Revista Rua

2020-07-15T11:24:27+00:00 Opinião

Um pão de ovo mal passado (do passado)

Crónica
Márcio Luís Lima
Márcio Luís Lima
15 Julho, 2020
Um pão de ovo mal passado (do passado)
©D.R.

Há umas certas crónicas de Nelson Rodrigues, ainda fresco nas edições em Portugal, na obra “O Homem Fatal” que descrevem a fome que ele passou e de que modo é que isso o marcou. O Nelson Rodrigues escreve sobre a fome de uma maneira peculiar e explicita um trauma que vivenciou enquanto criança – a merenda de que dispunha era uma mísera banana e, inicialmente sentia-se vaidoso com a sua banana, contudo, vendo os seus colegas a comer sandes com bifes, queijo, entre outras coisas melhores, envergonhou-se do fruto que trouxera.

O que o marca mais é a imagem, que descreve afincadamente – levando o leitor a sentir-se na pele do autor –, de um garoto a comer uma sandes de ovo, com a gema a escorre-lhe pelo queixo, no pátio do colégio. Por vezes Nelson nem a banana comia e aquela imagem absorvia-lhe o pensamento, aliciando-lhe uma fome proveniente dos cemitérios do tempo.

Tornando-se num adulto severamente estigmatizado pela sandes de ovo, escreve a crónica simbolizando a fome através daquele momento e singularizando cada circunstância em que chega a casa e pode comer a sua sandes de ovo com gema a escorrer-lhe pela boca, dando-lhe a capacidade única de rememorar a fome, de modo a que somente ele possa compreender tal ato.

“Mas eu comi mesmo pão com ovo. Lúcia não entendeu, nem podia entender. Eu fazia, ali, uma maravilhosa imitação da vida. De repente, baixara em mim a fome de 1919. Era, de novo, o pátio do colégio.” (Nelson Rodrigues in “O Homem Fatal”)

Para mim não se trata apenas da fome, mas dos pequenos traumas que levam a instantes estáticos da vida que passou. Podemos voltar a nós próprios noutro tempo com pequenos objetos ou comidas (ou músicas, livros, etc.) de uma maneira singular que jamais alguém pode compreender senão nós mesmos. Isto tudo num constante devir do presente, que deste modo constitui também o futuro.

O tempo tem uma capacidade fascinante de se compassar em tempos diferentes, como se a linha reta e infinita se desalinhasse por uma agitação interior e um paralelismo instantâneo, como um trovão a abrir luz na noite escura, volvendo à sensação que outrora experienciámos.

Talvez a experiência da fome seja mais intensa para uns, tão intensa que os faça mover crónicas a fio na memória de um pão com ovo mal passado; e talvez para outros esta experiência tenha a fome como metáfora para algo tão “único” que no burburinho do silêncio noturno, as partituras da bruma comecem a deslaçar uma harmonia muda conduzindo os mais bravos e corajosos aos instantes mais frágeis.

Sobre o autor

Licenciado em Filosofia (atual mestrando). Escritor, no sentido lato da palavra. Um apaixonado por boa literatura. Presente através do ig (@marcioluislima) e de becodapedrazul.wordpress.com. Toda a escrita tem por base o detalhe certo, daí sucede-se a vida.

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