Revista Rua

2019-01-18T00:20:17+00:00 Cultura, Teatro

Uma Montanha-Russa de emoções adolescentes arranca no CCVF

O espetáculo “Montanha-Russa” junta a dupla Miguel Fragata e Inês Barahona, da companhia de teatro Formiga Atómica, à música criada por Hélder Gonçalves e Manuela Azevedo, dos Clã. O espetáculo traz ao CCVF, em Guimarães, as preocupações adolescentes.
Fotografia ©Nuno Sampaio
Andreia Filipa Ferreira
Andreia Filipa Ferreira18 Janeiro, 2019
Uma Montanha-Russa de emoções adolescentes arranca no CCVF
O espetáculo “Montanha-Russa” junta a dupla Miguel Fragata e Inês Barahona, da companhia de teatro Formiga Atómica, à música criada por Hélder Gonçalves e Manuela Azevedo, dos Clã. O espetáculo traz ao CCVF, em Guimarães, as preocupações adolescentes.

O palco do grande auditório do Centro Cultural Vila Flor, em Guimarães, preenche-se de movimento, entre a vivacidade das luzes que acompanham a batida pop/rock da música e a intensidade das danças e corridas dos “adolescentes” em cena. É num ritmo acelerado, quase ofegante, que surge Montanha-Russa, um espetáculo desenvolvido por Miguel Fragata e Inês Barahona, da companhia de teatro Formiga Atómica, com a participação musical (e não só) de alguns elementos da banda portuguesa Clã. O espetáculo, que convida o público geral para a sessão de sábado, dia 19 de janeiro, às 19h, é um autêntico hino à adolescência, numa conjugação de diários que refletem, apesar das décadas diferentes retratadas em cena, as questões transversais que atormentam a mente adolescente. Numa espécie de teatro musical que desafia a própria lógica do teatro musical – e até as leis da gravidade -, Montanha-Russa é o resultado de uma pesquisa exaustiva pelos diários adolescentes nas décadas de 70, 80, 2000, até ao presente. Em palco, a Montanha-Russa é um questionar incessante, tendo na música o veículo que liga as histórias das personagens. Atores e músicos são cúmplices neste turbilhão de emoções que deu, até, graças à pesquisa pelos diários adolescentes, origem a um documentário, assinado pela cineasta Maria Remédio. Canção a meio poderá ser visto no dia 19, pelas 17h, no pequeno auditório do CCVF.

Três perguntas a Miguel Fragata para desvendar esta Montanha-Russa:

Esta Montanha-Russa é um hino à adolescência. Qual a principal mensagem que pretendem passar ao público?

Começava por falar no início deste processo. Este espetáculo nasceu de um desejo meu e da Inês Barahona, através da companhia Formiga Atómica. Vínhamos de um espetáculo em que tínhamos explorado as diferenças e as dificuldades de comunicação e interação entre os adultos e as crianças. Era um espetáculo com um dispositivo cénico muito especial, em que havia um muro no centro do palco, que dividia duas plateias – uma exclusiva para adultos e uma exclusiva para crianças. O espetáculo acontecia entre os dois lados do muro e trabalhava precisamente a tensão adultos-crianças. Começávamos por separar o público à chegada e perguntávamos aos adolescentes se queriam ser eles a escolher o lugar onde se queriam sentar. Acontecia, muitas vezes, que os adolescentes, quando vinham acompanhados por adultos, preferiam ficar do lado das crianças, para ficarem longe dos adultos. Mas quando vinham sozinhos ou em situação de grupo preferiam ficar do lado dos adultos. Ora, esta questão, no The Wall, fez-nos ter muita vontade de, num trabalho próximo, trabalhar realmente sobre a adolescência. Mas interessava-nos conhecer as verdadeiras questões da adolescência, ou seja, não trabalhar apenas a partir de uma memória longínqua e muito filtrada que nós como adultos temos da nossa própria adolescência – isso resultaria, com certeza, num espetáculo feito de ideias feitas e clichés.

Tivemos o convite do Teatro Nacional D. Maria II (que foi o nosso principal parceiro, apesar de haver outros coprodutores muito importantes) e, durante um ano e meio, criámos um conjunto de atividades que nos aproximaram de cerca de 600 adolescentes,  permitindo-nos realmente perceber quais são as verdadeiras questões da adolescência, quais são as inquietações, os receios, os gostos, os comportamentos.

A par dessa extensa pesquisa, fizemos uma recolha pública de diários cuja premissa era terem sido escritos algures numa adolescência. Recebemos muita coisa de outras gerações, grandes coleções de diários dos anos 70, 80, do início do milénio também… mas não recebemos quase nada dos adolescentes de hoje – e o que recebemos não foi em formato diário, foi em formato de excertos de blogs, de posts nas redes sociais, porque de facto é esse o novo paradigma. A escrita quando é diarística, quando relata o quotidiano e as questões mais internas, já não é vertida para um documento como um diário, um objeto que se quer íntimo. Agora o paradigma é algo de exposição, de se dar a ver e a conhecer ao mundo. Com base nisso, criámos então este espetáculo em que temos, por um lado, a banda composta por alguns dos elementos dos Clã, colocando a música a dialogar com o teatro; e, por outro, atores como um representativo de uma geração, a viver a sua adolescência numa situação específica: década de 70, de 80, início do milénio e hoje. Está presente uma ideia intergeracional, expondo as experiências vividas, que podem ser políticas ou sociais. É muito diferente ser-se uma rapariga adolescente nos anos 70, numa ditadura, com censura, ou ter sido um rapaz no início do milénio ou mesmo no presente. No entanto, a par destas diferenças de contexto, as verdadeiras questões são, de facto, as mesmas, sempre.

Que questões são essas?

As expectativas em relação ao futuro, o confronto muito grande entre aquilo que é o topo da montanha-russa e aquilo que é o ponto baixo, este estar muito contraditório que passa pelas alegrias e tristezas, pela depressão e pela felicidade. São também as questões como as descobertas, as experiências, as primeiras vezes que se descobrem na adolescência, a relação com o futuro, a relação com o passado, os pais, a família, os amigos. No fundo, estas questões são absolutamente transversais, não são exclusivas da adolescência. Mas, de facto, na adolescência, são vividas com uma intensidade e uma carga muito própria.

“A banda tem um papel muito importante no espetáculo (…) A música tem a função de ajudar a compreender coisas e questionar outras, de ajudar a formular ideias que não são formuláveis por palavras”, refere Miguel Fragata.

A música tem aqui um papel assumidamente muito importante. Pode descrever-nos este processo de trabalho?

A premissa era que o espetáculo fosse musical, ou seja, que a música tivesse um papel muito importante – mas que não fosse um musical no sentido tradicional. Queríamos que o espetáculo tivesse uma componente de música rock/pop muito forte. E os Clã, até como é anunciado numa espécie de epílogo no espetáculo, foram mesmo uma das bandas que eu, enquanto adolescente, mais ouvi. Por um lado, havia essa nostalgia e, por outro, havia uma qualidade na música deles: um humor, uma capacidade de rir de si própria. Isso era muito interessante para este projeto. Depois, à medida que fomos fazendo esta pesquisa, eu e a Inês Barahona fomos trocando impressões com o Hélder e a Manuela, que foram os primeiros elementos da equipa definidos. Fomos mostrando o material, eles foram também percebendo e mergulhando neste universo adolescente – em particular, no caso deles, o projeto era interessante porque há uma filha que é também adolescente – e, depois, o texto foi surgindo, numa troca sempre constante com as músicas, que foram compostas pelo Hélder e escritas por nós.

A banda tem um papel muito importante no espetáculo. É a música que tem o papel de ligar tudo. Estas quatro personagens vivem adolescências em tempos diferentes e é a banda que dá precisamente essa ligação entre as quatro personagens. A banda vem enaltecer aquilo que são as emoções vividas em conjunto, aquilo que são sensações ou sentimentos que não podem ser ditos, que não podem ser formulados em palavras. A música tem essa função de ajudar a compreender coisas e questionar outras, de ajudar a formular ideias que não são formuláveis por palavras.

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