Revista Rua

2019-04-02T12:20:11+00:00 Cultura, Outras Artes

Um Livro Debaixo da Asa, o retorno dos clubes de leitura

O retorno dos clubes de leitura com o grupo “Um Livro Debaixo da Asa” de Joana Clara e do seu amor à Natureza e aos livros.
Cláudia Paiva Silva
Cláudia Paiva Silva2 Abril, 2019
Um Livro Debaixo da Asa, o retorno dos clubes de leitura
O retorno dos clubes de leitura com o grupo “Um Livro Debaixo da Asa” de Joana Clara e do seu amor à Natureza e aos livros.

O tema não será certamente novo, nem tão pouco o conceito. Mas a verdade é que volta a ser quase imperioso haver uma nova abordagem ou ataque à leitura e literacia a nível nacional, ao que lemos, à literatura. A construção de novos grupos de leitura e do livro, bookclubs, que possam abranger diferentes tipos de pessoas, classes e estratos sociais, é essencial para desmistificar a ideia de que quem lê é apenas o “intelectual”. Da mesma forma, numa época de tanta informação por via tecnológica, de redes sociais, também é verdade que as falsas notícias proliferam à vontade e deixou de haver um sentido crítico de quem procura conhecimento por via da internet. Talvez por isso também, Joana Clara (@ascavalistasdovento) tenha criado um dos mais recentes grupos de leitura, com temas mensais e encontros no mesmo intervalo de tempo, onde todos os participantes podem partilhar as suas leituras, quais os títulos que mais os inspiram, quais as histórias que mais os comovem e movem, muitos deles lidos em intervalos de almoço ou no pêndulo diário da casa-trabalho e vice-versa, em transportes públicos.

Joana Clara

Chama-se Um livro debaixo da Asa (@umlivrodebaixodaasa) e, de acordo com a criadora, tudo está relacionado com a poderosa presença do elemento natural que nos rodeia: “(…) perpetua a minha ligação à Mãe-natureza. Não é mais do que um projeto para quem, como eu, tece recordações através do ímpeto, do toque e do cheiro das palavras impressas em papel. Apesar de existir um suporte digital, a nossa conta de Instagram, que lhe permite chegar a mais pessoas nos trilhos do online, a ideia é regada na quietude do offline, através de cartas, tertúlias mensais e ofertas de livros de editoras nacionais. A dinâmica é a mesma ao longo dos 12 meses do ano: um tema comum a uma miríade de livros, sejam eles biografias ou romances históricos, volumes ilustrados, ficcionados ou infantojuvenis, nas suas versões de bolso, usadas ou recém-chegadas às livrarias, de capa dura ou mole, traduzidos ou na sua língua original. Os temas lançados, embebidos em poesia e em experiências sensitivas, oferecem liberdade de escolha, sem cismas ou tédios, para impulsionar a partilha de diferentes perspetivas e o comprazimento nos enredos que amparamos a cada virar de página no calendário e estação do ano.”

Quando questionada do como e porquê de criar um clube de leitura, Joana revela: “Vou encontrar-me para me perder num livro: este é um lema de vida que trago debaixo da asa desde a meninice. Tenho para mim que tudo passa quando nos demoramos nas páginas de um companheiro de aventuras, porque as palavras têm o condão de chegar àquela gaveta especial do coração, trazendo consigo uma brisa cálida, mas refrescante, que nos dá colo. Na verdade, a minha história de amor com a leitura, com cheiro a laranja e a saudade, começou com A Pequena Vendedora de Fósforos, o conto do poeta e escritor dinamarquês Hans Christian Andersen, que a minha mãe narrava, sabendo-o de cor, nas nossas viagens no banco traseiro do carro.”

“Existem uma miríade de clubes literários que me inspiram diariamente com as suas dinâmicas, como o da Helena Magalhães, das meninas do Armazém de Ideias Ilimitadas, da Melina Souza, da Reese Witherspoon, da Emma Roberts, da Florence Welch, da Oprah e da Emma Watson”

Não nos enganemos, Joana é jornalista e isso poderia ser um requisito quase obrigatório pelo amor aos livros, ao cheiro ao papel, às palavras, que são articuladas e faladas praticamente com a mesma poesia como quando as escreve. Da mesma forma e não fugindo à modernidade em que nos situamos, é igualmente blogger e a sua página Às cavalitas do Vento é das mais bonitas tanto em fotografia, como, claro está, em textos redigidos com uma quase estranha harmonia e delicadeza, incoerentes com a celeridade com que se vive atualmente. É contudo a sua sensibilidade ao que a rodeia, às pessoas que vai conhecendo e, sobretudo, à sua forte ligação com a família e espaços onde cresceu, numa cidade dormitório nos arredores de Lisboa, que lhe deram o mote, para calmamente criar o clube de leitura: (…) Entre sugestões de leituras, de livrarias e de bibliotecas para os amigos e a família, e com um prazeroso pousio, houve uma outra semente do meu campo que conquistou raízes, germinou e floresceu em janeiro deste ano”.

Contudo, impõe-se um pouco a questão de ser algo que agora está ou não está na moda, tal como há uns anos, o boom das 50 Sombras de Gray ter novamente colocado hábitos literários nas mesas dos portugueses. Não será que, agora também, exista uma espécie de moda associada aos livros? Joana defende que não inventou nada de novo, nem fórmula mágica. “Existe uma miríade de clubes literários que me inspiram diariamente com as suas dinâmicas, como o da Helena Magalhães (@hmbookgang), das meninas do Armazém de Ideias Ilimitada, da Melina Souza, da Reese Witherspoon, da Emma Roberts, da Florence Welch, da Oprah e da Emma Watson. À semelhança de quem admiro, almejo honestidade, presente (o do tempo verbal e o da vida que pulsa cá dentro), efervescência, crítica e comunidade”. Continuando com a mestria de quem doma as palavras: “O meu vintém é a minha vontade descompassada de tropeçar neste bem-querer desatinado pela leitura e pela partilha. Sim, danço na onda deste amor por quem não lê os mesmos livros que eu e prefere um bate-papo com os dedos a tilintar num livro”.

Importante é mencionar que este grupo já conta com dois encontros realizados em Lisboa, onde, realmente, mais do que apenas mostrar os livros, é um grupo onde a partilha de ideias baseada nas leituras se começa a sentir. Experiências pessoais, de viagens, de trabalho, experiências sociais são igualmente debatidas numa quase mesa redonda, junto de chás e bolos, funcionando também como uma catarse emocional a cada um dos participantes. Não se pense que existem listas de livros a ler obrigatoriamente ou sequer a necessidade de se ler naquele mês um livro qualquer. É aliás um dos objetivos de Joana “descobrir novos autores, registos, estilos e viagens” para evitarmos a dormência, estimularmos o prazer deste tempo-livre e expandirmos horizontes. “O clube literário Um Livro Debaixo da Asa potencia e democratiza o acesso à leitura, não fecha portas aos mentores de projetos similares e convida ao debate, à partilha, à socialização, à interação e à presença, para que o conhecimento não seja apenas um bom filho que à casa torna – aqui, ele é fruto da liberdade e da Terra das canções do ar”.

O tema de março que será moderado pela Joana no próximo dia 6 de abril no Colectivo 71.86 (São Sebastião da Pedreira, em Lisboa) e, para surpresa, terá a participação de João Tordo que irá falar sobre o seu novo livro, A Mulher que Correu Atrás do Vento.

Quando interrogada pela possibilidade de, em termos sociológicos, poder ser uma forma de integração no futuro, incluindo juntas de freguesia, bibliotecas públicas, de forma a chamar a atenção a mais pessoas para mais livros, Joana responde: “Tive a sorte de ter tido uma professora de Português A, na escola secundária, que nos pedia para expressarmos criativamente a nossa abordagem e interpretação de uma obra de leitura obrigatória: encenei um ato de Frei Luís de Sousa, de Almeida Garrett, e contos tradicionais, assisti a adaptações cinematográficas de clássicos da literatura indicados para os exames nacionais, embarquei numa inesquecível rota por Santarém inspirada em Viagens na Minha Terra, também de Garrett, analisei quadros do pintor italiano Giuseppe Arcimboldo para contemplar a poesia salutar e espontânea de Cesário Verde com outros olhos e descobri o Grémio Literário graças às rigorosas descrições do pai do romance realista, Eça de Queirós, em Os Maias. É esta pluralidade e transversalidade que a leitura tem e que é tão sociológica, cultural e intelectualmente enriquecedora, que nos surpreende em qualquer lugar. São estas histórias envolventes que quero contar no Um Livro Debaixo da Asa; e é precisamente nesse sentido que pretendo caminhar – quem sabe, com o apoio das câmaras e bibliotecas municipais, escolas, livrarias, editoras e escritores”.

São aliás os temas mensais que deram visibilidade e crescimento ao grupo, à participação crescente e ativa de participantes, à discussão de ideias. “Um livro que abrace como uma brisa amena” é o tema de março que será moderado pela Joana no próximo dia 6 de abril no Colectivo 71.86 (São Sebastião da Pedreira, em Lisboa) e, para surpresa, terá a participação de João Tordo que irá falar sobre o seu novo livro, A Mulher que Correu Atrás do Vento.

Partilhar Artigo: