Após a análise da primeira semana da invasão russa da Ucrânia, abordamos o estado actual da guerra, que conta agora com vinte dias.
Depois da tentativa falhada de uma ‘Blitzkrieg’ (“guerra relâmpago), a Rússia passou para uma fase de pesados e constantes bombardeamentos e ataques aéreos, não poupando as áreas civis das principais cidades.
PRIMEIRA SEMANA
Nos primeiros dias, o avanço russo começou de forma agressiva. A utilização de unidades rápidas, ainda que levemente blindadas, tinha como objectivo dominar ‘alvos-chave’ com pouca oposição.
Conforme verificamos no mapa, as tropas russas fizeram um progresso inicial significativo nos dois primeiros dias. Tanto no Sul, a partir da Crimeia, quanto no Norte, em redor da capital Kiev e Kharkiv, o avanço russo foi progrediu rapidamente. Mas diminuiu desde então.

Após alcançarem os subúrbios de várias cidades, as tropas de Putin iniciaram operações para as envolver. Importantes centros como Kiev, Kharkiv, Chernihiv e Sumy, no Norte e Nordeste do país, viam-se perante um poderoso inimigo às portas. Ao mesmo tempo, no Sul, o exército russo tentou criar uma “ponte terrestre” entre a Crimeia e as regiões separatistas do Donbass, ao longo da costa do Mar de Azov.
Assim, ao longo da primeira semana, a Rússia entrou no território ucraniano a partir de quatro direcções:
– Norte – da Bielorrússia em direcção a Kiev (1);
– Nordeste – da Rússia para Sumy e Kharkiv(2);
– Leste – em direcção à região do Donbass (3);
– Sul – a partir da Crimeia (4).
As tropas avançaram em todas as frentes, chegando aos subúrbios das cidades de Kiev, Kharkiv, Sumy e Kherson.

SEGUNDA SEMANA
Os russos continuaram a sua investida no eixo de Kiev. As tentativas para alcançar a capital pelo Norte foram interrompidas pelas forças ucranianas, que retardaram essa ofensiva. Kiev defendeu-se com uma enorme tenacidade.
No início da segunda semana, a ofensiva entrou numa pausa operacional, enquanto as tropas se prepararam para retomar as operações contra Kiev e Kharkiv. No eixo da capital, os russos abriram uma nova frente a partir de Leste, a partir de Sumy. Nas imediações de Kharkiv, apesar de os russos manterem a cidade cercada, assistiu-se a uma contra-ofensiva ucraniana que obrigou o inimigo a recuar até à fronteira russa.As forças russas a Leste de Kharkiv e no Norte de Luhansk Oblast tentaram fechar mais uma ponte terrestre.
No Sul do país, os exércitos de Putin avançaram ainda mais e ocuparam as cidades de Kherson, Melitopol e Berdiansk. As suas tropas também cercaram Mariupol (Sudeste), que permanece sitiada.

Também nesta segunda semana da invasão, a crise humanitária levou os dois lados a concordar com um cessar-fogo para o estabelecimento de corredores humanitários que permitissem a fuga a centenas de milhares de pessoas presas nas cidades sob ataque. Os russos insistiram na evacuação de civis para o seu próprio território e para a Bielorrússia, para as cidades de Rostov, Belgorod e Gomel.
As autoridades ucranianas disseram que só conseguiram realizar evacuações com sucesso a partir de Sumy. Em Mariupol, onde a situação é mais crítica, verificaram-se várias interrupções na evacuação de civis (na rota para Zaporizhzhya), à conta de bombardeamentos constantes sobre a cidade.

As forças ucranianas continuaram a impedir o inimigo de assumir o controlo de novas cidades. Mas os russos fizeram avanços menores em várias frentes e os seus movimentos denunciaram um alvo crítico no centro da Ucrânia: a cidade de Dnipro.
Dnipro ocupa uma posição estratégica importante. Com as tropas russas a avançar pelo Norte, perto de Kharkiv, e pelo do Sul, a partir da Crimeia, o objectivo passa por isolar as forças ucranianas que lutam na região de Donbass, no Leste, ou forçá-las a recuar.
No Eixo de Kiev, além das tropas avançadas, surgiu mais consolidado o avanço russo em direcção à capital surge pelo Nordeste. As tropas de Putin estavam agora a cerca de 70kms de Kiev.

O esforço russo no Sul da Ucrânia fez na segunda semana o maior progresso desde o início da invasão. Depois de assumir o controlo da central nuclear de Zaporizhzhya, a Rússia continua a pressionar o Norte de Melitopol. Nesta cidade, o Presidente da Câmara foi detido pelos russos e levado para Lugansk. Será julgado por terrorismo, segundo os meios de comunicação social.
O final da segunda semana fica marcado pelo aparecimento de forças pertencentes ao líder checheno Ramazan Kadyrov, as formações de segurança interna da Rússia Rosgvardia e a membros do ex-grupo ‘Wagner’ nos arredores Ocidentais de Kiev.
Isto pode indicar que os militares russos começaram a reunir poder de combate de forma consolidada para lançar o seu assalto final à capital. Até aqui, as forças russas obtiveram apenas ganhos limitados. Mas como percebemos no mapa, prepararam-se para cercar a cidade também a Leste (via Brovary), enquanto os ucranianos contra-atacam a ofensiva russa em Ivankiv, a Noroeste.

TERCEIRA SEMANA
O avanço russo continuou limitado, principalmente a Norte. Uma brigada reforçada russa tentou avançar em direcção a Kiev através dos seus arredores ocidentais, mas sem sucesso.
Outras operações menores continuaram lentamente no avanço a Sudoeste da capital. Mas os russos deparam-se com o problema de garantir a segurança e o efectivo estabelecimento de longas linhas de comunicação, ligando a frente às bases russas em redor de Sumy e Chernihiv. O hábil e determinado assédio ucraniano a essas linhas dificultou e continua a dificultar bastante a tarefa.
No eixo de Kharkiv, apesar de não conseguir tomar a cidade, o Kremlin desencadeia bombardeamentos constantes, arrasando a cidade. A tenacidade ucraniana na sua defesa obriga os russos a procurar contorná-la para seguir em direcção ao Sul. Mas as linhas de abastecimento esticam-se cada vez mais. E o mesmo problema se verifica no Sul, na incursão para Odessa. Apesar de terem contornado Mykolaiv, os russos estão a mais de 120kms da cidade, o que faz com que necessitem de abastecimentos numa linha também ela demasiado longa. Presume-se que os russos não avançarão para uma operação anfíbia sem terem garantido o controlo territorial junto à cidade, até porque os ucranianos contam com mísseis “Neptune” (mísseis de defesa costeira com um alcance efectivo superior a 100kms de distância).
Porém, todas as dificuldades com que o exército russo se tem vindo a deparar não são impeditivas de se verificar uma enorme destruição das cidades ucranianas. Mariupol, Mykolaiv, Kharkiv, Sumy, Chernihiv e mais recentemente Kiev são exemplos de ataques indiscriminados das forças invasoras, direccionando o seu poder de fogo de artilharia e procurando quebrar a moral do povo ucraniano. As baixas e os danos aumentam progressivamente, de dia para dia.
Contudo, os ataques aéreos russos não se limitam aos pontos acima elencados. Também foram atingidos alvos a cerca de 25kms da fronteira com a Polónia, que é membro da União Europeia e da Organização do Tratado do Atlântico Norte (NATO). Foram lançados cerca de 30 mísseis contra uma base militar em Yavoriv, perto de Lviv, a maior cidade no Oeste da Ucrânia. Após os ataques a Ivano-Frankivsk e Lutsk, surge uma nova ofensiva russa, numa área que era considerada relativamente segura para os ucranianos que fogem do país, bem como para a entrega de recursos ocidentais ao exército local (essencialmente nos pontos da linha de fronteira indicados no mapa).

No decorrer desta terceira semana, as forças russas realizaram poucas ofensivas terrestres. Apenas nos oblasts de Donetsk e Lugansk conseguiram conquistar novos territórios. O Estado-Maior ucraniano informou que os russos tomaram medidas predominantemente para restaurar a prontidão de combate e reagruparam as unidades de combate. Putin continua a reunir reforços e a tentar melhorar o apoio logístico nas direcções operacionais de Kiev e do Sul. Provavelmente, o Kremlin retomará os ataques em larga escala em ambos os eixos de avanço na próxima semana, procurando reunir o poder de combate necessário para completar o cerco de Kiev.
No momento actual, percebemos que a estratégia global russa passa por estabelecer contacto entre as várias frentes. As frentes Sul e Leste estão já ligadas, restando Mariupol, que continua a resistir estoicamente. As tentativas para fazer a ligação entre as forças do Nordeste com os exércitos do Leste ainda não resultaram no estabelecimento de uma ponte terrestre, apesar de se aproximar progressivamente do objectivo. As maiores dificuldades, no entanto, estão no estabelecimento de uma nova frente na capital ucraniana. Os russos pretendem atacar Kiev também pelo Leste, com as linhas provenientes de Sumy. Mas esta é uma situação com a qual os russos ainda não conseguem lidar. As longas linhas de abastecimento são constantemente atacadas pelos defensores ucranianos.

Volvidos vinte dias, há um dado que toma especial relevância: até ao momento, as principais cidades ucranianas (ainda) não caíram nas mãos dos russos. Kherson, no Sul, foi a maior cidade ocupada e totalmente no controlo do exército russo.
Contudo, isso não indica a iminência de uma derrota de Putin ou mesmo um impasse. O poderio militar da Rússia é incomparavelmente superior ao ucraniano e ainda nem sequer foi utilizado na sua plenitude. A questão centra-se na enorme capacidade para resistir dos ucranianos, aliada aos constantes e evidentes erros cometidos pelos invasores. A curto/médio prazo, as crescentes baixas russas e a incapacidade para tomar as principais cidades podem resultar em graves dificuldades logísticas. Mas daí podem também brotar ataques ainda mais pesados e, como já assistimos, a obliteração de grandes centros urbanos.
A BATALHA DE KIEV
Geograficamente, Kiev beneficia de uma “protecção” circular de várias cidades como Irpin, Hostomel e Brovary. Nestes locais, as forças ucranianas mantêm-se com enorme resiliência, impedindo o avanço dos russos. E este “anel” em redor da capital tem um raio com cerca de 30kms. Só ultrapassando estes obstáculos é que os russos estarão em posição de disparar grande parte dos seus “howitzers” a uma distância suficientemente adequada para poderem arrasar Kiev.

Apesar dos problemas com o pessoal e logística, as posições russas estão estabilizadas em torno da cidade. Mas as chefias militares duvidam da sua capacidade para a ocupar com sucesso Kiev – em vez de a destruir -, o que explicaria a razão pela qual Rússia intensificará o bombardeamento da capital. As forças ucranianas estão a defender com sucesso a capital, mas não têm a capacidade de remover completamente os russos.
CRISE HUMANITÁRIA
Ao vigésimo dia do conflito, as autoridades ucranianas apontam que mais de 4.000 pessoas foram evacuadas das cidades da linha de frente. E cerca de 2,9 milhões de pessoas fugiram da Ucrânia, de acordo com a última contagem da agência de refugiados da ONU.
A contagem mais recente e ainda crescente registou 1.791.111 pessoas provenientes da Ucrânia que na Polónia, 263.888 na Hungria, 213.000 na Eslováquia, 142.994 na Rússia, 422.086 na Roménia, 337.215 na Moldávia e 1.226 na Bielorrússia. Os números representam o número de refugiados atualmente presentes em cada país, não o número de entradas. A maioria das chegadas são mulheres e crianças. Todos os homens com idade entre 18 e 60 anos foram impedidos de deixar a Ucrânia para lutar contra os invasores russos.

BAIXAS
Segundo as Nações Unidas, contabilizam-se mais de 1000 mortes entre os civis na Ucrânia até 10 de março, embora se acredite que o total possa ser consideravelmente maior. As regiões ucranianas com mais vítimas são Donetsk e Lugansk.
Os militares dos EUA estimam que entre 2.000 e 4.000 membros das forças armadas ucranianas, guarda nacional e forças voluntárias foram mortos. Do lado russo, estima-se que entre 5.000 e 6.000 soldados morreram. As forças armadas ucranianas dizem que mais de 12.000 soldados russos foram mortos desde 24 de Fevereiro.
PROTESTOS ANTI-GUERRA
Manifestantes em cidades de todo o mundo expressaram solidariedade com a Ucrânia, com adesões massivas contra a decisão do Kremlin em invadir o país vizinho. Segundo um grupo independente russo de direitos humanos que monitora os protestos, 13.912 pessoas foram detidas por participar manifestações anti-guerra na Rússia desde o início do conflito. Foi relatado que os protestos ocorreram também noutras 53 cidades russas.
AJUDA INTERNACIONAL À UCRÂNIA
A União Europeia doou 500 milhões de euros em armas e outras ajudas aos militares ucranianos. Ursula von der Leyen, Presidente da Comissão Europeia, referiu que “pela primeira vez, a União Europeia financiará a compra e entrega de armas e outros equipamentos a um país que está sob ataque”.
O Governo do Reino Unido afirmou que doou 100 milhões de libras à Ucrânia.
Estados Unidos, Alemanha, Finlândia, Suécia, Dinamarca, Noruega, Espanha, Portugal e Holanda auxiliaram com material militar.
CESSAR-FOGO À VISTA?
As conversações entre Moscovo e Kiev mantêm-se. Os ucranianos deparam-se com um país já bastante destruído e com a possibilidade de ver grande parte das suas principais cidades arrasadas. Mas os russos enfrentam muitos problemas logísticos, além de baixas elevadíssimas. Uma transição do conflito para uma guerra de atrito é algo que o Kremlin, definitivamente, não contemplava nos seus horizontes. As negociações de paz em curso serão extremamente importantes.
Fontes:
– Statista Research Department;
– OSINTtechnical;
– Institute for Study of War;
– Global Conflict Tracker;
– liveuamap.com
