não Proliferação Nuclear a cada cinco anos, visando impedir a disseminação de armas nucleares e a promoção da cooperação no uso pacífico da energia nuclear. Mas na passada Sexta-feira, a Rússia impediu a aprovação da declaração, firmando a sua discordância em relação a “aspectos políticos” do texto.
Quais as previsões para os próximos tempos?
Segundo a Agência Reuters, a Ucrânia terá iniciado uma contra-ofensiva há muito esperada no Sul do país. “Hoje começamos acções ofensivas em várias direcções, inclusive na região de Kherson”, disse a emissora pública ucraniana ‘Suspilne’, citando a porta-voz do comando do Sul, Natalia Humeniuk. A Ucrânia tem falado sobre uma contra-ofensiva planeada nas suas regiões do Sul ocupadas pela Rússia há mais de dois meses.
Mas qualquer exercício de análise futura esbarra sempre na imprevisibilidade inerente a um contexto de guerra. Todos os circunstancialismos são voláteis, pelo que se torna inelutavelmente difícil prever conjecturas ou indícios daquilo que acontecerá no terreno. Contudo, os elementos que podemos obter através do estudo de tudo o que se passou nos últimos meses dão-nos alguns indicadores:
– Apesar das enormes perdas de ambos os lados, Ucrânia e Rússia não estão preparadas para terminar a guerra. A Ucrânia pretende os seus territórios agora ocupados pelos russos de volta. A Rússia não prescinde de continuar a infligir golpes no seu opositor e, por consequência, ao Ocidente;
– Não há negociações entre os beligerantes desde que foram publicitados os massacres em Bucha, Irpin e outros territórios ocupados pelas tropas russas a Norte de Kiev;
– A Ucrânia não tem ao seu dispor meios capazes de possibilitar um contra-ataque convencional a larga escala. E a táctica de “guerrilha” não é suficiente para provocar o colapso do exército russo;
– Kiev alterou a estratégia, encetando agora ataques de mísseis de longo alcance contra bases russas bem atrás das linhas inimigas. O intuito passa por criar o caos entre as forças russas;
– Os novos ataques ucranianos poderão embotar a eficácia do inimigo na prossecução de novas e imediatas incursões, mas revela-se insuficiente para os russos cederem parte dos territórios ocupados.
– A atenção da Rússia poderá́ recair agora numa manutenção mais consolidada dos territórios ocupados. O Kremlin não aparenta ter quaisquer planos para uma ofensiva a larga escala, não obstante continuar a utilizar a táctica de destruição indiscriminada do território ucraniano.
– Putin pode não ter obtido o que esperava no início da guerra. Mas a Rússia ocupa agora grande parte do território ucraniano no Este e Sul do país, e prepara as condições para a realização de referendos naquelas regiões.
Que influência poderá ter a entrada de uma nova estação?
Como em qualquer outro conflito desta natureza, o clima desempenha sempre um factor com grande influência no desenrolar dos acontecimentos.
O Inverno será de crucial importância para ambos os lados delinearem as suas estratégias. A Ucrânia debate-se com uma enorme crise humanitária, pois já não há aquecimento para grande parte da população dos territórios ocupados e próximos da linha da frente. Prevê-se uma enorme onda migratória nos próximos meses, talvez com mais de 2 milhões de refugiados a caminho da Polónia.
A Rússia vê o Inverno como uma oportunidade. Conforme já abordado no início deste artigo, os ucranianos receiam que o inimigo tenha como alvo a sua rede de energia, tornando o problema da falta de aquecimento cada vez mais real. Além disso, Moscovo pretende prolongar o problema do Ocidente com os custos da energia.
Cada um dos lados quer estabelecer posições e preparar-se para o mais provável: uma nova época de confronto militar na próxima Primavera.
Por fim, é importante salientar a ajuda ocidental à Ucrânia. Sem este apoio, os ucranianos já teriam certamente sido derrotados. Contudo, o Ocidente não forneceu à Ucrânia artilharia ou armas suficientes que possibilitassem a expulsão dos invasores do seu território. Enquanto isto não acontecer, é altamente improvável que os russos recuem.
Nota: O autor escreve segundo a antiga ortografia.
Sobre o autor:
Advogado. Licenciado em Direito pela Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra. Aficionado por música e desporto. Entusiasta de História Militar e autor da página WWII Stories Group.
