Revista Rua

2023-11-14T23:01:32+00:00 Opinião

Ucrânia: a influência chinesa e a visão de Lula

Relações diplomáticas
Pedro Nascimento
19 Abril, 2023
Ucrânia: a influência chinesa e a visão de Lula

A relação diplomática entre a China e a Rússia tem vindo a consolidar-se nos últimos anos, principalmente no que respeita a questões geopolíticas e de segurança global. Embora daqui ressalte um histórico de tensões, mormente durante a Guerra Fria, a melhoria gradual das relações entre os dois países foi impulsionada pela necessidade de cooperação em questões globais, como a busca por uma ordem mundial multipolar.

A China e a Rússia compartilham uma visão semelhante em relação a muitos desafios, o que é potenciado, essencialmente, pela desconfiança em relação aos Estados Unidos e às suas políticas externas. Esta parceria entre chineses e russos procurou fortalecer os seus laços bilaterais através de uma série de acordos, incluindo o estabelecimento de uma parceria estratégica em 1996 e um acordo de cooperação militar em 1997. Desde então, a cooperação militar entre a China e a Rússia tem crescido constantemente, com exercícios militares conjuntos realizados regularmente e com um aumento do comércio de armas entre os dois países.

Além disso, a China e a Rússia têm encetado um esforço de união em fóruns internacionais, como a Organização de Cooperação de Xangai e o BRICS (grupo de países que se destacam pela sua economia emergente no cenário mundial, composto por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul). Esses esforços de cooperação visam fortalecer a posição dos dois países em assuntos globais, fornecendo uma alternativa ao sistema internacional liderado pelos Estados Unidos.

E assim, naturalmente, esta relação diplomática entre a China e a Rússia tem a sua influência na actual guerra da Ucrânia. Embora a China não tenha tomado partido em relação ao conflito, a sua influência na guerra da Ucrânia não pode ser subestimada.

A China tem interesses estratégicos na região, incluindo a busca de recursos naturais, o estabelecimento de rotas comerciais terrestres e marítimas, bem como a promoção da sua imagem como uma potência global. E a Ucrânia é vista como um corredor importante entre a China e a Europa, com o potencial de se tornar uma porta de entrada para o continente europeu através da expansão da “Iniciativa do Cinturão e Rota” (ou a nova “Rota da Seda”), projectos de infraestruturas na Ucrânia e outros países da região, como parte da sua iniciativa para criar uma nova rota de conexão entre a Ásia, a Europa e África.

Os chineses têm evitado tomar partido na guerra, apoiando os esforços de paz liderados pela Organização para a Segurança e Cooperação na Europa (OSCE) e oferecendo assistência humanitária à Ucrânia. Contudo, a China tem fortes laços comerciais com a Rússia. Tudo isto impossibilita Pequim de adoptar uma posição mais clara em relação à guerra.

A China é um dos cinco membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU, e o seu poder económico e político global significa que o país tem uma enorme capacidade de influência relativamente às negociações internacionais de paz e de segurança. Além disso, a China tem a capacidade de exercer pressão económica sobre a Rússia e outros actores envolvidos na guerra.

O papel de Pequim no conflito em solo ucraniano continuará a ser importante nos próximos tempos, à medida que o conflito se arrasta e a luta pela influência na região se intensifica. A China tenta navegar cuidadosamente para manter a sua posição de neutralidade, mas isso poderá revelar-se manifestamente incompatível com a promoção dos seus próprios interesses estratégicos na região.

A influência chinesa na guerra da Ucrânia é um lembrete do seu propósito de crescimento como potência mundial, pois que o país tem beneficiado da situação na Ucrânia para ampliar a sua influência na Europa Oriental, aproveitando a instabilidade na região para robustecer a sua posição política e económica na Europa Oriental.

É certo que qualquer exercício de adivinhação se torna pouco fiável, atendendo a todos os circunstancialismos inerentes a uma guerra. Mas há dados que nos encaminham para conclusões mais específicas. No encontro realizado no passado mês de Março com Xi Jinping, Putin mostrou estar cada vez mais confortável ao lado do líder chinês, afirmando mesmo que “muitos pontos do plano de paz chinês coincidem com o ponto de vista da Federação Russa, e muitos desses pontos podem ser adoptados no Ocidente e em Kiev”.

Já este mês, também o Presidente brasileiro Lula da Silva, após apontar a possibilidade de a Ucrânia perder a Crimeia definitivamente, referiu: “estou confiante que quando voltar da China (…) vou dizer que está criado o grupo que vai discutir a paz, que é o que o mundo está a precisar”. Relembremos que em 2008, no primeiro mandato de Lula da Silva, o Brasil absteve-se na votação da Assembleia Geral da ONU que condenou a Rússia pela intervenção militar na Geórgia, adoptando uma posição mais equidistante no conflito. Já em 2014, com Lula fora de cena, o Brasil votou a favor da resolução da Assembleia Geral da ONU que reconheceu a integridade territorial da Ucrânia, condenou a anexação da Crimeia pela Rússia e pediu o fim das hostilidades na região.

É neste “grupo” que residem as esperanças para se alcançar a “paz” na Ucrânia?

___________________________________

Nota: O autor escreve segundo a antiga ortografia.

Sobre o autor:

Advogado. Licenciado em Direito pela Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra. Aficionado por música e desporto. Entusiasta de História Militar e autor da página WWII Stories Group.

Partilhar Artigo: