Revista Rua

2020-10-21T22:10:07+00:00 Opinião

Uma conversa fantasmagórica

Crónica
Ana Marques
Ana Marques
21 Outubro, 2020
Uma conversa fantasmagórica

Já passaram umas valentes semanas, dizia ela, rasgando entre o mais íntimo tremor penoso a solidão que a embarca como nas madrugadas ínfimas, e acrescenta Parece que foi ontem que tudo ou nada era ambicionado e desejado para, agora, chegarmos a este fado; deve ser o destino do qual falámos vezes sem conta, às tantas decidiu pregar-nos esta rasteira.

Do outro lado, um alguém, um ele, ria com o que ela lhe relembrara, indo buscar das profundezas da reminiscência algo que já o tempo tinha feito esquecer e disse Pois, bem capaz é ele dessa e tantas outras coisas mais.

Esteticamente, como a qualquer romance, urge um ambiente pesado, já que peitos carregavam em si um entulho exorbitante de uma mescla de palavras e anseios, mais que aqueles receios existentes por causa do bicho que por aí deambula disposto a infetar, pois nada era mais como d’antes, com exceção daqueles dois rostos, semblantes conhecidos e amplamente desconhecidos, um mais ledo que o outro, um mais firme que o outro, e isto são escarrapachamentos – isto, por vezes, inventam-se palavras que se encatrafiam perfeitamente em sítios específicos, como este –  que ao narrador nada têm que ser motivo de intrometimento, lá porque é ele quem escreve e descreve este contar, porque, para isso já bastava o fado, o tal que nem por Amália era fadado, mas a calcular pelas batidas cardíacas e pela noite lúgubre neste recanto silencioso, mais fazia lembrar um terceto plangente de uma composição lírica da fadista. E que bem!

Já toda ela disposta a tratar do silêncio que estava de cortar à faca, pega toda ela nesse faqueiro, engole-o, uma vez mais, repare que não uma, não duas, mas mais do que três vezes em que o fez, uma a mais, para variar, para se certificar de que mais uma é sempre mais uma, aguenta como pode a dilacerante e acutilante espetada que as diversas dores existem para, seguidamente, ousar pronunciar palavras do género que impressionam Encontrar as palavras certas para este momento é bem pior do que candidatar-me a uma audição qualquer para uma novela ou para um casting de BB, e olha que conheces o meu à vontade para o parlapiê de alguém que sabe comunicar. Preferia fazer uma sessão fotográfica à mosca que pousou na tola do Pence, do que propriamente sentir esta saudade meio que esfarelada, meio que bolorenta, meio que tísica; antes fosse poder senti-la exteriormente e não com esta pujança dentro do corpo, como podes imaginar. Oxalá pudéssemos entrar por dentro e com uma mão distribuir umas palmadinhas de quando em vez, acho que era um serão interessante. Claro, num cenário muito hipotético…

Ele, o determinado indivíduo que desconhecemos e não há poder de determinar qual a sua identidade, recebeu tal discurso com um gargalhar capaz de fazer estremecer o cabelo ao pendurão, com madeixas a arrepelarem-se, a bailarem, não se sabe se por causa da brisa à solta, a marota que não pedira autorização para ali se servir de vela, ao que ele, lá pelo meio de um sorriso dado, voz coloquial, fez aconchegar nela umas palavras calorosas Acho que era mais benéfico com uma tanaz, assim ainda resgatavas algum pedacinho deslocado, colocavas na ordem certos órgãos feitos bandidos que andam ao sabor da libertinagem.

Passa alguém a correr, deve ir com pressa para terminar o exercício de final do dia. Chegando a casa, talvez se deite no sofá a lambuzar batatas fritas por não ter paciência para cozinhar. Já imagino: liga a Netflix, escolhe qual a série para mergulhar, o corpo mole estende-se pelo aconchego das nádegas almofadadas e estão as pálpebras a preparar o cérebro e o corpo para um serão de pré-sono. Bom, regressemos ao cenário que nos fez escutar esta conversa entre dois pombos que não atam nem desatam. A chuva, embora tímida, começa a molinhar os degraus de madeira que contrastam a relva impecavelmente aparada e delineada pelos caminhos que desenham o parque. Inaudíveis vozes ciciam nos percursos longínquos. Oh! Estes dois já começaram a andar, se calhar por causa da chuva decidiram fazer-se à estrada, já não era sem tempo! Continuam a falar, mas com as máscaras só um bafo sussurrante se consegue ouvir. Ahhhhhh, maldito vírus que até conversas nos impede de ouvir para que os escritores tenham a oportunidade de fazer perdurar personagens nos seus textos!

Sobre o autor:

Estudo Ciências da Comunicação. Sou uma espécie de Camilo Castelo Branco: escrevo coisas aborrecidas e poucos reconhecem o meu talento. Há quem diga que tenho algum humor, eu digo que emano comédia.

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