Revista Rua

2020-06-22T11:20:37+00:00 Opinião

Um Marinheiro achado

Crónica
Márcio Luís Lima
Márcio Luís Lima
22 Junho, 2020
Um Marinheiro achado
©D.R.

Passaram-se largos dias desde a minha última crónica e tudo tem sido uma pressão sobre pressão. O encontro do estilo e da voz é um choque que nos aprisiona de uma determinada forma. Agarra pelo pescoço e encosta contra a parede de tijolos mais próxima.

— És demasiado realista

E caem os nomes das ruas, as viragens nos cruzamentos indicados, a marcação do calendário, as personagem-tipo e tudo o resto.

— Muito subjetivo

E acrescenta-se um adjetivo, uma forma obscura de ver o mundo pela amargura da morte. Os dias viram nauseabundos e as noites melancólicas.

— Há uma aura negra nas tuas palavras

Um tom sarcástico vem salvar o cru da pele fervida a sangue frio, limpa o vómito dos degraus e a empregada da limpeza pode regressar para o marido que abusa dela há quinze anos com o filho toxicodependente a roubar-lhe os trocados do dia.

— Não te entendo

E as folhas batem na mesa com a raiva de um marinheiro em alto mar há trinta dias sem sexo a comer latas de conserva e a ouvir as mesmas histórias da trupe alcoolizada em vinho tinto quente de pacote.

As sardinhas migraram para a embarcação mais próxima e os soldados ficaram todos em terra com as esposas solitárias dos bravos pescadores lamacentos e chorões, aguardando pacientemente pelo cancro da pele como um pobre Santiago.

Um dos marinheiros aborta a missão e regressa a casa sem estilo ou voz, sem peixes na rede, com a cana às costas para a estender na garagem junto do Peugeot 206 preto e cascado dos maus estacionamentos consecutivos. Condu-lo até à tasca da ribeira e serve-se de um bom prato de comida.

Futebol, barulho humano, calor no peito de um bom vinho branco fresco e a ausência de gemidos duvidosos por parte de outros marinheiros que se prendiam com os músculos entesados entre o orgasmo e o pesadelo.

“E é isto uma crónica? Assim?”

E sem peixes em terra comeu grelhadas mistas, algumas ainda em sangue, com pesados ossos e cervejas em canecas de meio litro. Quando voltou a pescar fê-lo sozinho, num pequeno barco de madeira, ou da berma do rio.

Alimentava-se das próprias delícias que a cana lhe oferecia e aprendeu que a vida é uma mistura de barulhos e zumbidos ensurdecidos para os quais os pescadores não têm isco nas orelhas.

O rádio a pilhas e a confiança de que não era uma personagem de Melville ou Hemingway fosforaram no seu peito os últimos dias de vida numa faísca emotiva, a combustão piscatória aterrou-lhe o batimento em cinquenta linhas de história.

E lá se fez a crónica sem comentários.

Sobre o autor

Licenciado em Filosofia (atual mestrando). Escritor, no sentido lato da palavra. Um apaixonado por boa literatura. Presente através do ig (@marcioluislima) e de becodapedrazul.wordpress.com. Toda a escrita tem por base o detalhe certo, daí sucede-se a vida.

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