Revista Rua

2020-06-02T09:41:41+00:00 Opinião

Uma crónica inútil

Crónica
Márcio Luís Lima
Márcio Luís Lima
2 Junho, 2020
Uma crónica inútil
 Edouard Boubat - (Paris 1968)

Um trovão cai sobre o meu olhar enquanto me isolo na varanda soturna a fumar o último cigarro do dia/noite. Um estouro repentino ensurdece-me momentaneamente após uma claridade que cega os sentidos e estremece as pernas. As águas do céu rebentam sobre a rua seca e um odor a terra levanta-se na bruma da noite.

Na varanda não chove, a arquitetura do espaço não permite uma vez que o vento não concedeu alento suficiente aos pequenos fios de teias de aranha brilhantinas sob as luzes led que instalaram no mês passado no quarteirão.

Acabo o exercício cancerígeno com a máxima urgência e uma réstia de tabaco apodrece no cinzeiro húmido. Já não tenho paciência para ler, as horas perderam-se até aqui, portanto fico na incerteza de um lençol a meia perna ou meio tronco.

Acordo ainda sem saber se a temperatura é do solstício de Verão ou de Inverno – se tenho de ligar a ventoinha na velocidade máxima ou vestir uma t-shirt. Abro a janela e do outro lado percebo que as nuvens cinzentas, escapulidas com uma claridade ilusória, dão um tom de amargura simples ao dia.

“Sobre que é que posso escrever hoje?”

Há crónicas que nada dizem, que são mero exercício quotidiano de cão-escritor encravado que precisa de cuspir os ossos de frango assado que não se digesta corretamente.

“Há alguma coisa para escrever?”

Não há como saciar a fome da criação porque nada se cria na sua plenitude. Por vezes é necessário que haja crónicas que nada digam, que nada afirmem, que não clamem… literatura reciclada para três minutos de leitura esquiva. Os poucos leitores nunca sabem o que esperar e nunca sabem ao certo o que reter. A crónica aconteceu. A crónica acabou.

“Aqui está a minha nova crónica!”

Assim como entro no meu Renault Clio preto com uma dúzia de anos meramente para comprar tabaco francês, também o leitor dispõe-se da minha crónica meramente para a ler. Enrolo pequenos cigarros em papéis castanhos que se assemelham a folhas de bíblia e espero algum comentário à literacia de rascunho, que escassa vez vem.

Esfrangalhava as boas folhas de um velho bloco, agrafava sobre a mesinha de cabeceira e talvez pudesse construir uma diário de quarentena como o Gonçalo M. Tavares, ou outros escritores com menos mediatismo. Contudo, até os meus dias se esgotam numa eterna repetição entediante.

Rasgo o pacote de mortalhas e com as ossadas do papel duro metamorfoseei-o em marcador de livros. De vez em quando percebo o que é que o vizinhos jantam porque os meus cigarros coincidem com as suas janelas abertas e vozes grossas a berrar. O quanto mais sobra disto é ameno – a dúvida entre o céu e o abrir da janela.

Sobre o autor

Licenciado em Filosofia (atual mestrando). Escritor, no sentido lato da palavra. Um apaixonado por boa literatura. Presente através do ig (@marcioluislima) e de becodapedrazul.wordpress.com. Toda a escrita tem por base o detalhe certo, daí sucede-se a vida.

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